A Rússia pode estar a perder terreno na batalha por Mykolaiv, mas ainda quer esmagar o que não pode ter

CNN , Nick Paton Walsh, Brice Laine, Maryna Marukhnych e Natalie Gallón
21 mar, 18:00
Tropas russas na Ucrânia (AP Images)

Este é o último autocarro da derradeira posição que a Ucrânia detém na estrada para Kherson - a primeira e única cidade que a Rússia tomou.

Os residentes só têm lugares de pé e os idosos foram empurrados para uma carrinha. “Avô, estamos aqui”, grita a filha de um residente, Viktor, da porta do autocarro, ao vê-lo um pouco confuso na carrinha. O pânico é real. A qualquer momento, o bombardeamento pode recomeçar, um bombardeamento que, segundo os residentes, polvilhou de bombas de fragmentação a vila de Posad-Pokrovske, no sul da Ucrânia.

Quando os dois veículos chegam à estrada esburacada em direção à cidade de Mykolaiv, os projéteis cobrem mais uma vez o horizonte com uma nuvem de fumo preto. Sentado na parte de trás da carrinha, Vitali vai-se abaixo e usa as sujas luvas cor de laranja de operário para limpar as lágrimas dos olhos.

“Civis! Mataram toda a gente, são uns canalhas, são uns répteis, uns parasitas,” diz ele. “Não lutam contra tropas, lutam contra as pessoas. Entende? Matam toda a gente. São piores do que os fascistas.”

Ao lado dele está Viktor, que se lembra da última vez que uma guerra desta intensidade chegou a esta região da Europa. “Claro que me lembro”, diz ele baixinho. “Eu vi como os alemães nos atacaram. Eles não intimidavam as pessoas.”

O autocarro que estava a retirar civis de Posad-Pokrovske

Ataques aéreos, morteiros Grad, bombas de fragmentação - os residentes relembram as duas semanas de intenso bombardeamento do qual o tecido de Posad-Pokrovske é testemunha. Poucos são os edifícios ilesos. A maioria dos telhados desapareceu e uma casa está desfeita em farrapos. A principal tubagem de abastecimento de gás da cidade rebentou e o intenso assobio da fuga relembra que a pequena vila já não é própria para habitar.

A escola ficou sem uma parede inteira. As escadas que outrora estavam cheias de crianças, agora ecoam com o som fantasmagórico dos cacos de vidro que são pisados. Os soldados aparecem nas portas de algumas casas. Os fuzileiros ucranianos que detêm Posad-Pokrovske, a última posição antes dos postos russos que defendem o aeroporto de Kherson, são vagos sobre as suas posições. Mas o objetivo é claro: o aeroporto nos arredores de Kherson, usado como base russa, que já está a ser fortemente bombardeado pelos ucranianos.

Um desses fuzileiros é Daniyel Salem, um antigo soldado libanês. Salem é casado com uma ucraniana e alistou-se assim que a guerra começou. “A nossa missão é matar estes cab***”, afirma, dizendo a brincar que gostaria de transformar a sua carreira insipiente na televisão numa série da Netflix, na qual ele assassinaria o presidente russo Vladimir Putin. “Este lugar costumava ser alegre”, disse ele, apontando para o auditório municipal atrás dele. “Aqui, passavam filmes. Agora, não tem vida.”

A estrada entre a estratégica cidade portuária de Mykolaiv e Kherson, a cidade controlada pelos russos, é um testemunho à coragem ucraniana e à lenta perda de controlo da Rússia sobre os avanços que antes apregoava. As forças da Ucrânia conquistaram ganhos significativos ao longo dos 40 quilómetros da estrada, entre os arredores das duas cidades, e as terras rurais que divide estão marcadas pelos impactos das granadas dessa luta intensa. Embora vulneráveis ​​a uma reviravolta, as conquistas ucranianas expuseram os limites do poderio militar russo nos confins mais distantes das cadeias de abastecimento, bem como a tenacidade das forças ao redor de Mykolaiv que lutam pelas suas casas, e a defesa da terceira maior cidade da Ucrânia, Odessa, que fica mais a oeste, ao longo da costa do Mar Negro.

Edifícios marcados pelos projéteis dos intensos combates

Há blindados ucranianos danificados nos arredores de Posad-Pekrovske e, ao longo da estrada, os sinais dos dias de combate salpicam a paisagem. Regularmente, os bombardeamentos russos atingem os alvos, com morteiros a cair perto da estrada em várias ocasiões testemunhadas pela CNN, e incendiando o mato. A artilharia ucraniana também foi vista em ação no domingo, a disparar para o norte de Kherson.

O progresso ucraniano deu uma nova vida à cidade de Mykolaiv, com a reabertura das lojas a eliminar o medo do cerco que assombrou a cidade na semana passada. Vitaly Kim, o governador cujas mensagens regulares no Telegram uniram Mykolaiv durante a guerra e também alertaram a cidade sobre as ameaças que mudavam diariamente, parece mais descontraído. No sábado, Kim publicou fotos de um par de meias que lhe tinham enviado, costuradas com as palavras “Navio russo, vai-te f**”, numa referência aos defensores de Snake Island. Quando fez anos, na passada semana, o governador recebeu um descapotável com uma metralhadora russa soldada no porta-bagagens, um carro que o chefe de polícia ainda conduz triunfantemente pela cidade.

No domingo, Kim apelou aos residentes que ajudassem a recolher os cadáveres dos soldados russos que ficaram para trás no campo de batalha, pedindo que os colocassem em sacos antes que as temperaturas subissem acima de zero. Kim enviou à CNN várias fotos dos corpos abandonados, acrescentando: “Há centenas por toda a região.”

No entanto, o lento avanço da Ucrânia em direção a Kherson também teve um custo elevado. Na manhã de sexta-feira, uma enorme explosão atingiu duas instalações militares perto do centro de Mykolaiv, com o aparente ataque de um míssil a danificar uma caserna e a reduzir outra a escombros. Os soldados ucranianos não divulgaram o número de mortos do ataque, citando razões de segurança operacional. Mas dois oficiais disseram à CNN que o número de mortos deve ter chegado aos 30. Um oficial médico também falou em 40 feridos.

Um blindado danificado às portas de Posad-Pokrovske

Uma unidade de traumatismos recebeu muitos dos feridos, com as camas esgotadas na tarde de sexta-feira. Um soldado, com o olho enfaixado e a cabeça ensanguentada, pergunta pelos amigos feridos, dizendo o nome deles. Outro soldado, Alexander, ficou com as duas pernas partidas quando o edifício em que dormia desabou parcialmente. “Eu estava no terceiro andar”, diz ele. “Quando aconteceu, desmoronou tudo... Dei por mim no segundo andar, de t-shirt e cuecas”, acrescenta Alexander. Esfrega os olhos para disfarçar as lágrimas e continua: “Conhecemos o inimigo, vocês já devem estar finalmente a ver e a ouvir. Eu não sei. Quantas mortes são necessárias para que todos vejam?”

O bombardeamento continuou ao longo do fim de semana, com sábado a acordar iluminado por tiros e pelo menos oito morteiros a atingir um alvo ao sul da cidade. Moscovo pode estar a perder terreno aqui, mas faz todos os possíveis para esmagar e sufocar aquilo que não pode ter.

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