Legumes, eletrodomésticos, enlatados e automóveis: como a guerra na Ucrânia pode aumentar os preços em Portugal

20 mar, 18:00

Além da subida no preço da energia, que tem efeitos transversais, as perturbações no fornecimento de metais, madeiras, fertilizantes, derivados do petróleo e outras matérias primas vão sentir-se no bolso dos consumidores

A inflação deverá acelerar para 3,9% este ano, em Portugal, mas num cenário adverso, com custos de produção e transportes mais elevados e em que existe uma disrupção no fornecimento das matérias-primas por parte da Rússia à Europa, poderia atingir os 5,6%, estima o Conselho das Finanças Públicas (CFP) no relatório “Perspetivas Económicas e Orçamentais 2022-2026”, divulgado esta semana .

Henrique Tomé, analista da XBT, explica à CNN que Portugal e a Rússia não têm "uma relação comercial muito próxima". Ainda assim, combustíveis, produtos químicos, produtos agrícolas, metais comuns, madeira e cortiça são alguns dos produtos que importamos do país e cujos preços, num primeiro momento, poderão ser afetados pelo conflito.

Além disso, é sempre preciso contar com os efeitos indiretos. "A China (18,9%), o Reino Unido (8,1%), a Turquia (5,9%), a Alemanha (5,9%) e os EUA (5,8%) representam mais de 44% do valor das exportações russas", explica este analista. Se os produtos faltarem nestes mercados, estes países terão de ir procurá-los noutros fornecedores, o que levará, consequentemente, a um aumento global dos preços.

A Rússia é um dos maiores fornecedores mundiais de metais, usados ​​em tudo, desde latas de alumínio, fios de cobre e até componentes, como o níquel, que é usado em baterias de lítio-ferro, e o paládio, que é usado em catalisadores dos veículos a gasolina.

Finalmente, é preciso estar atento aos preços dos produtos que podem ser mais afetados indiretamente - por causa do preço da energia, que tem um efeito transversal, ou por causa da escassez ou da subida do preço das matérias primas, sobretudo o petróleo, mas não só: alumínio, cobre, zinco, chumbo, trigo, gás natural, carvão e óleos alimentares são algumas das matérias primas que serão afetadas. Espera-se, por exemplo, que os preços dos produtos alimentares possam aumentar devido ao aumento dos custos com fertilizantes, embalagens e transportes.

Tudo depende do que acontecer nos próximos meses e da duração do conflito. No meio de toda a incerteza, é preciso ter em conta também o que os outros países farão para proteger sua própria população da inflação. Por exemplo, a Argentina, um dos maiores exportadores mundiais de produtos de soja, já anunciou a suspensão das exportações. Por isso, bens usados no dia-a-dia e que parecem distantes do conflito podem ser afetados. Por exemplo:

Pão

A Ucrânia e a Rússia representam cerca de 10% e 20%, respectivamente, da produção global de trigo. A maior parte desse trigo é importada por países do Oriente Médio e Norte de África. O milho também é uma das produções mais importantes nestes países. A Ucrânia fornece 12% do milho do mundo.

Duas semanas após o início do conflito, Kiev tomou a decisão de proibir as exportações de alimentos básicos, dando prioridade à alimentação da sua população. Depois, a Rússia também proibiu as exportações de trigo para alguns países até o final de junho. Os especialistas acreditam que, apesar disso, o preço do pão não irá subir muito na Europa, uma vez que tem outros fornecedores mais importantes: talvez suba "apenas alguns centavos".

Óleos vegetais

De acordo com dados recolhidos pela Statista, empresa especializada no tratamento de dados, a Ucrânia e a Rússia produzem quase 60% das sementes de girassol em todo o mundo. Para além de ser o maior produtor deste bem, a Ucrânia é também o maior exportador mundial de óleo de girassol, vendendo para o estrangeiro 5,27 milhões de toneladas durante os anos de 2020 e 2021, o que representa mais de metade do volume de exportações deste produto.

A guerra em território ucraniano, que interrompeu grande parte da produção, deixou alguns países, como a Índia, o maior consumidor mundial de óleo de girassol, a China, o Egito e a África do Sul, particularmente vulneráveis a uma rutura de stock. Por isso, os preços têm vindo a aumentar globalmente.

Produtos hortícolas

A Rússia e a Bielorrússia juntas fornecem 30% das exportações mundiais de fertilizantes de potássio. "A Rússia é o maior produtor de fertilizantes do mundo e o embargo de muitos países estão a provocar aumento de muitos produtos russos, a provocar um aumento substancial dos preços destes produtos. Desta forma os  agricultores também serão obrigados a aumentar os preços dos bens que serão vendidos aos grossistas, sendo que o consumidor final será o mais prejudicado pois terá de pagar preços mais elevados", explica o analista Henrique Tomé.

Eletrodomésticos

Devido ao aumento dos preços de metais (cobre e alumínio, mas também néon e paládio) e plásticos (derivados do petróleo), é muito provável que eletrodomésticos como aparelhos de ar condicionado, frigoríficos ou televisões vejam os seus preços subir nos próximos tempos.

Enlatados (incluindo refrigerantes)

Seja comida ou refrigerantes em lata. Os preços poderão subir porque os enlatados usam alumínio (na embalagem) e podem usar óleos vegetais (nas conservas).

O presidente das conservas Ramirez, empresa sediada em Matosinhos, manifestou-se esta semana preocupado com os aumentos dos preços do óleo de girassol e do alumínio, matérias-primas importadas da Ucrânia e Rússia, e também com os custos energéticos. "No caso do óleo de girassol, há um impacto enorme porque os principais produtores são a Rússia e a Ucrânia. Houve um aumento, se calhar, para o dobro dos preços, situação que para nós é muito complicada", começou por dizer Manuel Ramirez. "Por outro lado, encontrámos no azeite uma alternativa, mas o azeite está muito especulado, portanto também é difícil ter uma solução, digamos, equilibrada."

Outro aspeto relevante é o alumínio, matéria-prima utilizada para fazer as latas de conserva, do qual tanto a Ucrânia como a Rússia são produtores. "As latas, neste momento, já subiram. Já subiram com a covid, mas também sabemos que a produção e os grandes produtores de matéria-prima, alumínio, estão nessas zonas", disse. As latas já produzidas estão já litografadas com a referência aos óleos utilizados, mas o objetivo da empresa face às circunstâncias é uniformizar a identificação, para evitar desperdício e o consequente desperdício.

Computadores e telemóveis

Os dois principais fornecedores de néon da Ucrânia, que produzem cerca de metade do fornecimento global deste gás, interromperam as suas operações no momento da invasão. Segundo os cálculos da Reuters, cerca de 45% a 54% do néon do mundo, essencial para os lasers usados para fabricar chips, vem de duas empresas ucranianas, Ingas e Cryoin. O consumo global de néon para a produção de chips atingiu cerca de 540 toneladas no ano passado.
A paralisação ameaça a produção mundial de chips, já em crise depois de a pandemia de coronavírus ter aumentado a procura de telemóveis, computadores portáteis, consolas e automóveis elétricos.

Automóveis elétricos

Além de ser usado em moedas, o níquel é essencial para as baterias usadas dos automóveis elétricos. Além disso, devido à sua resistência à corrosão, o níquel é crucial numa ampla variedade de produtos, desde fios, pregos e tubos até turbinas a gás e eixos de hélice dos barcos.

Representando mais de 28% das exportações mundiais de níquel bruto, a Rússia é o maior exportador deste metal, seguida de longe pela Austrália e Canadá, que são responsáveis por 15% e 11% das exportações globais, respetivamente. Não há alternativas práticas para a Rússia no mercado global de níquel, o que explica por que o preço dete metal tenha disparado nas últimas duas semanas.

Esta semana, a Tesla já anunciou que vai aumentar os preços dos seus automóveis, devido à subida dos custos com matérias primas (nomeadamente o níquel) e distribuição.

E outro automóveis

A fabricação de novos automóveis também será afetada pela crise na produção de chips. A BMW e a Toyota, por exemplo, já anunciaram reduções da produção e reviram as previsões de lucro para este ano devido à falta de chips, um problema que já se arrastava devido à pandemia.

Além disso, a Rússia abriga centros de produção para marcas como Stellantis, Volkswagen e Toyota. Parte da produção já foi interrompida nas fábricas de automóveis russas. Por outro lado, mesmo as que continuam a produzir irão sentir dificuldades pois muitas das empresas de transporte e entrega interromperam as atividades de e para o país, o que poderá afetará a disponibilidade de carros novos.

Viagens de avião

A RENA - Associação Representativa das Companhias Aéreas em Portugal admitiu esta semana que, se o preço do combustível para aviões se mantiver elevado, “é razoável esperar” que se reflita nos resultados das companhias aéreas e nos preços aos clientes. Segundo o presidente da RENA, Paulo Geisler, “a absorção do aumento do preço dos combustíveis tem sempre um impacto muito grande nos custos” das companhias aéreas, sobretudo numa altura em que a indústria da aviação está ainda a recuperar da crise causada por dois anos de pandemia.

Adicionalmente, para evitar o espaço aéreo russo, na sequência do conflito na Ucrânia, após a invasão da Rússia àquele país, “o custo adicional de reencaminhamento dos voos com o forte aumento dos preços do petróleo poderá originar uma subida dos preços dos bilhetes e das tarifas de carga aérea”, acrescentou Paulo Geisler.

Casas

"O setor imobiliário, que tem sido um dos setores mais inflacionados dos últimos anos em Portugal, poderá também continuar a registar aumentos nos preços, uma vez que os preços de muitos materiais estão a subir. Por exemplo, o preço do alumínio que já subiu 20% desde o início do ano", explica Henrique Tomé, da XBT.

Além do aumento dos metais (alumínio, ferro e aço), é preciso ter em atenção a eventual subida do preço das madeiras usadas na construção: "A madeira de coníferas é um recurso escasso no mundo e a Rússia é um exportador relevante, nomeadamente para países do Norte da Europa e Ásia", explica à CNN Portugal Susana Carneiro, diretora-executiva do Centro Pinus.

"Existe um défice estrutural de madeira de pinho grave no nosso país, que se fez notar de forma particularmente acentuada nos últimos meses e obrigou a aumentar a importação de madeira. A competição por madeira no espaço europeu pode assim aumentar e dificultar a sua importação para o nosso país."

Sabonetes, cosméticos e detergentes

Porque muitos utilizam como matérias primas derivados do petróleo (utilizados para fabricar vaselina e glicerina) e o óleo vegetal, este é um setor que pode vir a ser afetado.

Além disso, Moscovo aconselhou as empresas químicas a suspender a exportação de derivados de metanol para a Europa devido a problemas logísticos. Esses derivados incluem pentaeritritol e urotropina. De acordo com o Ministério da Indústria e Comércio da Rússia, ambos são amplamente utilizados por fabricantes europeus em produtos farmacêuticos, cosméticos e outros produtos químicos. A Rússia é responsável por cerca de 40% do mercado europeu de pentaeritritol e 50% de urotropina.

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