A NATO esteve oito anos a preparar-se para a Rússia e agora está a preparar-se para a China

António Guimarães , enviado especial a Madrid
29 jun, 19:14
Cimeira da NATO em Madrid. Foto: AP

Aliança Atlântica está reunida numa cimeira em Madrid. Desde a Guerra Fria que não havia coisas no mundo como há agora - é a própria NATO quem o diz

O secretário-geral da NATO disse esta quarta-feira que a Aliança Atlântica se preparava para a possibilidade de uma guerra desde 2014. Esse ano coincide com anexação pela Rússia da Península da Crimeia. "Preparámo-nos para esta possibilidade ao longo de muito tempo. Não é como se a NATO acordasse a 24 de fevereiro e tivesse percebido que a Rússia era perigosa. Esta invasão era previsível, foi vista pelos nossos serviços secretos", afirmou o secretário-geral da NATO, sublinhando que o reforço na defesa dos países da NATO começou logo em 2014.

Apesar disso, o secretário-geral da NATO garantiu que a organização tem tentado melhorar as suas relações com a Rússia ao longo de "décadas", acusando depois a Rússia de ser a culpada pelo afastamento. A Rússia chegou a participar na cimeira de 2010 em Lisboa, na altura como parceiro estratégico. A situação foi-se degradando e conheceu o ponto mais baixo precisamente esta quarta-feira, com a NATO a declarar a Rússia como a sua principal ameaça.

"A NATO tem lutado por uma melhor relação com a Rússia ao longo de décadas. Foi a Rússia que fugiu desta tentativa de construir mais parcerias", reiterou Jens Stoltenberg, lembrando depois as movimentações na Geórgia em 2008 e a anexação da Crimeia em 2014. "A guerra não começou em fevereiro de 2022, começou em 2014", acrescentou, falando numa situação "impossível" de continuar com uma parceria.

Por isso mesmo, o próprio Jens Stoltenberg admite que as relações entre as partes estão no nível mais baixo desde a Guerra Fria, mas insistindo: "Não é culpa nossa". No fecho do primeiro dia de cimeira em Madrid, e depois de uma reunião que juntou os 30 Estados-membros da NATO, o secretário-geral referiu que "quando o mundo muda a NATO tem de mudar", explicando assim a rapidez nos processos de adesão da Finlândia e da Suécia.

"Não somos uma organização fechada. Mas, ao mesmo tempo, não podemos ser ingénuos: quando a Rússia utiliza força e o presidente Putin tenta controlar o que os vizinhos tentam ou não fazer, aí precisamos de apoiar esse parceiros que estão sob ataque da Rússia."

No dia em que a NATO anunciou que vai ter mais 300 mil soldados na Europa, num reforço quase oito vezes o dispositivo atual (de 40 mil militares), Jens Stoltenberg afirmou que é tempo de dar uma resposta conjunta à ameaça que chega do Oriente (não só da Rússia mas também da China).

A "coercividade da China"

A reunião desta quarta-feira marcou a primeira vez para muitos países na NATO. Foi o caso de Finlândia e Suécia, que aguardam entrada na organização, mas também de Austrália, Coreia do Sul ou Japão. Segundo Jens Stoltenberg, a razão desta cooperação está relacionada com a ameaça vinda de um aprofundamento de relações entre Rússia e China, tendo também em conta o aumento das ameaças de terrorismo e ciberataques.

"As ações da China têm consequências para a nossa aliança e os nossos parceiros. A China tem aumentados as suas forças militares, incluindo armas nucleares, incomodando vizinhos e ameaçando Taiwan", afirmou. Por isso, explicou, é importante acompanhar esta situação, prevenindo também a circulação livre de mercadorias, em especial no Mar do Sul da China.

"Muitos aliados divulgaram as suas preocupações sobre a liberdade de navegação e a coercividade da China", acrescentou, garantindo que a NATO é uma coisa e que as organizações que os Estados Unidos têm com países da região Ásia-Pacífico são outra coisa.

Geórgia entra nos exercícios de cibersegurança da NATO

Se a guerra decorre na Ucrânia, há países que temem ser os próximos. São os casos de Geórgia e Moldova, antigas repúblicas soviética onde, tal como na Ucrânia, existem forças separatistas - no caso do primeiro na província da Ossétia do Sul e no caso do segundo na Transnístria.

Esses mesmos dois países foram dois que participaram na cimeira da parte da tarde, ouvindo da NATO garantias de apoio militar. "Vamos continuar a aprofundar a nossa cooperação. Os desafios de hoje são muito grandes para qualquer nação ou organização sozinhos. Podemos proteger o nosso povo, os nossos valores e o nosso estilo de vida", afirmou Jens Stoltenberg.

Questionado diretamente por uma jornalista georgiana, o secretário-geral da NATO referiu que discutiu com o primeiro-ministro daquele país a aplicação de um novo pacote para o aumento das capacidades e resiliência, o que inclui a participação da Geórgia nos exercícios de cibersegurança da NATO e o fornecimento de apoio a infraestruturas.

Sobre um possível convite para a Geórgia, Jens Stoltenberg remeteu para Bucareste em 2008, quando aquele país e a Ucrânia ficaram perto de uma entrada na NATO, algo que acabou por ficar congelado até hoje. Na prática, e como o próprio disse, não é possível haver um comprometimento com uma data.

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