A NATO enviou 30 mil militares para exercícios na Noruega. Uma operação regular ou um alerta à Rússia?

15 mar, 08:30
Soldados norte-americanos. Foto: AP Photo/Nathan Posner

Cerca de 30 mil militares da NATO começaram, esta segunda-feira, uma série de exercícios militares na Noruega. Uma operação regular, que decorre todos os anos, mas que pode agora ser vista como "um sinal de alerta"

Cerca de 30 mil militares de países parceiros e aliados da NATO iniciaram, nesta segunda-feira, uma série de exercícios militares na Noruega, no âmbito da chamada "Cold Response 2022" [Resposta Fria 2022]. Trata-se de uma atividade regular, que acontece todos os anos na Noruega, mas que, de acordo com alguns especialistas, pode ser vista agora como "um sinal de alerta" por parte da NATO, numa altura de grande tensão na Europa, com a invasão da Ucrânia em pano de fundo. 

Afinal, o que é esta operação militar e porque razão ocorre na Noruega? E porquê agora? Como é que a Rússia poderá interpretar este exercício? O antigo embaixador de Portugal na NATO, Martins da Cruz, e o coronel José Henriques explicam à CNN Portugal o que está em causa com este exercício da NATO.

O que é a "Cold Response" da NATO?

Trata-se de uma série de exercícios militares que junta na Noruega milhares de soldados – no caso, cerca de 30 mil – provenientes dos aliados e parceiros da NATO com o objetivo de testar a sua capacidade de trabalhar em conjunto em condições atmosféricas adversas, com temperaturas negativas, gelo e neve. Estes exercícios, que tiveram início esta segunda-feira, dia 14 de março, e que se prolongam até ao dia 1 de abril, juntam os três ramos das Forças Armadas – força aérea, terrestre e naval – e envolvem 200 aeronaves e cerca de 50 navios.

Na sua página oficial na Internet, a NATO explica que a prática destes exercícios conjuntos permite identificar o que funciona e o que precisa de ser melhorado para garantir uma resposta eficaz a qualquer ameaça ou crise. Não se trata, por isso, de uma operação militar com propósitos ofensivos, mas sim de treino.

Porquê na Noruega?

De acordo com o antigo embaixador de Portugal na NATO, Martins da Cruz, não é por acaso que estes exercícios decorrerem na Noruega: "A Noruega tem muita importância pelos seus centros de observação no círculo polar ártico, que permitem observar a circulação da frota russa e dos submarinos russos que saem pelo norte da Noruega em direção ao Atlântico Norte."

Além disso, acrescentou, "dos três países nórdicos que passam pelo círculo polar ártico (Noruega, Suécia e Finlândia), a Noruega é o único que é membro da NATO", pelo que é natural que a aliança transatlântica utilize esse território para "treinar as suas forças em clima frio e hostil". 

Na verdade, a Noruega recebe exercícios militares da NATO desde o início da década de 1950. Como se pode ler na página oficial da NATO, ao longo das últimas décadas, "a Noruega ajudou os aliados e parceiros [da NATO] a aprenderem a trabalhar em conjunto no seu terreno acidentado do norte", sendo que a "Cold Response" ocorreu pela primeira vez em 2006.

A NATO divulgou um vídeo com imagens da "Cold Response" de 2014, na qual mostra como os militares exercitam em de temperaturas negativas que chegam a atingir os -20ºC.

Um "sinal de alerta" ou uma "provocação" da NATO?

Apesar de se tratar de um exercício regular, que, de acordo com a NATO, decorre duas vezes por ano na Noruega, desta vez pode ser interpretado como "um sinal de alerta" dirigido à Rússia por parte dos países da aliança transatlântica. Pelo menos, é assim que o coronel José Henriques interpreta este exercício, rejeitando a ideia de uma "provocação" por parte da NATO.

"Pode ser um aviso, de que [a NATO] está em estado de alerta, mas não mais do que isso", argumenta, rejeitando a ideia de que possa resultar daqui uma escalada da tensão militar. Até porque, acrescentou, "se o quisessem provocar [a Vladimir Putin], faziam-no na Dinamarca, na Polónia ou na Lituânia", e não na Noruega, um país que fica "muito longe das linhas de contacto" do conflito na Ucrânia.

Também Martins da Cruz rejeita a ideia de que este exercício possa ser visto como uma provocação da NATO: "É um exercício regular, que já estava previsto e que se realiza todos os anos, de maneira que não pode ser visto como uma provocação."

Para o antigo embaixador de Portugal na NATO, trata-se, sim, de "um sinal que os países da NATO enviam à Federação Russa dizendo que apesar do que se está a passar e das forças suplementares que estamos a enviar para os países que fazem fronteira com a Ucrânia e com a Rússia, nós continuamos com os exercícios que já estavam planeados, sobretudo este, que é dirigido a preparar eventuais agressões russas em clima hostil'".

Putin está focado na Ucrânia, mas tem de pensar no "day after"

O coronel José Henriques diz acreditar que a "grande preocupação" da Rússia, neste momento, é a Ucrânia, rejeitando assim um outro foco de tensão noutro país, algo que tem sido motivo de preocupação, sobretudo tendo em conta o avanço das tropas russas para a fronteira com a UE.

"Os russos, neste momento, querem resolver o problema na Ucrânia e não vão arranjar um par de botas fora da Ucrânia. Já lhes chega a Ucrânia, que é já uma camisa de onze varas", considera José Henriques.

Mas, "mesmo que Putin resolva o problema na Ucrânia, terá sempre o «day after»", acrescentou, referindo-se à resistência ucraniana, que, na sua perspetiva, não facilitará a vida de um governo orientado por Moscovo no país. E é neste cenário que José Henriques fala na eventual "queda de Putin".

"Imaginemos o seguinte cenário: a Ucrânia é obrigada a capitular, porque o presidente [Volodymyr] Zelensky não quer que ocorra um massacre, e vai para o exílio, juntamente com o seu governo. Em sua substituição, vai para a Ucrânia um governo fantoche, às ordens de Moscovo. Esse governo não é aceite pelo povo ucraniano, que, apoiado por nós, vai continuar a fazer uma guerra contra os russos", diz.

Ora, "para que esse governo não caia no dia seguinte, Putin tem de manter milhares de homens na Ucrânia para o proteger, e essa é que é uma situação, que, com o desgaste, pode conduzir à queda de Putin", acrescenta.

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