"Tentaram queimar os meus tios vivos". A carta de um português que pede nacionalidade para a tia raptada pelo Hamas

24 out, 23:07
Adina Moshe (AP)

Ori Galante descreveu o terror que sentiu durante as horas do ataque do Hamas a solo israelita. O tio morreu, a tia conseguiu agora a nacionalidade portuguesa e espera ser uma das reféns libertadas

“Acordei com o som de explosões provocadas por foguetes disparados pelo Hamas contra cidades, vilas e aldeias de Israel”. É assim que começa a carta que o médico Ori Galante enviou para Portugal a pedir ajuda para a sua tia, uma das mais de 200 pessoas raptadas pelo grupo pró-Palestina.

O homem, que mora num kibbutz a cerca de 40 quilómetros da Faixa de Gaza, e que também é português, pediu ajuda à Comunidade Israelita do Porto (CIP) para tentar acelerar o processo de obtenção de nacionalidade portuguesa da sua tia, Adina Moshe.

“Quando liguei a televisão vi centenas de terroristas do Hamas a lançar um ataque contra cidadãos israelitas. Saltei imediatamente para o carro e fui proteger a minha casa”, prossegue Ori Galante.

Mesmo debaixo de um intenso ataque – foram cerca de três mil foguetes em poucas horas – e “com explosões em toda a parte”, o homem começou por tentar ajudar uma colega de trabalho, uma enfermeira que vivia em Yachini, e cuja sobrinho de 18 anos tinha sido baleada no peito por um combatente do Hamas.

Anat Moshe com os avós, Said Moshe e Adina Moshe (AP)

“Em pleno ataque terrorista não podíamos retirá-lo, e acabou por morrer duas horas depois nos braços dos pais”, descreve o homem.

Foi por essa altura que Ori Galante começou a perceber a situação em que estavam os seus tios, que viviam no kibbutz de Nir-OZ, apenas a um quilómetro de território palestiniano. “O meu tio Said Moshe disse que tinha ouvido tiros em todo o lado e que eles estavam escondidos numa zona segura da sua casa”, continua, lembrando que “a maioria das casas de Israel têm quartos seguros por causa dos recorrentes ataques do Hamas e da Jihad Islâmica”.

Tudo isto através de uma conversa escrita pelo Whatsapp, onde Said Moshe deixou de aparecer por volta das 09:00 locais, poucas horas depois de centenas de homens armados do Hamas terem entrado em território israelita. Por essa altura Adina Moshe ainda estava ligada, mas não respondia às mensagens do sobrinho.

“Corri para o hospital e ajudei a tratar centenas de soldados, cidadãos, mulheres, homens e crianças atacadas pelos terroristas do Hamas”, prossegue a carta, avançando para uma descrição mais sensível: “Já era de tarde quando percebi que os terroristas tentaram queimar os meus tios vivos”.

Said Moshe, de 75 anos, foi encontrado morto mais tarde a segurar a porta que dava para o quarto seguro. “Foi baleado 12 vezes”, descreve o sobrinho.

O mesmo não aconteceu a Adina Moshe, uma professora reformada que acabou por ser levada pelo Hamas depois de os combatentes terem conseguido entrar no quarto onde estava, já depois de matarem o homem. É ela que é vista a ser levada de mota por dois membros do Hamas, numa imagem que o sobrinho confirmou ser da mulher, e que correu as redes sociais.

Adina Moshe levada por combatentes do Hamas (Twitter)

O jornal Público avança que a mulher, de 72 anos, já conseguiu obter a nacionalidade, o que lhe permitirá ser incluída no grupo de mais de 50 cidadãos com dupla nacionalidade que estão retidos pelo Hamas e que, por isso, esperam poder ser libertados, ao abrigo de negociações internacionais que continuam a decorrer.

Ori Galante escreveu esta carta ainda antes de ser concedido o pedido de nacionalização, referindo que Adina Moshe tinha submetido o pedido há um ano, tendo sido aprovada pela comunidade judaica.

À espera de notícias em Portugal está Sason Moshe, filho do casal que vive e trabalha no nosso país há vários anos.

A família espera, como muitas outras, que a obtenção de nacionalidade portuguesa facilite o processo de libertação. Como Adina Moshe, também Ofer Calderon fez um pedido urgente, também ele já concedido.

O mesmo ainda não aconteceu a cinco outros cidadãos, três deles menores, que fizeram exatamente o mesmo pedido ao Estado português, ao abrigo da lei que concede nacionalidade aos descendentes de judeus sefarditas expulsos de Portugal no século XV.

Recorde-se que há uma mediação internacional para que o Hamas liberte os cerca de 50 reféns com dupla nacionalidade, sendo que entre eles estão três israelitas com dupla nacionalidade portuguesa.

Além dos cidadãos raptados que têm ligações a Portugal, a CIP refere ainda a existência de reféns das seguintes nacionalidades: Estados Unidos (10), Argentina (6), Alemanha (6), Rússia (4), Ucrânia (3), Espanha (2), Reino Unido (2), França (2), Países Baixos (2), Brasil (2), Polónia (1), Azerbaijão (1), África do Sul (1), Canadá (1) e Chile (1).

Estes cidadãos estão entre os mais de 200 reféns confirmados pelas Forças de Defesa de Israel (IDF), sendo que os governos de Estados Unidos e Catar estão a tentar negociar a libertação dos 50 reféns que têm dupla nacionalidade, como é o caso dos portugueses.

A CIP refere que há ainda a confirmação de nove portugueses mortos, sendo que um outro cidadão que estava a tentar obter nacionalidade portuguesa também foi assassinado por combatentes do Hamas.

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