"Têm de perceber que nada nos pode parar": Azerbaijão está a preparar "guerra total" contra a Arménia

21 fev, 15:29
Soldados do Azerbaijão após a vitória na Segunda Guerra do Nagorno-Karabakh (AP)

Denúncia foi feita pelo primeiro-ministro arménio, Nikol Pashinyan, dias após uma troca de tiros entre soldados dos dois países ter matado militares arménios

O Azerbaijão está a preparar uma "guerra total" contra a Arménia, alertou o primeiro-ministro arménio durante uma reunião do Conselho de Ministros do país, realizada no dia 15 de fevereiro.

Nikol Pashinyan falava com vários membros do seu governo sobre as propostas de delimitação de fronteiras rejeitadas pelo governo de Baku. "A nossa análise mostra que só pode haver uma razão para isto, e a razão pode ser a intenção do Azerbaijão de lançar operações militares em algumas áreas da fronteira com o objetivo de transformá-las numa guerra total contra a República da Arménia. Esta intenção pode ser lida em todas as declarações e ações de Baku", disse Pashinyan durante o encontro.

As declarações do primeiro-ministro arménio surgiram dias após uma troca de tiros entre soldados dos dois países na região de Syunik, no sul do país, que vitimou quatro militares arménios a 13 de fevereiro, segundo o governo de Yerevan.

No dia anterior, o executivo azeri havia denunciado uma "provocação militar da Arménia" que feriu um agente do serviço estatal de fronteiras do país. "Esta provocação da Arménia constitui um sério golpe para o processo de paz entre o Azerbaijão e a Arménia", afirmou o governo de Ilham Aliyev em comunicado, apontando também o dedo à missão da União Europeia na Arménia.

"Uma provocação deste tipo, levada a cabo exatamente nos territórios observados pela missão da União Europeia na Arménia, suscita sérias preocupações quanto aos objetivos e propósitos desta missão".

"Têm de perceber que nada nos pode parar"

Ilham Aliyev foi recentemente reeleito para um quinto mandato enquanto presidente do Azerbaijão, após eleições antecipadas convocadas um mês antes da sua realização, a 7 de fevereiro, alegadamente devido à operação militar de captura da região do Nagorno-Karabakh aos arménios, iniciada em setembro de 2023. A votação decorreu num "ambiente restritivo" e as eleições "não foram competitivas", aponta um relatório da Assembleia Parlamentar da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), que levantou "sérias questões" quanto à regularidade do sufrágio.

No poder desde 2003, Aliyev obteve mais de 92% dos votos, a percentagem mais elevada desde que se apresentou a eleições. Para este resultado terá contribuído o boicote realizado pelos dois maiores partidos da oposição, o Musavat e a Frente Popular, que se recusaram a apresentar um candidato e pediram aos azeris para não se deslocarem às assembleias de voto.

Apesar de ser um autocrata e de liderar um aparelho estatal fortemente repressivo, Ilham Aliyev recebeu os parabéns de vários líderes ocidentais, como Volodymyr Zelensky e Charles Michel, pela sua vitória nas eleições. "Felicitei o presidente Ilham Aliyev pela sua reeleição e desejei os melhores votos para o seu novo mandato", escreveu o presidente do Conselho Europeu na rede social X.

Porém, não obstante as felicitações, o governo azeri parece querer distanciar-se do Ocidente. Enquanto a Arménia prefere que a mediação do conflito seja levada a cabo pelas potências ocidentais, em particular França e Estados Unidos, o Azerbaijão olha para a Rússia e para a Turquia, aliados autocratas regionais, com melhores olhos. Recentemente, o presidente Ilham Aliyev rejeitou mesmo qualquer tentativa de mediação internacional.

"Não precisamos de um mediador nesta questão. Já o disse antes e quero dizê-lo novamente a partir deste púlpito. Já resolvemos o nosso problema. Iniciámos a assinatura de um acordo de paz com a Arménia", disse Aliyev na sexta-feira, durante o primeiro discurso após as presidenciais. "Penso que o processo de normalização das relações entre o Azerbaijão e a Arménia deveria ser retirado da agenda internacional. Porque toda a gente parece querer tratar deste assunto. Metam-se na vossa vida!", afirmou, citado pela Euronews.

"A Arménia e aqueles que a apoiam militarmente têm de perceber que nada nos pode parar. Se as reivindicações territoriais contra nós não forem abandonadas, se a Arménia não puser em ordem a sua legislação, é claro que não haverá tratado de paz", concluiu.

Mesmo com a intenção clara de afastar o Ocidente do processo de negociações, Aliyev marcou presença na Conferência de Segurança de Munique e reuniu-se com Pashinyan no sábado, num encontro inicialmente mediado pelo chanceler alemão, Olaf Scholz, e que posteriormente decorreu num formato bilateral. Da cimeira saíram poucas informações, mas ambos os lados concordaram em prosseguir as negociações de paz.

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