Há mais 100 mortes por dia do que era esperado pelas autoridades de saúde. Gripe A pode ser parte da explicação

4 jan, 20:18
Hospital Santa Maria (Lusa/Tiago Petinga)

Estão a morrer todos os dias 470 pessoas no país. Médicos alertam para força do vírus gripal deste ano e para a fraca adesão às vacinas

A par do caos que se instalou nos hospitais, a mortalidade está a registar valores excessivos. As autoridades de saúde tinham previsto para estes dias uma média de 375 mortes diárias, mas a realidade está a ser bem diferente: em média, na última semana, morreram por dia 470 pessoas em Portugal. 

"São praticamente 100 óbitos a mais do que era esperado", confirma à CNN Portugal Carlos Antunes, investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Quanto ao pico de mortes está, diz o matemático, a ocorrer nestes primeiros dias de 2024. "Agora a situação pode manter-se ou começar a descer" explica ainda o investigador, considerando que a situação estará relacionada com diversos fatores, entre eles o aumento das infeções respiratórias, as condições meteorológicas, o pico da incidência da gripe A, a diminuição da imunidade das pessoas face à proteção sanitária feita na pandemia e ainda a menor adesão à vacina da gripe.

Segundo dados da Direção-Geral de Saúde foram observados 741 óbitos em excesso, nos últimos dias

De acordo com Manuel Carmo Gomes, a adesão a vacina entre os portugueses está  "abaixo do desejável".  Nas pessoas com mais de 60 anos, só 62% se vacinaram. Já nas idades dos 70 aos 79 a taxa de vacinação situou-se nos 72% e na faixa dos mais de 80 anos, 76% foram imunizados. "Era desejável que tivéssemos nos que tem mais de  70 anos taxas de vacinação de 80-85%", refere Carmo Gomes, da comissão técnica de vacinação.

Nos últimos dias, o cenário de rutura das urgências e de camas de cuidados intensivos tem sido acompanhado de um excesso de mortalidade. Em especial nas pessoas com mais de  70 anos, sendo mais marcante no Norte, depois  no Centro e a seguir em Lisboa e Vale o Tejo. Segundo fontes médicas, "não há ainda dados que causas com confiança, mas há sinais de que esteja relacionado  com complicações da gripe A(H1N1)".

Pneumonias e outras complicações nos cuidados intensivos

O mesmo admite Paulo Mergulhão, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Intensiva. "Este excesso de mortalidade estará relacionado, em parte, com a elevada atividade da gripe A e das suas complicações", diz o especialista à CNN Portugal. De acordo com Paulo Mergulhão, nas últimas semanas tem havido nos cuidados intensivos de norte a sul do pais muitos casos de pneumonias virais ou subinfeções bacterianas, resultado da gripe A.

A gripe A é um tipo de gripe, explica o pneumologista Filipe Froes, notando que o vírus influenza tem quatro tipos: A, B, C e D que se dividem em diferentes subtipos. "O tipo A e B são os que, em regra, provocam doença no humano", refere o especialista, acrescentando que depois o tipo A tem dois subtipos - o H1N1 e o H3N2. Apesar de este ano haver registo de todos estes a circular, o mais predominante, rondando os 90%, é sem dúvida o H1N1. 

Quanto ao covid-19, este não parece estar a ter impato no valor total de mortes. De acordo com Carlos Antunes, os últimos dados divulgados pela Direção-Geral da Saúde (DGS), no dia 29 de dezembro, mostram que os óbitos por covid-19 eram em média 5,3 por dia. Ou seja, um valor sem significado no total de 470 mortes diárias.

O investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa nota, porém, que este cenário de mortalidade excessiva já se verificou em outros anos, como 2012, 2015, 2017 e 2019. 

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