Crise migratória. A primeira-ministra italiana vai parar os barcos ou os barcos é que a vão parar?

CNN , Análise de Barbie Latza Nadeau
26 abr, 10:00
Giorgia Meloni é a primeira mulher primeira-ministra de Itália e lidera um governo de coligação. Remo Casilli/Reuters

A principal promessa de campanha que levou Giorgia Meloni e a sua coligação de extrema-direita ao poder, com uma vitória esmagadora nas eleições de setembro passado, foi a promessa de fazer o que mais ninguém tinha feito antes: parar os barcos de migrantes que usam a Itália como porta de entrada na Europa.

"Blocco navale", gritavam as suas redes sociais ("Bloqueio naval já!), com fotografias de barcos sobrelotados.

Na campanha eleitoral, prometeu impedir que todos os barcos de migrantes desembarcassem nas costas italianas, independentemente de quem estivesse a bordo e do que os tivesse levado a arriscar as suas vidas.

Os seus primeiros cem dias no cargo foram considerados um sucesso.

Ela não era nem de perto nem de longe a extrema-direita que alguns receavam, e a política de carreira multilingue sentia-se à vontade com os líderes mundiais.

Os líderes europeus liberais ficaram a ganhar com a perspetiva da promessa de Meloni de parar os barcos, e muitos esperavam que ela conseguisse fazê-lo. Conservadores como o líder húngaro Viktor Orbán saudaram a sua vitória e agradeceram-lhe por "proteger as fronteiras da Europa".

Conseguiu até alinhar os parceiros de coligação Matteo Salvini e Silvio Berlusconi, apesar das divergências sobre a guerra na Ucrânia.

Meloni enfrentou várias tempestades, incluindo a admissão de Berlusconi de que tinha reacendido a sua amizade com Vladimir Putin depois de este lhe ter enviado vodka russo para o seu aniversário. Discutiu com Salvini sobre a forma de lidar com a crise energética e sobre a sua afeição por Putin. No final de janeiro, parecia imparável.

Depois, os barcos começaram a chegar, e a chegar, e a chegar.

Este ano registou-se já um número recorde de chegadas às costas de Itália. Antonio Parrinello/Reuters
Pelo menos 93 pessoas morreram num naufrágio ao largo da costa da Calábria, em fevereiro. Remo Casilli/Reuters

Até 21 de abril, mais de 35.000 pessoas tinham chegado de barco, um número três vezes superior ao do ano anterior. Por outro lado, pouco mais de 4.000 pessoas chegaram ao Reino Unido, vindas de barco de França.

Uma sondagem recente revelou que o apoio ao partido de Meloni, Fratelli d'Italia (Irmãos de Itália) - que ganhou as eleições com 34% dos votos - caiu para pouco mais de 29%.

Alguns acreditam que ninguém esperava que Meloni conseguisse parar os barcos, pelo que a queda nas sondagens reflete outras questões, incluindo o seu apoio contínuo à Ucrânia e a sua relação com a China.

A Itália aderiu ao projeto chinês da nova "Rota da Seda", um ambicioso esquema de infraestruturas globais que alguns analistas veem como um sinal preocupante da crescente influência chinesa.

"Os migrantes e a UE estão no topo da sua lista de prioridades, mas há outras questões que a ameaçam mais", disse à CNN Francesco Galietti, fundador da Policy Sonar, empresa de consultoria de risco político de Roma.

"Meloni não será prejudicada pelos migrantes, mas se não conseguir sair do Acordo da Rota da Seda com a China, e fazê-lo com firmeza, então não receberá um convite para a Casa Branca."

Mas nem toda a gente está disposta a dar-lhe um passe em relação à migração.

"Esta é uma questão séria, penso que é a crise mais relevante que ela está a enfrentar e o desafio mais relevante para o seu governo até agora", considerou Giovanni Orsina, diretor da Escola de Governo da Universidade Luiss Guido Carli, em Roma, à CNN, acrescentando que ela está a abordar a migração em duas frentes: pressionando a Europa e levando-a muito a sério em casa.

Segundo Carli, para a maioria dos italianos, a crise dos migrantes ainda é algo de que ouvem falar, mas não algo que os afete diretamente.

"O ponto de viragem é quando os migrantes deixam de ser notícia e começam a ser as pessoas em frente às suas casas, nas ruas e praças das pequenas cidades italianas, aí passa a ser real e não algo abstrato."

A migração irregular para a Europa tem sido um dos problemas que mais dividem o bloco há anos.

Mas bloquear os barcos na última etapa da viagem para a Europa é essencialmente abordar um sintoma de um problema, não o problema em si, defendeu Hanne Beirens, diretora do Migration Policy Institute Europe, à CNN.

Desde que assumiu o poder, Meloni tem tomado medidas duras em relação aos barcos de migrantes, mas enfrenta uma oposição feroz. Filippo Monteforte/AFP/Getty Images

"Se perguntarmos aos especialistas em migração se ela poderia parar os barcos, a resposta seria não", disse, acrescentando que a única coisa que alguma vez parou a migração foi a pandemia de covid-19.

Para Beirens, enquanto a Europa não chegar a acordo sobre como resolver o problema pela raiz, oferecendo oportunidades de requerer asilo numa fase mais precoce da viagem e trabalhando para resolver os problemas nos países que produzem mais migrantes e refugiados, os barcos continuarão a chegar.

"Há grandes expectativas em relação a estas promessas e, quando não forem capazes de gerir uma situação caótica, veremos os Estados-membros a agirem sozinhos e a decidirem unilateralmente recorrer a ações de repulsão, à violência na fronteira ou pior", apontou.

Meloni fez exatamente isso ao declarar o estado de emergência em relação à crise migratória, o que permitirá a adoção de medidas extremamente duras para lidar com as chegadas, incluindo permitir que as autoridades que normalmente lidam com catástrofes naturais repatriem rapidamente os migrantes.

O estado de emergência, observou Orsina, dá-lhe tempo. "Também lhe permite reduzir os custos da burocracia italiana e enviar uma mensagem ao país de que o problema está a ser tratado com seriedade, mas é também uma forma de organizar melhor as pessoas que vêm para cá."

A medida está a ser boicotada em várias regiões de esquerda; Elly Schlein, líder do Partito Democratico (Partido Democrático), comparou o decreto a algo da era fascista.

A vitória eleitoral de Meloni foi um momento surpreendente na política italiana, não apenas por causa da rápida ascensão do seu partido a partir das franjas da direita.

Ela não era apenas a mais jovem e a primeira mulher primeira-ministra de Itália, era também a primeira líder eleita desde 2011, tendo obtido uma maioria tão saudável que a política pós-eleitoral de sempre foi deixada de lado.

O povo tinha falado e queria-a a ela e tudo o que ela representava.

Agora, a questão que se coloca a todos é se ela conseguirá cumprir as promessas que fez aos eleitores.

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