Elon Musk deu à Ucrânia a Internet que a Ucrânia pediu. Que impacto tem na guerra? "É um gesto simpático mas no plano militar não muda nada"

28 fev, 01:45
Elon Musk

Com esta tecnologia, a Ucrânia tem agora acesso ao melhor serviço de internet disponível no mundo, facto que pode tornar impossível à Rússia comprometer as comunicações do país vizinho. Mas será que isso pode realmente influenciar o curso da guerra?

Mykhailo Fedorov, vice primeiro-ministro e ministro da Transição Digital da Ucrânia, fez um simples pedido a Elon Musk: disponibilizar estações Starlink. "Enquanto tentas colonizar Marte, a Rússia tenta ocupar a Ucrânia. Enquanto os teus foguetões aterram a partir do espaço, os rockets da Rússia atacam civis ucranianos", afirmou o ministro no sábado, através do Twitter.

E foi também através de um tweet que o magnata da tecnologia acedeu ao pedido. Em poucas horas, Elon Musk forneceu à Ucrânia o mais resistente serviço de Internet que existe.

Na base deste serviço está a Starlink, uma gigantesca constelação de satélites em construção pela SpaceX, a agência espacial privada liderada por Elon Musk. São atualmente cerca de 2.000 satélites que permitem levar Internet de alta velocidade para zonas mais remotas do planeta, mas o objetivo da agência é chegar aos 42.000. Em janeiro, o serviço tinha cerca de 145.000 utilizadores em 25 países.

Com o serviço de Internet da SpaceX, a Ucrânia passa a ter melhor serviço e deixa de ficar dependente das infraestruturas por fibra. Segundo Rodrigo Adão da Fonseca, especialista em cibersegurança, a Starlink funciona como uma rede alternativa de comunicações, "como se fosse uma rede privativa, via satélite, mas privada", sem que haja hipótese de interferência russa.

A Ucrânia sofreu uma série de ciberataques em larga escala que afetou sites do parlamento, governo e Ministério dos Negócios Estrangeiros. Segundo fonte do governo, vários bancos do país também foram afetados. Tratou-se de um ataque informático DDoS: simples de executar, que inunda o site atingido com uma vasta quantidade de tráfego, sobrecarregando os servidores que o albergam. 

Mas será que este gesto de Musk pode realmente influenciar o curso da guerra? Não no plano militar, refere o major-general Agostinho Costa. "Mas há aqui um dado muito importante: esta campanha militar segue os princípios conceptuais e doutrinários russos, que são diferentes dos nossos" e, sobre isso, "a última coisa que os russos querem é eliminar a possibilidade de a comunicação social poder comunicar" - e facto é que nenhuma das partes tem impedido os jornalistas de fazer o seu trabalho porque esta campanha decide-se no plano comunicacional. "Esta batalha decide-se no plano do chamado mainstream media e do social media. E nós, no Ocidente, ainda não percebemos isso." Nesse domínio, segundo o major-general, a Ucrânia está em vantagem. Mas outra coisa é o que se passa no terreno. 

Resumindo: "É um gesto simpático de Elon Musk, mas no plano geral militar não muda nada."

Aliás, segundo refere o major-general Agostinho Costa, a primeira fase da campanha (a aérea) foi para a destruição dos meios de comunicação militares: os radares, os meios de comunicação militares, os postos de comando... tudo no mesmo dia. "Uma coisa são ciberataques para neutralizar o funcionamento da estrutura politico-administrativa. Outra coisa é o domínio da comunicação da população porque a centralidade numa guerra destas é a população e as perceções. O teatro de operações é aqui nas redações, através da influência da campanha comunicacional de ambas as partes e da opinião pública."

Este projeto da empresa de Elon Musk foi uma aposta disruptiva que alertou os países para uma nova realidade. É possível ter internet e comunicações em qualquer parte do planeta com mais segurança e com menos controlo de terceiros nos tarifários, velocidades e outros aspetos fundamentais para a sociedade moderna. Nesse sentido, há várias potências mundiais a querer ter a sua própria "constelação", entre elas a União Europeia.

Ora, enquanto a maioria dos serviços de internet via satélite provém de satélites em órbita a cerca de 35.000 quilómetros da Terra, a constelação Starlink está muito mais próxima, a cerca de 550 quilómetros, o que lhe permite reduzir o tempo de viagem de dados entre o utilizador e o satélite. E, curiosamente, a tecnologia que permite precisamente a comunicação entre nano-satélites numa constelação de baixa órbita é um dos projetos de engenharia mais inovadores de sempre em Portugal: o Gamalink.

 

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