Guerra coloca a China perante o que pode ser uma tempestade perfeita

15 mar, 04:04
Xi Jinping tem reforçado o seu poder como homem-forte do Partido Comunista Chinês

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A posição da China sobre a Ucrânia aumenta as nuvens sobre a economia do país. As bolsas estão em queda, o PIB terá o pior desempenho em décadas, a situação da covid agrava-se, a bolha imobiliária continua a preocupar, e há até receios sobre o abastecimento de comida ao país. A guerra na Ucrânia pode agravar tudo

As notícias sobre o eventual apoio militar chinês à Rússia - e os receios de eventuais sanções ocidentais à China se esse apoio se confirmar - provocaram ontem uma forte queda das bolsas chinesas. A reportagem da Bloomberg não hesitou em usar a palavra “pânico”, para descrever as vendas de ações de empresas chinesas com o valor em forte queda. A guerra russa contra a Ucrânia é só o fator mais recente naquilo que pode ser uma tempestade perfeita que ameaça a economia chinesa.

Comecemos pela “carnificina” na bolsa de Hong Kong (a expressão é da jornalista de mercados da Bloomberg Busines Rebecca Choong Wilkins). O Hang Seng, índice de referência da Bolsa de Valores de Hong Kong, abriu em queda e ficou abaixo da barreira psicológica dos 20.000 pontos, pela primeira vez desde meados de 2016. Ao longo da sessão, o Hang Seng caiu 5%, para o nível mais baixo dos últimos seis anos - mas as ações chegaram a perder 13%.

A queda foi particularmente acentuada no índice Hang Seng China Enterprises, que mede o comportamento das empresas da China listadas em Hong Kong: caiu 5,16%, no que foi o pior dia desde a crise financeira de 2008. O Hang Seng Tech Index, índice que acompanha os valores das empresas tecnológicas chinesas cotadas em Hong Kong, desceu 7,54%. As bolsas da China continental seguiram a mesma tendência, embora com quedas mais suaves: Xangai perdeu 1,30% e Shenzhen 1,61%.

Esta terça-feira, os mercados asiáticos continuaram no vermelho puxados para terreno negativo sobretudo pelo aumento de casos de COVID-19 na China que atingem a confiança de investidores - que já estão preocupados com a guerra na Ucrânia - e que lançam uma nuvem sobre as perspectivas para a segunda maior economia do mundo.

Covid, imobiliário, pressão política

O receio sobre o alinhamento de Pequim com Moscovo - sobretudo, a perspetiva de poder auxiliar as Forças Armadas russas - e as potenciais sanções à China por parte dos países ocidentais e dos seus aliados, foram a principal razão para a queda das bolsas chinesas. Mas a guerra na Europa não é a única razão de preocupação dos investidores e analistas da economia chinesa.

O governo chinês prevê para 2022 um crescimento de 5,5% do PIB, o que representa o menor crescimento em três décadas - o anúncio foi feito pelo primeiro-ministro no início de março, na sessão da Assembleia Nacional Popular, mas a previsão é vista por muitos como otimista, sobretudo tendo em conta o desenrolar da guerra russa. 

O fraco desempenho previsto para a economia resulta de uma conjugação de problemas: a guerra, a bolha imobiliária chinesa, que continua a assombrar o sistema financeiro, a pandemia covid, que não dá tréguas, as disrupções das cadeias internacionais de logística, as dificuldades em assegurar abastecimento de energia nas grandes regiões industriais do país, e até receios relativos ao abastecimento de comida.

Por outro lado, a atitude mais musculada de Xi Jinping no sentido de um maior controlo das grandes empresas também deixa os investidores nervosos. A mão pesada de Pequim está a fazer-se sentir sobretudo sobre as grandes empresas tecnológicas, conforme o presidente chinês trata de puxar o tapete aos oligarcas que se tornam demasiado poderosos. Vários já caíram, outros deverão cair em ano de congresso do Partido comunista Chinês, que deverá aprovar um inédito terceiro mandato para Xi.

O próximo alvo das sanções regulatórias sobre grandes conglomerados deverá ser a Tencent, o gigante tecnológico que tem o principal portal chinês de acesso à internet e controla o WeChat Pay. Segundo o Wall Street Journal, a Tencent deverá ser alvo de uma multa recorde por violações de regulamentos do banco central.

Por outro lado, a pandemia continua a dar dores de cabeça aos chineses. A política de “covid zero” conseguiu manter níveis baixos de incidência, mas vai dificultar a reabertura do país para a fase de “viver com o vírus”, pois a imunidade dos chineses face ao coronavírus será menor do que noutros países.

Apesar da “tolerância zero” com a covid, no sábado e no domingo a China registou dois mil e três mil novos casos, o que desafia o princípio de “covid zero”. “A situação da covid na China deteriorou-se de forma alarmante na semana passada”, diz a análise de mercado feita pelos economistas da Nomura. As consequências aí estão: Hong Kong vive há muitas semanas sob enormes restrições à circulação e ao trabalho, e cidades no continente como Xangai, Shenzhen ou Chanchun têm registado cada vez maior impacto. As duas últimas, que são importantes centros industriais, estão sob medidas excecionais, como encerramento dos transportes públicos e de todos os serviços não essenciais. Há fábricas fechadas, e as consequências far-se-ão sentir numa economia que já enfrenta muitos outros desafios.

Outra realidade que pressiona a capacidade de produção das grandes regiões industriais da China é o fornecimento de energia. O país é o maior importador mundial de energia - tem muito carvão, mas depende do petróleo e do gás que compra ao estrangeiro - e tem sofrido com a instabilidade do fornecimento, aquém das necessidades da indústria e dos particulares. E agora tem de enfrentar o enorme aumento mundial dos preços da energia.

A China é igualmente muito dependente da importação de alimentos, em especial trigo e outros cereais, cuja cotação também disparou desde o início da guerra russa, tendo em conta que a Rússia e a Ucrânia são os maiores exportadores globais de trigo. Na última semana, o Governo traçou como prioridade nacional a autonomia da China em relação aos bens essenciais de alimentação. Mas é mais fácil dizer do que concretizar.

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