O Dia da Bastilha inspirou a desobediência civil em França ao longo de séculos. Saiba porquê

CNN , Ryan Prior e Erin Davis (artigo originalmente publicado em julho de 2019)
14 jul, 08:00
Manifestação em Paris. AP Photo/Lewis Joly

Quando o governo francês ousa virar as costas ao povo, o povo põe fogo às ruas de Paris.

De facto, esta parece ser uma tradição de longa data na história de França. O passado do país está salpicado com o sangue e o sacrifício de manifestantes que continuaram um legado de dissidência e manifestação pública. Esta cultura de protesto remonta aos dias da Revolução, e a tomada da Bastilha marcou o início de tudo isto.

O Dia da Bastilha, 14 de julho, celebra a conquista de poder por parte do povo e a libertação do domínio tirânico. É também uma forma de alertar o sistema de governação da modernidade de que os cidadãos franceses que investiram os políticos de poder também têm os meios para lho retirar.

Eis, resumidamente, a história do Dia da Bastilha e a razão por que continua a inspirar a resistência muito tempo depois.

Em primeiro lugar, o que foi a tomada da Bastilha?

Em termos de revoluções, ninguém as concretiza melhor do que os franceses.

Porém, antes de o infame Reino do Terror ter ordenado uma série de decapitações por guilhotina, foram os impostos elevados e um verão de fome que, em 1789, levaram os cidadãos franceses a invadir o castelo da Bastilha, que era, simultaneamente, uma fortaleza militar e uma prisão. A tomada da Bastilha representou a resistência contra os Bourbons, a tirânica monarquia francesa.

Porque aconteceu

Tradicional desfile militar do Dia da Bastilha, na avenida dos Champs Elysées, em Paris, a 14 de julho de 2020.

Será um eufemismo dizer-se que o rei Luís XVI e a rainha Maria Antonieta não eram estimados pelo povo francês. De facto, o seu reinado terminou com a decapitação por guilhotina (e não seriam os únicos). Mas as preocupações que levaram a uma revolução total foram muito além da incapacidade de adaptação destes dois líderes. (Embora, isso certamente não tenha ajudado).

Os gastos extravagantes dos monarcas Louis e Antoinette só se equiparavam às suas dívidas ainda mais extravagantes, que já tinham herdado do reinado anterior. Na década de 1780, o desemprego, a escassez de alimentos e os elevados impostos tinham deixado os plebeus desesperados e desamparados, enquanto a riqueza da nobreza permanecia intocável.

Quando a monarquia começou a sentir a pressão, o rei encarregou o Estado-Geral - órgão legislativo do país com a pasta das Finanças - de elaborar um novo plano fiscal. O Terceiro Estado (o setor não nobre e não clerical da assembleia) separou-se então da nobreza e do clero e exigiu uma constituição escrita. Isto resultou na criação da Assembleia Nacional.

Contudo, quando Louis XVI, não muito tempo depois, expulsou o ministro das finanças Jacques Necker, um membro muito popular, que não era nobre, a resposta foi explosiva. Os manifestantes franceses encheram as ruas e confrontaram-se com soldados do rei, incendiando postos aduaneiros e pilhando a cidade para obter alimentos e armas. Eventualmente, a multidão que se formou acabou por saquear o hospital militar - Hôtel des Invalides - antes de se concentrar em causas maiores.

O que aconteceu

A multidão invadiu a Bastilha, onde o seu governador, Bernard-Rene de Launay, se escondera em fuga. Este veio a aceitar um acordo, nas negociações com os delegados, mas os manifestantes acabaram por invadir a Bastilha, e de Launay deu ordem para atirar sobre a multidão. Os revolucionários sofreram grandes perdas, mas conseguiram tomar a fortaleza após várias horas.

Por que razão é importante

A Bastilha foi um dos principais acontecimentos que incitaram à Revolução Francesa. Hoje, é celebrada com fogos de artifício e desfiles. Mas o dia da Bastilha é muito mais do que um feriado nacional - fomentou uma cultura de desobediência civil em França que inspirou inúmeras revoltas, sublevações e manifestações durante séculos que se seguiram. Aqui estão alguns dos momentos mais marcantes:

1848: A segunda Revolução

Esta gravura mostra a proclamação da república na Praça da Bastilha a 27 de fevereiro de 1848.

Cerca de meio século após os acontecimentos da Revolução terem sido resolvidos, o povo mobilizou-se, mais uma vez em massa, para derrubar o domínio do rei Luís Felipe. Estabeleceu-se a segunda República após um golpe de Estado realizado por Napoleão. Os acontecimentos fizeram parte de uma série de revoluções em 1848, nas quais revolucionários de toda a Europa protestaram contra monarquias seculares - na Sicília, Alemanha, Itália e Áustria.

1968: Maio de 68 - Protestos de estudantes com pedras da calçada

Os habitantes passam por cima das pedras de calçada empilhadas nas ruas durante as manifestações estudantis francesas em maio de 1968.

Há cinquenta anos, estudantes da prestigiada Universidade da Sorbonne saíram à rua depois de uma ocupação na universidade ter desencadeado um violento conflito com a polícia da cidade. Os protestos ficaram famosos, sendo mesmo recordados pelos paralelepípedos que os manifestantes desenterraram da calçada e atiraram contra a polícia. O movimento de quase 9 milhões de estudantes, trabalhadores e funcionários públicos acabou por esmagar a resistência governamental, e levou a um aumento do salário mínimo de 35%, a um aumento salarial de 10% e à dissolução da Assembleia Nacional. Mas isso causou sete mortes e centenas de feridos entre as partes oponentes em protesto.

1986: Protestos da Reforma Universitária

Os estudantes do ensino secundário reunidos em assembleia geral, em 1986, para protestar contra um projeto de lei destinado a reformas no Ministério da Educação francês.

Tal como o movimento de duas décadas antes, a manifestação que ocorreu em 1986 também forçou o governo francês a aceder às exigências do povo. Uma proposta de lei sobre os critérios de seleção universitária causou uma grande agitação por parte do público; mais uma vez o ambiente nas ruas de Paris era de incêndios, sangue e vidros partidos. Os protestos chegaram a um clímax devastador depois de um estudante envolvido nos protestos ter sido espancado e morto pela polícia. O projeto de lei acabou por ser anulado e o ministro que o propôs demitiu-se.

2018: Os Protestos dos Coletes Amarelos

Uma nova geração de manifestantes populares franceses veste coletes amarelos, que o governo francês exige que todos os condutores tenham nos seus veículos em caso de emergência.

Em 2018, as ruas de Paris foram de novo incendiadas quando mais de 300.000 pessoas em todo o país se mobilizaram contra um imposto sobre o gás e o gasóleo imposto pelo governo.

Os manifestantes barricaram as estradas, bloquearam depósitos de gás, destruíram bens públicos e queimaram carros durante semanas a fio em manifestação. Os protestos expandiram-se a uma resistência muito mais ampla contra a administração do Presidente Emmanuel Macron.

Este protesto ficou conhecido como um dos maiores que a cidade tinha presenciado nas últimas décadas - e continuou, de uma forma menos significativa, mas entrando pelo ano de 2019.

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