Este é René Robert, o fotógrafo que esteve nove horas inanimado numa rua em Paris sem que ninguém o ajudasse. Morreu

28 jan, 23:28
René Robert

Caiu no passeio, não muito longe de casa, desconhecendo-se por agora se terá tropeçado ou sofrido um desmaio. Ali ficou, entre uma loja de vinhos e uma ótica, à vista de quem passava. Passou as nove horas seguintes estendido no chão, sem que ninguém lhe prestasse auxílio ou chamasse os serviços de emergência

Um homem de 85 anos foi encontrado em hipotermia no dia 20 de janeiro nas ruas de Paris, depois de ter passado nove horas caído inanimado. Era René Robert, um artista que passou cerca de meio século a fotografar imagens de bailarinos e músicos de flamenco.

Nascido em Friburgo em 1936, uma pequena cidade nos Alpes suíços, René Robert encontrou a sua paixão ainda em criança, quando o pai de um grande amigo seu "tirava fotografias e revelava as imagens a preto e branco na cave". Esta é uma memória que foi recordada pelo artista à revista Musique Alhambra, em 2007.

"Foi ele que me convidou a ver como se fazia e isso foi uma revelação para mim: descobrir a imagem parecia algo milagroso", contou o fotógrafo, que se formou em Lausanne, onde também deu os primeiros passos como jornalista.

No final dos anos 50 muda-se para Paris, que então proliferava como a capital da moda, área em que René Robert viria a trabalhar, bem como em publicidade ou até no ensino. Pouco depois de completar 30 anos, dá-se outra paixão: o flamenco, dança de influência árabe e judaica, à qual foi apresentado por uma bailarina sueca.

É na capital francesa que começa a frequentar o Catalan, um tablao - palco onde se canta e dança o flamenco - que reunia várias personalidades desde o pós-guerra, desde exilados a artistas que estavam na cidade. Um deles era Pablo Picasso, então já um afamado pintor, mas que acabou por não ser contemporâneo de René Robert, que viria a falar do assunto mais tarde: "O Picasso frequentou o Catalan, entre outras razões porque o seu estúdio ficava naquela rua. Era o lugar de encontro de alguns espanhóis em Paris, mas também daqueles que se interessavam por flamenco".

Com uma educação de alguma rigidez, René Robert encontrou no flamenco uma sensação de libertação, um contraste cativador: "Subjuguei-me à força, ao nervo, ao atrevimento dos artistas, à maneira de exporem o trágico, a dor, o sofrimento, mas também a vitalidade, o ritmo e a sensualidade", acabou por dizer em 2015, no âmbito do Festival de Flamenco de Nimes.

A nova paixão funde-se com a antiga e acaba por monopolizá-la. Daí em diante, o suíço aborda o melhor que o flamenco teve ao longo dos últimos 50 anos. As imagens de René Robert retratavam artistas em ação, fotografias repletas de movimento, muitas vezes a branco e preto. Ao longo dos anos vai várias vezes a Espanha e é aí que começa a trabalhar e a fica amigo de ícones como Paco de Lucía, de quem acabou por se tornar confidente. Esses foram tempos recordados por Michel Mompontet, jornalista e músico que explicou a causa da morte do fotógrafo.

A obra de René Robert está documentada em vários livros, entre os quais "La Voz de los Flamencos", publicado em 2008. Há ainda um grande arquivo, com 593 fotografias, todas a preto e branco, no Departamento de Gravações e Fotografia da Biblioteca Nacional de França.

O que aconteceu

“Assassinado pela indiferença.” Foi assim que, numa publicação no Twitter, o jornalista e músico francês Michel Mompontet descreveu a morte do amigo René Robert. Tinha 84 anos, saiu da sua residência na Rue de Turbigo, no centro de Paris, para uma caminhada na noite de quarta-feira, 19 de janeiro. Passava pouco das nove da noite quando caiu no passeio, não muito longe de casa, desconhecendo-se por agora se terá tropeçado ou sofrido um desmaio. Ali ficou, entre uma loja de vinhos e uma ótica, à vista de quem passava - locais, turistas, trabalhadores dos restaurantes em redor. Segundo a imprensa francesa, passou as nove horas seguintes estendido no chão, sem que ninguém lhe prestasse auxílio ou chamasse os serviços de emergência.

Foi preciso esperar pelas 6:30 do dia seguinte, quando um sem-abrigo alertou os bombeiros - que, no local, encontraram um homem “deitado no chão, com um traumatismo craniano e sangue”. Em estado de hipotermia, a morte do fotógrafo foi declarada no hospital Cochin. René Robert morreu de “hipotermia severa”.

“Era discreto. Muito atento aos outros, divertido, mas era um homem de poucas palavras. Falava em voz baixa. Não gostava muito de falar, como muitos fotógrafos”, descreve-o o amigo Mompontet. O jornalista revelou entretanto que os amigos do fotógrafo conseguiram localizar o sem-abrigo que deu o alerta, mas este não quis tornar pública a sua identidade. 

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