Como a zoologia se enganou em relação às fêmeas

CNN , Katie Hunt
19 jun, 09:00
Lucy Cooke, documentarista e autora de "Bitch: On the Female of the Species", analisa ao detalhe os papéis das fêmeas no reino animal

Os estereótipos das criaturas macho como sendo dominantes e das fêmeas como sendo dóceis moldaram a zoologia desde o tempo de Charles Darwin. Esta interpretação ainda hoje é demasiadas vezes incontestada em livros escolares e documentários sobre a natureza.

Um novo livro deita abaixo esta falácia sexista e conta uma história mais completa sobre o papel das fêmeas na natureza.

É uma história que interessa porque existe uma comparação constante dos humanos aos animais para explicar supostas diferenças fundamentais entre os homens e as mulheres - e a ideia de que os homens estão preparados para assumir o estatuto de alfa e as mulheres são habitualmente passivas.

Esta visão tem sido completamente exagerada e não faz sentido quando se observa a diversidade do reino animal, explicou Lucy Cooke, uma documentarista e autora de “Bitch: On the Female of the Species”, que chega às bancas dos Estados Unidos na terça-feira.

De acordo com Cooke, as fêmeas são tão promíscuas, competitivas, agressivas e dinâmicas como os seus congéneres machos e desempenham um papel igual na condução da mudança evolutiva.

Para provar o seu ponto de vista, a autora, que tem um mestrado em zoologia da Universidade de Oxford, prontifica-se a detalhar as características de uma série de animais: mães suricatas assassinas, hienas africanas com um clítoris de 20 centímetros, matriarcas orca na menopausa e albatrozes que podem ter relações lésbicas duradouras.

“Achei muito gratificante descobrir a diversidade da experiência feminina”, disse Cooke à CNN, “e de ficar a saber que não é governada por este tipo de regras patriarcais deprimentes.”

O mito da monogamia feminina

É um clássico habitual dos documentários da natureza. Os machos são agressivamente promíscuos, mas as suas fêmeas são tímidas, exigentes e castas.

No entanto, multidões de animais fêmeas procuram acasalar com vários parceiros. Sabe-se que uma leoa fêmea pode acasalar até 100 vezes por dia com múltiplos pretendentes machos durante o cio.

As aves canoras são socialmente monógamas enquanto constroem ninhos e alimentam as crias juntas, mas antes de nidificarem, 90% das aves canoras acasalam com bastante frequência com múltiplos parceiros, de acordo com a investigação. Um ninho de ovos pode ter muitos pais, mesmo que um único pássaro canoro macho esteja a criar as suas crias juntamente com a sua parceira fêmea. É um dado revelado pelos testes de ADN dos ovos do pássaro azul oriental (sialia sialis) - uma técnica utilizada pela primeira vez por Patricia Gowaty, professora emérita de biologia evolutiva na Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

“Recebi muitas críticas com esta investigação”, Cooke cita Gowaty no seu livro: “Embora eu tivesse descoberto algo, essa descoberta ofendeu tanta gente que foi inacreditável. Não conseguiam imaginar que as mulheres fossem algo que não inofensivas.”

Só nos anos 90 é que o mundo ornitológico aceitou que as aves fêmeas eram promíscuas, abrindo essa hipótese para estudos semelhantes sobre répteis e anfíbios. Feitas as descobertas, os especialistas acreditam agora que a verdadeira monogamia só é encontrada em 7% das espécies, de acordo com o livro de Cooke.

Os testes de ADN dos ovos da ave azul oriental revelaram que um ninho de ovos pode ter muitos pais

Promiscuidade para proteger as crias

Que papel desempenha todo este sexo no reino animal? Não se trata apenas de aumentar as hipóteses de engravidar. É uma estratégia que, para alguns animais, poderá aumentar as hipóteses de sobrevivência das suas crias.

Alguns estudos revelaram que os macacos langur machos, na Índia, matam frequentemente crias não desmamadas quando dominam outro grupo. O mesmo comportamento tem sido observado desde então entre dezenas de outras espécies de primatas, incluindo chimpanzés - bem como em animais como os leões.

Um grupo de langurs sentados em ramos de árvores em Pushkar, no estado indiano de Rajasthan, em 2018

Os especialistas acreditam que as fêmeas são levadas a acasalar com os pretendentes machos, dentro e fora do seu grupo, para criar confusão nas questões de paternidade, protegendo as suas crias e fazendo com que os parceiros machos cuidem delas. Existe uma componente de sexualidade agressiva entre as chimpanzés fêmeas, que produzem apenas cinco ou seis crias numa vida, mas podem acasalar milhares de vezes com dezenas de chimpanzés machos. Este comportamento sexual agressivo das fêmeas também pode ser observado em macacos-de-gibraltar e babuínos de savana.

“A ideia de que as fêmeas são tão agressivas sexualmente como os machos - não é algo com que muita gente se vá sentir confortável”, afirmou Cooke.

Mas, para alguns animais, a promiscuidade é a única forma de serem mães atenciosas.

Anatomia sexual que é fálica

Pode-se pensar que os genitais são a característica que distingue os sexos, mas Cooke descobriu que dezenas de animais fêmeas têm uma anatomia sexual que é claramente fálica.

Veja-se a hiena-malhada fêmea africana. Tem um clítoris de 20 centímetros que tem a forma e o posicionamento exatamente igual ao do pénis do macho. Esta hiena fêmea também tem ereções e é maior, mais agressiva do que as hienas masculinas e vive em clãs matrilineares de até 80 hienas dominadas por uma matriarca alfa feminina.

O estudo da hiena-malhada e de outros “animais masculinizados”, tais como lémures e ratazanas toupeiras, tornou possível compreender como um animal se torna fêmea - um campo ainda pouco estudado.

Tradicionalmente, acreditava-se que a testosterona era a força motriz que programava os embriões para serem machos, com a suposição de que “fêmea” tinha o padrão passivo. Mas agora acredita-se que esta fórmula seja uma maneira demasiado estrita de encarar as diferenças entre os sexos.

Hienas-malhadas, também conhecidas como ‘hienas que riem’, fotografadas na Reserva Nacional Maasai Mara no Quénia

Domínio Feminino

Tem sido difícil para a biologia aceitar a fêmea alfa. Segundo alguns dados do livro de Cooke, já sucedeu um grupo de investigadores ter descartado a luta hierárquica entre as fêmeas pinyon jays como “o equivalente dos pássaros ao síndrome pré-menstrual”.

Mas muitas populações de animais são dominadas por fêmeas, incluindo as referidas hienas, e por vezes podem tornar-se desagradáveis.

Clãs de suricatas, os mangustos que se levantam nas patas traseiras para analisar a savana africana, são dominadas por uma única fêmea que monopoliza a reprodução. O seu principal objetivo é impedir que as suas parentes fêmeas tenham as suas próprias crias - em vez disso, ela coopta-as a cuidar das suas crias. Quando as suas rivais atingem a idade reprodutiva, a suricata alfa mata-as, ou deixa-as fora do grupo.

“Chama-se criação cooperativa, o que me dá sempre vontade de rir porque, na verdade, não é bem isso”, afirmou Cooke. “É um pouco despótico.”

Os bonobos, ao contrário dos chimpanzés, que são seus familiares próximos, têm uma população dominada pelas fêmeas. No entanto, não lutam umas com as outras. Em vez disso, os bonobos fêmea forjam uma irmandade formidável - tudo através da escovagem do pelo e masturbação mútua para regular a tensão e promover a cooperação.

“O que é fascinante sobre o bonobo, porque estamos igualmente relacionados, tanto com bonobos como com chimpanzés, é que há uma clara demonstração de que a dominância não tem nada a ver com sexo. Tem tudo a ver com o ambiente em que um animal se encontra”, referiu Cooke. “Não há norma.”

Ter o controlo na batalha dos sexos

Mesmo em sociedades em que os animais machos são mais dominantes e o sexo é frequentemente coagido, os seus pares fêmea desenvolveram formas criativas de controlar a batalha dos sexos.

Patricia Brennan, professora assistente adjunta de biologia evolutiva na Universidade de Massachusetts Amherst, está a construir uma biblioteca de réplicas de vaginas de animais - uma parte do corpo muito pouco estudada. A sua investigação sobre vaginas de patos e golfinhos revelou que são mais do que simples tubos. Têm uma forma única, com bolsos invisíveis e espirais.

Ela acredita que as fêmeas de patos-reais podem controlar qual o pato que fertiliza os seus ovos, permitindo ou bloqueando a passagem do pénis. Brennan descobriu um fenómeno semelhante com os golfinhos.

Um pato-real fêmea na reserva natural de S'Albufera, na ilha de Mallorca, em 2021

“Nas situações em que há coerção masculina, o que não é invulgar entre certas espécies, a fêmea não é tão vítima como se pensa, porque controla quem fertiliza os seus óvulos”, revelou Cooke. “E no que diz respeito à evolução, é só isso que importa.”

Cooke já está a planear o seu próximo livro. O tema? Como Darwin se enganou em relação aos animais machos.

“O estereótipo do macho alfa é tão prejudicial para os homens como para as mulheres.” Cria esta ideia de que os homens devem ser agressivos e competitivos”, disse ela. “O pensamento darwiniano dá permissão à masculinidade tóxica.”

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