«Se eu tivesse batido o livre em Manchester, o FC Porto não ganharia a Champions»

11 mai, 09:22
Ricardo Fernandes (Getty Images)

Ricardo Fernandes recorda o lance em que contrariou as indicações de José Mourinho, a par de Benni McCarthy e Costinha

Ricardo Fernandes é o mais recente convidado da rubrica Depois do Adeus, que será publicada nesta quarta-feira à noite. Aos 44 anos, o antigo jogador de clubes como Sporting e FC Porto passa os seus dias a gerir um restaurante japonês - Miyuki - no Parque das Termas de Vizela.

À margem da conversa sobre a vida após o final da carreira, o esquerdino recordou vários episódios de um percurso rico, com especial carinho pela temporada que passou de dragão ao peito, conquistando uma Supertaça (depois de ter garantido o mesmo título pelo Sporting), uma Liga portuguesa e a Liga dos Campeões.

Trocado por Clayton no verão de 2003, Ricardo Fernandes apresentou-se às ordens de José Mourinho com o desejo de ser parte integrante de uma das melhores equipas da história do FC Porto, que tinha acabado de vencer a Taça UEFA e que apontava baterias à Liga dos Campeões.

O português tinha 25 anos e não esquece aquela temporada 2003/04.

«Tenho a certeza que saí a ganhar com a troca do Sporting para o FC Porto, porque estive na conquista de um título que seguramente será muito difícil de ver uma equipa portuguesa a ganhar novamente, uma vez que o dinheiro tem cada vez mais influência.»

Ricardo Fernandes fez 21 jogos ao longo da época, sendo opção regular nos jogos europeus dos dragões. Suplente utilizado na derrota na Supertaça Europeia com o AC Milan (0-1), o esquerdino foi lançado em cinco encontros na campanha histórica na Champions.

«Tive a felicidade de estar no sítio certo à hora certa», brinca, em conversa com o Maisfutebol, explicando que José Mourinho tinha uma confiança tremenda na sua capacidade para desequilibrar em lances de bola parada.

Porém, o médio marcou apenas um golo pelo FC Porto, logo em setembro, frente à União de Leiria: «Olhe, foi o único que marquei e estava a fazer um jogo horrível. Lá me saiu bem e acabámos por vencer o jogo (1-3).»

«Eu era claramente a aposta do Mourinho para as bolas paradas. Aliás, e ele já falou disso, eu tinha ordens para bater todos os lances de bola parada a partir do momento em que entrasse em campo. Foi mesmo para isso que ele me meteu em Manchester, ao minuto 81», atira.

A perder por 1-0 em Old Trafford, após o 2-1 no Estádio do Dragão, o FC Porto precisava de mais um golo para seguir em frente, numa altura em que os golos fora ainda contavam a dobrar. Já ao minuto 90, os dragões beneficiaram de um livre à entrada da área. Em 2019, ao Porto Canal, José Mourinho recordou o que aconteceu depois.

«O Ricardo Fernandes entra em jogo porque havia uma certa supremacia nossa e sentia-se uma tensão que não era normal. Disse-lhe: 'Vão aparecer livres e, quando houver, pega na bola e mete-a lá dentro’. O livre apareceu e eu só vejo o Benni McCarthy a enxutar o Ricardo para o lado e começo a insultar o Benni. Só pensava: 'Eu vou matá-lo! Aliás, vou matar os dois!' Depois, o homem que costumava estar na barreira para arrastar o guarda-redes para o outro lado era o Costinha. E começo a ver que o Costinha não está lá e que se foi meter no grupo que deveria atacar a segunda bola. Houve ali influência divina que os fez modificar toda a estrutura.»

 

O esquerdino acrescenta mais um pormenor delicioso à história. A decisão partiu do próprio Ricardo Fernandes. «Fui eu que decidi aquilo, disse ao Benni para bater e ainda bem. Se tivesse sido eu a bater esse livre, o FC Porto não ganharia a Champions. Quer dizer, só se me enganasse, mas não me parece», atira, entre gargalhadas, com humildade: «Faltou-me claramente confiança naquele momento, como faltou em grande parte da época.»

«Até cheguei bem, comecei a época com confiança, mas fui perdendo-a. Aquilo era tudo tão perfeito que eu olhava mais para o lado do que para mim próprio. Acabou por me prejudicar. Mas pronto, eu, o Benni e o Costinha não seguimos as ordens do Mourinho e aquilo deu golo. E claro, mal chegámos ao balneário, a primeira coisa que o José Mourinho fez foi dar-me na cabeça por isso», explica, ao Maisfutebol.

O FC Porto eliminou o Manchester United nos oitavos de final, seguindo-se Olympique Lyon e Deportivo no caminho para a final. Antes do segundo jogo das meias-finais, Ricardo Fernandes foi expulso num jogo do campeonato português e acabou por ser alvo de um ‘castigo’ de Mourinho.

«Num Rio Ave-FC Porto em Vila do Conde, fui titular, houve um lance em que perdi a bola e reagi de forma intempestiva. Dei uma pancada ao meu adversário e vi o cartão vermelho, que me pareceu exagerado. O Mourinho achou que fiz aquilo por estar com azia de alguma coisa, o que não foi o caso. Logo no dia seguinte, durante o 'meinho' deu a perceber que eu já não iria à Corunha», desabafa.

O esquerdino ficou fora da lista de convocados para o jogo no Riazor, mas foi chamado para a final frente ao AS Monaco. Porém, acabaria por acompanhar o encontro decisivo nas bancadas no estádio em Gelsenkirchen.

«Fui à Corunha com o meu pai, de carro, e o Mourinho gostou de me ver no balneário no final. Depois, na final, fiquei na bancada com o Secretário. Era a minha companhia em muitos jogos e o Secretário até brincava com a situação: ‘Tu és o 19.º jogador, eu sou o 20.º. E foi assim que festejei na Alemanha, de fato.»

Ricardo Fernandes considera que o seu contributo não foi significativo. Porém, viveu momentos inesquecíveis com o FC Porto 2003/04, incluindo aquele jogo de inauguração do Estádio do Dragão frente ao Barcelona, que estreou um tal de Leo Messi.

«Aquele ano foi mesmo uma experiência diferente. O mister Mourinho teve o dom de perceber que dando liberdade aos jogadores, também ganhava da parte deles a responsabilidade. Deixou os jogadores viverem normalmente, por vezes até anormalmente, porque aquele autocarro era uma perdição. Lá surgia um castigo de vez em quando, mas muita coisa era permitida. O Benni, por exemplo, esteve castigado antes dos jogos com o Man. United, esteve em casa e depois a treinar com a equipa B, mas voltou e fez o que fez com o United», salienta.

O esquerdino teve ainda o privilégio de ocupar um espaço invejável no autocarro do FC Porto: o famoso U, formado na parte traseira do veículo e tapado por uma cortina, onde a «velha guarda» ditava as leis.

«Aquele espaço obrigava a um certo estatuto, mas havia livre trânsito para quem soubesse jogar à sueca. O Paulinho Santos tinha acabado a carreira, o Capucho saiu para o Rangers, portanto abriram-se umas vagas e, como eu e o Pedro Mendes jogávamos à sueca, tivemos acesso a esse espaço mítico lá atrás.»

Jorge Costa era presença incontornável nesse espaço do autocarro e um capitão exemplar: «Lá atrás estavam sempre o Jorge Costa, o Pedro Emanuel, normalmente o Costinha, e o Secretário a apontar os resultados. Alguns também iam lá só fumar um cigarrito. Enfim, fazíamos coisas que se calhar não tinham sentido nenhum, mas criava-se ali uma mística tremenda.»

«Tínhamos essa liberdade e respondíamos com uma disponibilidade a 200 por cento. A exigência estava sempre no máximo, até porque tínhamos um capitão que até se babava, mordia-se todo quando tinha de ser. É incrível pensar no que era a figura do Jorge Costa como jogador e capitão e do que ele é como pessoa, uma pessoa muito calma», frisa Ricardo Fernandes.

A época terminou com a conquista da Liga portuguesa e da Liga dos Campeões, após a Supertaça no início da temporada. José Mourinho saiu para o Chelsea e Ricardo Fernandes também terminou a sua ligação contratual ao FC Porto.

«Acho que a minha saída não estava planeada e o que pesou ali foi a decisão do treinador que o FC Porto contratou (Luigi Del Neri), devia ter outros jogadores em vista e caí eu. Não era de todo o que estava à espera, nada me fez pensar que isso iria acontecer, quer da parte da equipa técnica, quer da administração.»

Em julho de 2004, o médio português soube que não iria para estágio com o plantel do FC Porto. «A direção propôs-me um empréstimo, mas eu achei que não devia ser assim, que não merecia aquilo, chegámos a acordo e segui a minha vida. Tinha a ideia que, se as coisas corressem bem, jogaria ali até terminar a carreira. Infelizmente, fiquei apenas um ano», remata Ricardo Fernandes.

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