Venceu a Champions pelo FC Porto e aposta no sushi em Vizela

12 mai, 10:14
Ricardo Fernandes

Ricardo Fernandes conquistou sete títulos por Santa Clara, Sporting, FC Porto e APOEL; atualmente, gere um restaurante de comida japonesa

«Depois do Adeus» é uma rubrica dedicada à vida de ex-jogadores após o final das carreiras. O que acontece quando penduram as chuteiras? Como subsistem os que não ficam ligados ao futebol? Críticas e sugestões para o email vhalvarenga@tvi.pt.

Ricardo Fernandes tem um currículo extenso e repleto de momentos épicos. O antigo médio venceu uma II Liga pelo Santa Clara, uma Supertaça de Portugal pelo Sporting e outra pelo FC Porto no início de uma temporada inesquecível. Em 2003/04, conquistou ainda a Liga portuguesa e a Liga dos Campeões pelos dragões.

O esquerdino cresceu no Desp. Aves, Moreirense e Freamunde até assinar contrato com o Sporting, aos 21 anos. Após períodos de cedência a Santa Clara e Gil Vicente, Ricardo Fernandes ficou uma época no plantel principal dos leões, seguindo-se uma troca direta com Clayton para rumar ao FC Porto.

Depois de uma temporada de dragão ao peito, o antigo jogador ainda vestiu a camisola da Académica antes de emigrar, passando por países como Chipre (APOEL, Anorthosis, AEL, Omonia e DOXA), Ucrânia (Metalurg Donetsk) e Grécia (Panetolikos).

Em 2016, Ricardo Fernandes regressou definitivamente a Portugal, jogando por Trofense e Felgueiras até terminar a carreira, já com 39 anos. «Quando terminei a carreira, em 2018, surgiu a oportunidade de pegar no Chalé do Parque das Termas de Vizela. Parecia uma boa oportunidade, mas não foi o que esperava nos primeiros anos.»

Em entrevista ao Maisfutebol, o esquerdino admite as dificuldades iniciais no projeto que abraçou com a esposa, Roberta Fernandes.

«Não tínhamos experiência na área, caímos de para-quedas nisto. Estivemos algum tempo a preparar o espaço para a reabertura, que foi em fevereiro de 2019, ainda trabalhámos um ano, mas entretanto começaram os problemas com a covid-19, as limitações e os encerramentos. Foi um período complicado.»

«Felizmente, estas pausas ajudaram-nos a perceber qual era o caminho que queríamos seguir e formámos uma sociedade que nos permitiu abrir no mesmo sítio, porque o espaço é sensacional, com um novo conceito. No dia 9 de junho, fará um ano que reabrimos como Miyuki, restaurante de comida japonesa. Apresentamos uma qualidade acima da média e o feedback tem sido muito positivo», explica.

A sociedade com Qi Yang, jovem empresário que nasceu na China e cresceu em Portugal, tem dado frutos. «É um rapaz que tem apenas 28 anos, mas com longa experiência familiar na restauração e com formação em hotelaria. Organizou as coisas à maneira dele e ajuda até na parte da gestão, tem tido um papel fantástico, embora seja uma pessoa muito ocupada porque tem mais restaurantes. Em conjunto, conseguimos criar uma coisa bonita.»

O Chalé do Parque das Termas de Vizela foi reaberto em 2006, inspirado no edifício original, destruído por um incêndio na década de 80. Quando Ricardo Fernandes e a esposa Roberta adquiriram os direitos de exploração do espaço, comprometeram-se a respeitar a tradição.

«Propusemo-nos a valorizar o espaço e a usá-lo de forma merecedora, sabendo que o chalé tem uma história centenária e um significado muito grande para as pessoas em Vizela. Está inserido numa zona verdade, lindíssima, e acreditamos que o conceito que criámos agora com o Miyuki se enquadra na identidade do próprio chalé. Fizemos renovações mantendo o desenho original e vamos continuar a melhorar a estrutura. Aliás, estamos a desenvolver nesta altura um novo espaço exterior», salienta o antigo jogador.

Aso 44 anos, Ricardo Fernandes passa os seus dias no Miyuki, como coproprietário do espaço e disponível para fazer o que for preciso: «É importante o dono estar no local, os clientes sentem isso, portanto estou lá todos os dias. Se não puder ir um dia ou outro, está lá o meu sócio. Faço questão de receber bem as pessoas e gosto de lidar com o público. Se for preciso servir às mesas, também sirvo, não tenho qualquer problema com isso.»

Entre os períodos de interrupção de atividade no Chalé do Parque e a abertura do restaurante japonês no mesmo local, o esquerdino aceitou um convite da MNM Sports Management para gerir o futebol do FC Felgueiras. A empresa de Fernando Meira, Nuno Assis e Pedro Mendes tinha 51% das ações da SAD.

«Acabou por coincidir com os períodos de confinamento e orgulho-me muito do trabalho que fizemos, cumprindo o objetivo de controlar melhor as despesas e manter a equipa competitiva. O objetivo mínimo foi conseguido, a Liga 3, e com uma equipa bastante jovem, exceto quando jogava do Mário Sérgio, que nos ajudava muito mas lixava logo a média», atira Ricardo Fernandes, entre gargalhadas, elogiando o lateral direito, amigo de longa data.

Ricardo Fernandes desempenhou as funções entre janeiro de 2020 e maio de 2021. Desde então, concentrou toda a sua atenção no Miyuki: «É um tipo de trabalho no futebol que voltarei a fazer um dia. Há uns meses apareceu a possibilidade de trabalhar numa equipa da Liga 3, mas o 'timing' não era o certo. Tentar fazer duas coisas ao mesmo tempo dá mau resultado. Neste momento, o meu foco está no restaurante.»

«Não me tem feito falta o futebol e não me custa estar no restaurante o dia todo. A minha esposa ainda me acompanha ao almoço, mas depois ao jantar fico só eu. A restauração é muito exigente, os clientes são cada vez mais exigentes e ainda bem que assim é. Nesta altura, as coisas estão a correr bem, um bocadinho melhor até que as expetativas, mas temos de manter os padrões, porque este meio é muito volátil. Fazer bem em dois ou três dias e depois facilitar noutro estraga o negócio.»

Sete títulos e o mundo de Moreira de Cónegos a Felgueiras

Ricardo Fernandes está temporariamente afastado do futebol, mas teve uma carreira repleta de motivos de interesse, de Moreira de Cónegos a Felgueiras, passando por dois dos maiores clubes portugueses (Sporting e FC Porto) e por países distintos como Chipre, Ucrânia e Grécia.

O esquerdino despontou no Desportivo das Aves, passou uma época no Moreirense e destacou-se com a camisola do Freamunde, garantindo um contrato com o Sporting aos 21 anos.

«Aos 18 anos, fui para a III Divisão e formámos naquele Freamunde uma equipa fantástica, que subiu duas épocas seguidas até à II Liga.»

«Fiz a última temporada no Freamunde como jogador cedido pelo Sporting, em 1999/2000, depois cumpri a pré-época com o Augusto Inácio, mas foi decidido que seria emprestado ao Santa Clara», recorda.

Campeão da II Liga pelo Santa Clara, Ricardo Fernandes seguiu em 2001 para o Gil Vicente, para a época de estreia na Liga portuguesa. Mais um grande desempenho e as portas abertas para a afirmação no plantel principal do Sporting, em 2002.

«Consegui iniciar a época como titular, na Supertaça com o Leixões marquei dois golos e ainda falhei um penálti (5-1), depois também joguei de início nas primeiras jornadas do campeonato, mas aquela foi uma temporada muito complicada para o Sporting. O João Vieira Pinto tinha sido castigado pelo que fez no Mundial, o Jardel decidiu que não queria voltar. Enfim, o arranque foi muito difícil», admite.

No meio da turbulência, surgiu Cristiano Ronaldo: «A explosão do Ronaldo foi a melhor coisinha daquela temporada do Sporting. Com aquela idade, fazia coisas que não se viam em lado nenhum, e aliava a isso uma arrogância, uma irreverência, uma autoestima que foram fundamentais para a carreira que teve ao longo destes anos. Eu também tinha um pouco disso, quando jogava fazia a diferença e marquei cinco golos nessa época, mas a certa altura perdi essa irreverência e isso prejudicou-me.»

No final da temporada 2002/03, em que venceu apenas a Supertaça de Portugal, o Sporting acertou com o FC Porto uma troca direta de jogadores: Clayton rumou a Alvalade, Ricardo Fernandes passou a vestir a camisola azul e branca, participando numa das épocas mais memoráveis do clube portista.

«Tenho a certeza que saí a ganhar com a troca do Sporting para o FC Porto, porque estive na conquista de um título que seguramente será muito difícil de ver uma equipa portuguesa a ganhar novamente, uma vez que o dinheiro tem cada vez mais influência», diz o antigo médio, destacando uma noite épica em Old Trafford: «Se eu tivesse batido o livre em Manchester, o FC Porto não ganharia a Champions»

No verão de 2004, José Mourinho saiu para o Chelsea e Ricardo Fernandes terminou de forma precoce a sua ligação contratual ao FC Porto, depois de saber que não fazia parte dos planos de Luigi del Neri, o novo treinador dos dragões.

«A direção propôs-me um empréstimo, mas eu achei que não devia ser assim, que não merecia aquilo, chegámos a acordo e segui a minha vida. Tinha a ideia que, se as coisas corressem bem, jogaria ali até terminar a carreira. Infelizmente, fiquei apenas um ano», desabafa. Para o seu currículo ficaram mais uma Supertaça de Portugal, uma Liga portuguesa e a inesquecível Liga dos Campeões.

Seguiu-se a Académica e uma temporada mediana na Liga portuguesa, convencendo Ricardo Fernandes a arriscar. Precisava de mudar de ares para dar um novo impulso à sua carreira, aos 27 anos.

«Fui para o APOEL, completamente às escuras, não fazia ideia como era o Chipre, mas estava na altura de sair de Portugal. Lá carregámos as malas com os dois filhos pequenos e correu bem, porque é dos melhores sítios para se viver na Europa, em termos de qualidade de vida. A mudança permitiu-me um novo começo e penso que esses anos no APOEL e depois no Metalurg, entre 2005 e 2009, foram aqueles em que tive melhores desempenhos», considera.

Ajudou 15 refugiados ucranianos a instalarem-se em Vizela

No início de 2008, Ricardo Fernandes trocou Nicósia por Donetsk, Chipre por Ucrânia, enfrentando uma realidade completamente distinta: «Vinha da praia, quentinho, e fui meter-me na neve, inverno, tudo queimado. Assustei-me no primeiro dia em Donetsk. Mas depois adorei lá estar, foi mesmo onde joguei melhor.»

O jogador português representou o Metalurg Donetsk em dois períodos distintos (2008 a 2009 e posteriormente em 2011). Por isso, tem sofrido à distância com a invasão russa, participando ativamente no auxílio a refugiados da Ucrânia.

«Um ex-colega ucraniano que jogou comigo pediu-me ajuda para receber pessoas aqui. Falei com o Lions Clube de Vizela e conseguimos alojamento para eles. Primeiro vieram oito pessoas, depois vieram mais sete, entre mulheres e crianças. É preciso enaltecer também o papel de uma família, que não quer publicidade mas que cedeu uma casa para essas pessoas viverem em condições fantásticas por aqui», frisa.

Ricardo Fernandes considera que essa foi a melhor forma de devolver o carinho que sentiu na Ucrânia, um país onde Vladimir Putin tem sabido tirar partido de mentalidades díspares: «Já nessa altura se percebia que em Donetsk havia claramente duas partes com ideias diferentes. O tradutor, por exemplo, dizia-me que preferia ficar ligado à Rússia do que à União Europeia. No início do conflito voltei a falar com ele e a opinião mantinha-se.»

«O Putin tem aproveitado essa divisão entre o próprio povo ucraniano. Usa a desculpa de que está a ajudar para invadir um país e ocupar território. No Chipre também foi assim. A parte do Norte queria a separação, queria ligar-se à Grécia, a Turquia apareceu com a desculpa de que queria ajudar e acabou por anexar uma parte da ilha. Até hoje», salienta o esquerdino.

Foi em Chipre, de resto, que o jogador conquistou mais dois títulos - uma Liga e uma Taça pelo APOEL em 2006 e 2007 – e conquistou uma reputação intocável. «Aí sim, senti que fui importante nessas conquistas. Individualmente, a minha participação foi mais evidente que na Champions pelo FC Porto, por exemplo. No APOEL, tinha a influência que um Deco tinha no FC Porto.»

Assim, altamente cotado em Chipre, viria a representar mais quatro emblemas no país ao longo da carreira (Anorthosis, AEL, Doxa e Omonia). Pelo meio, teve as experiências na Ucrânia pelo Metalurg Donestsk, em Israel pelo Hapoel Beer Sheva e na Grécia pelo Panetolikos.

«Israel foi das melhores surpresas que tive na vida, Telavive é uma cidade fantástica», salienta. Em 2012, já com 34 anos, regressou ao campeonato cipriota e ainda deixou a sua marca: «No Doxa, já estava velhinho, mas foi a fase em que sabia melhor o que fazia em campo, em que joguei com mais qualidade.»

Depois de onze anos longe de Portugal, entre 2005 e 2016, Ricardo Fernandes preparava-se para o final da carreira. Porém, ainda jogou mais duas épocas, por Trofense e Felgueiras.

«Voltei a Portugal com a intenção de terminar. Aliás, fiquei seis meses sem jogar. Mas o Hélder Sousa, que conheço dos tempos no Chipre, chateou-me para ir para o Trofense e lá cedi. Ainda bem, porque foi um ano muito giro. Depois fiz a última época no Felgueiras, com 39 anos e já dentro do projeto do Fernando Meira, do Nuno Assis e do Pedro Mendes», remata o esquerdino.

Sete títulos e tanta terra percorrida depois, Ricardo Fernandes faz um balanço agridoce do seu percurso como jogador: «Depois de chegar onde cheguei, tinha obrigação de fazer muito melhor, porque qualidade não me faltava.»

«Não fiz a formação num grande clube e isso sentiu-se, em temos de preparação mental. Aos 18 anos fui para III Divisão, trepei até ao topo da montanha, mas depois não consegui aguentar-me. Nesse patamar, o que faz a diferença é a cabeça, a estabilidade mental. Não suportei o nível de exigência que havia ali, no nível mais elevado. Foi pena», conclui, com humildade.

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