Seis contradições entre a chefe de gabinete e o ex-adjunto de Galamba

ECO - Parceiro CNN Portugal , André Veríssimo
18 mai 2023, 09:12
"Nem toquei nele e o Dr. Frederico Pinheiro deu-me um murro": chefe de gabinete acusa Frederico Pinheiro de agressões após exoneração

A chefe de gabinete aproveitou a sua audição para contrariar várias afirmações do ex-adjunto de Galamba, como os acontecimentos no ministério ou a reunião preparatória da ex-CEO da TAP.

A chefe de gabinete de João Galamba contrariou durante a sua audição na comissão parlamentar de inquérito a versão deixada horas antes pelo ex-adjunto Frederico Pinheiro sobre vários temas. Garantiu que o ministério não quis ocultar ou travar o envio das notas de Frederico Pinheiro ou mesmo que estas indicassem uma combinação de perguntas antes da ida da CEO da TAP ao Parlamento.

Quem agrediu quem?

Frederico Pinheiro disse na sua audição que foi agredido e manietado por quatro pessoas e sequestrado no ministério no dia 26 de abril em que tentou ir buscar o seu computador de trabalho. “Não agredi ninguém, libertei-me em legítima defesa e chamei a polícia”, afirmou.

Já Eugénia Correia defendeu que “quando se está perante um roubo tenta-se que a pessoa não concretize esse ato”. É assim que justifica a tentativa de retirar o computador ao ex-adjunto do ministério.

A chefe de gabinete disse que nunca tocou em Frederico Pinheiro, tentando apenas tirar-lhe a mochila, e que foi este que a agrediu e a mais três elementos do gabinete que tentaram também recuperar o computador. “O Dr. Frederico Pinheiro foi instruído por mim para não levar o computador. O computador é do Estado e não o podia levar”, disse.

Questionada sobre quem pediu para que as portas do ministério fossem trancadas, disse não saber porque não perguntou. Referiu apenas que foi um elemento do gabinete. Afirmou, no entanto, que teria dado a mesma indicação.

Notas foram omitidas ou não?

Outro tema em que os relatos não coincidem é sobre a tentativa de omitir à CPI as notas tiradas por Frederico Pinheiro em duas reuniões preparatórias da ex-CEO da TAP, antes de comparecer numa audição na comissão de Economia, a 18 de janeiro, sobre a indemnização à antiga administradora Alexandra Reis. Uma primeira reunião em que esteve o ministro das Infraestruturas, a 16 de janeiro, e outra no dia seguinte com o Grupo Parlamentar do PS.

O ex-adjunto disse aos deputados que lhe foi referido que as notas, por serem informais não teriam relevância. Frederico Pinheiro disse que quando o seu nome foi incluído num comunicado de 6 de abril do ministério, receou ser chamado à CPI. Razão porque pediu para que as notas fossem incluídas. Defendeu que houve uma tentativa do ministério para omitir as notas à CPI e que foi a sua vontade em divulgá-las que levou à sua exoneração pelo ministro a 26 de abril.

Eugénia Correia diz que convocou uma reunião para o dia 5 de abril para abordar as notícias sobre a reunião preparatória da CEO como o grupo parlamentar do PS antes da audição no parlamento a 18 de janeiro. Além da própria, participaram Frederico Pinheiro, Cátia Rosas, a técnica que faz ligação à AR, a assessora de comunicação Rita Penela e Marco Rebelo, chefe de gabinete em substituição. “Não esteve o ministro ao contrário do que disse Frederico Pinheiro” na sua audição.

“Essa reunião destinou-se a levantar documentação para entrega à CPI.” Frederico Pinheiro disse “insistentemente que não havia notas”. “Não se lembra do que aconteceu, não tem notas e não se lembra de pessoas que estiveram presentes”, relatou, sublinhando existirem quatro testemunhas. Só a 24 de julho o ex-adjunto referiu a existência das notas, garantiu. Disse também que as mesmas só foram remetidas 28 horas depois de serem pedidas, em papel e não num ficheiro informático que permitisse verificar a data, como pedido.

“As notas foram remetidas após um pedido de prorrogação de prazo nunca havendo a intenção de esconder notas, que até 24 de abril nem eu própria nem o senhor ministro sabia existirem”, concluiu.

As ameaças de João Galamba ao ex-adjunto

Frederico Pinheiro relatou que em duas conversas telefónicas o ministro dirigiu-se a ele de forma imprópria, nomeadamente quando o exonerou. “O senhor ministro das Infraestruturas ameaçou-me fisicamente” disse, referindo que Galamba ameaçou dar-lhe dois murros.

O telefonema com a exoneração foi feito às 20h45 do dia 26 de abril e Eugénia Correia estava no carro com João Galamba, de regresso do aeroporto, após uma viagem de trabalho a Singapura. “Ouvi o senhor ministro falar tranquilamente com o senhor Frederico Pinheiro e não acompanhei a totalidade da conversa porque ia também ao telefone”, afirmou aos deputados. Disse que o ministro tinha dito anteriormente que iria promover a exoneração.

“Trabalho com o senhor ministro há cinco anos e nunca testemunhei atos de violência [do ministro João Galamba] contra ninguém”, disse mais tarde.

Quem pediu a reunião preparatória da ex-CEO?

Frederico Pinheiro afirmou que a reunião entre a CEO e o ministro João Galamba a 16 de janeiro foi pedida pelo ministro, que nela transmitiu orientações a Christine Ourmière-Widener. Uma reunião que o ministério inicialmente omitiu ter existido.

Eugénia Correia leu uma mensagem enviada para si pelo antigo adjunto, datada de 13 de janeiro, em que Frederico Pinheiro diz que a CEO pediu uma reunião de preparação da audição, solicitando autorização para que fosse agendada para 16 de janeiro às 8h45. A chefe de gabinete respondeu “sim pode”.

“A mensagem é clara. É a senhora CEO que quer ir falar. Se quer ir falar não vejo que constitua problema ou que o facto de querer ir lá falar implique que tivesse de receber indicações sobre perguntas. É normal que, querendo ir lá falar, o ministro quisesse focar a situação económica da TAP. Isso não implica combinações e instruções”, disse.

“O que as notas da reunião de 16 de janeiro demonstram é que ouve uma preparação da audição com a participação do senhor ministro das infraestruturas”, relatou Frederico Pinheiro. “As notas que eu tenho de 17 de janeiro com o Grupo Parlamentar do PS mostram que o deputado Carlos Pereira disse as perguntas que iria fazer na audição e que a senhora CEO disse as respostas que daria”, acrescentou.

O apagão no WhatsApp de Frederico Pinheiro

Na sua audição, Frederico Pinheiro afirmou que Eugénia Correia pediu uma intervenção no seu telefone de serviço, que levou a que tenha “sido apagado todo o registo de conversas no WhatsApp” que tinha no aparelho, anteriores àquele dia.

O telemóvel foi solicitado com o argumento de tentar recuperar mensagens trocadas entre Frederico Pinheiro e a ex-CEO da TAP, Christine Ourmières-Widener, que tinha no seu aparelho ativada a opção de apagar as mensagens de WhatsApp após cinco dias.

Eugénia Correia confirmou que solicitou as mensagens trocadas por Frederico Pinheiro com a CEO sobre reunião preparatória da audição no Parlamento. “O Dr. Frederico Pinheiro como sempre não se lembrava de nada e não tinha nada”, relatou. “Podes verificar se há mensagens e telefonemas dessa data”, perguntou. “Foi-me transmitido que as mensagens só estavam disponíveis durante um certo período de tempo”. Pediu então ao informático do ministério se havia forma de recuperar mensagens. Foi-lhe transmitido que havia um programa para essa finalidade.

“Quem instalou o programa e cumpriu as orientações dadas pelo técnico foi ele próprio. Não foi ninguém a não ser o Dr. Frederico a mexer no telefone de acordo com indicações do técnico, acabando por apagar tudo”, disse Eugénia Correia, acrescentando existirem várias testemunhas. “O intuito não era perder mensagens. Era recuperar uma mensagem em que a CEO tivesse transmitido a vontade de estar numa reunião com o grupo parlamentar do PS”.

Durante a audição, Paulo Rios Oliveira perguntou “qual a motivação de Frederico Pinheiro para estourar com vida pessoal e profissional e inventar que tinha notas?” “Tem de lhe fazer essa pergunta”, respondeu Eugénia Correia.

Relacionados

Governo

Mais Governo

Patrocinados