Eusébio partiu há dez anos: como o mundo se despediu dele

5 jan, 07:00

Foi numa manhã de domingo, 5 de janeiro de 2014. As memórias daqueles dias, das homenagens em tantas línguas diferentes, de um sem fim de tributos à lenda que «era de todos»

A notícia chegou numa manhã de domingo e correu mundo. Em poucas horas, estava em todas as páginas online da imprensa internacional, da Europa à América do Sul. Uma imagem de Eusébio e quase sempre uma palavra em comum, em línguas diferentes: Lenda. Morreu Eusébio e o mundo pesquisou Eusébio. Ao longo daquele domingo, o nome dele esteve entre as palavras mais vezes escritas no Google em muitos países.

De Portugal à Austrália, da África do Sul ao Canadá, gente à procura de saber mais sobre aquela figura maior da história do futebol que partiu a poucos dias de completar 72 anos. Que teve muitas alcunhas - foi Pantera Negra para o mundo, era o King para quem conviveu com ele no futebol. Mas não precisava. O nome próprio era sinónimo de reconhecimento universal. Eusébio.

Em Lisboa, naquela manhã, cedo o Estádio da Luz se tornou ponto de passagem de tantos que saíram de casa para partilhar o peso daquele momento. O chão junto à estátua de Eusébio ficou cheio de cachecóis, flores, mensagens, cada um uma homenagem. Benfiquistas, mas não só. Porque, como escreveu alguém numa folha que deixou lá junto à estátua, «Eusébio era de todos».

Pelé, Maradona, um sem fim de tributos

Ao longo daquele dia, sucederam-se os tributos. Mensagens de lendas, como ele. Pelé escreveu isto: «Lamento a morte de meu irmão Eusébio. Ficámos amigos no Mundial de 1966, realizado em Inglaterra. A última vez que nos encontrámos foi em Boston, no jogo entre Brasil e Portugal. Os meus pêsames aos seus familiares e que Deus o receba de braços abertos.» E Maradona isto: «A Pantera de Moçambique. RIP, Eusébio da Silva Ferreira.» Também Bobby Charlton: «Sem dúvida, Eusébio foi um dos melhores jogadores com os que tive o privilégio de jogar. Além disso, era um autêntico desportista.» Talvez estejam agora todos juntos num céu de estrelas.

Chegaram mensagens de jogadores do passado e do presente. Tantos. Franz Beckenbauer, Peter Schmeichel, Xabi Alonso, Michael Essien, gente de tempos diferentes com o respeito em comum. De Portugal, uniram-se velhos companheiros de muitas batalhas com as grandes referências do desporto nacional, um sem fim de homenagens.

De Inglaterra, com amor 

Houve muitas reações institucionais, decretaram-se três dias de luto nacional, mensagens de pesar dos grandes clubes nacionais. E de muitos clubes estrangeiros. Com ligações especiais. De Inglaterra, para começar, onde Eusébio escreveu algumas das mais bonitas páginas da sua história, em modo super-herói até à meia-final do Mundial 66 - foi o melhor marcador, com nove golos, o máximo de um jogador português até hoje em Campeonatos do Mundo. O Everton, por exemplo, fez questão de recordar a ligação de Eusébio a Goodison Park, palco do Brasil-Portugal e do Portugal-Coreia do Norte em 1966.

Jogava-se naquele fim de semana a Taça de Inglaterra e Eusébio foi recordado em vários estádios. No Liverpool-Oldham, no Derby County-Chelsea, onde os ex-benfiquistas David Luiz e Ramires entraram em campo de fumos negros, ou no Manchester United-Chelsea, com bandeira a meia-haste em Old Trafford e um minuto de aplauso.

O Manchester United fez mais e falou com Alex Stepney, o guarda-redes da final da Taça dos Campeões Europeus de 1968, que recordou um momento lendário de desportivismo de Eusébio. Após uma defesa de Stepney nos minutos finais do jogo, que os «Red Devils» venceram por 4-1, Eusébio aplaudiu o rival. Essa memória, recuperada no dia da morte de Eusébio, está aqui.

Dortmund, a última aparição e a dignidade

Também o Borussia Dortmund lembrou Eusébio naquele dia. Uma memória especial, daquela que foi a última homenagem internacional ao Pantera Negra. No início de dezembro de 2013, ele tinha estado em Dortmund, numa cerimónia organizada pelo museu do clube alemão a assinalar os 50 anos de uma vitória histórica sobre o Benfica, 5-0 na Taça dos Campeões. «Ganhei muita coisa no Benfica, fui duas vezes campeão da Europa, mas também foi com o Benfica que aprendi a perder com dignidade», disse então Eusébio para a plateia alemã.

O Real Madrid e o Barcelona fizeram-se representar nas cerimónias fúnebres de Eusébio. Emílio Butragueño viajou em representação do clube merengue, o rival que o Benfica venceu na final da Taça dos Campeões de 1962, com bis do King. Eusébio, na verdade, recordava outra vitória sobre o Real Madrid como um dos melhores jogos da sua carreira: o triunfo por 5-1 em 1964/65, no ano em que se tornaria o primeiro português a vencer a Bola de Ouro, o único até hoje a conquistar o troféu jogando na Liga.

A homenagem do Bernabéu

«Eusébio teve sempre uma relação especial com o Real Madrid», disse Butragueño em Lisboa. Em Madrid, no dia seguinte, essa relação ficou bem expressa na homenagem do Bernabéu, com imagens de Eusébio no ecrã gigante e o estádio às escuras, ao som de «Amor a Portugal», de Dulce Pontes. Durante o minuto de silêncio, as câmaras focaram-se num emocionado Cristiano Ronaldo, mas também em Pepe. Ronaldo bisou frente ao Celta e no fim deixou uma dedicatória: «Dedico-te estes dois golos, Eusébio, mas na verdade foste tu que os marcaste. Ficarás para sempre no meu coração.»

Milhares nas ruas de Lisboa

José Mourinho, então treinador do Chelsea, foi um de muitos a associar-se às homenagens a Eusébio. E a explicar o que ele significava. «Nos próximos dias vão ver o que representa Eusébio para Portugal», disse.

Estiveram milhares de pessoas na rua ao longo dos dois dias das cerimónias fúnebres de Eusébio. Primeiro no Estádio da Luz, logo a partir do final da tarde de domingo, onde o corpo de Eusébio esteve em câmara ardente. Adeptos anónimos em longas filas no exterior, também personalidades da política, do desporto, bem como as várias equipas do Benfica. Depois, no interior do Estádio da Luz, onde se cumpriu aquele que era um pedido de Eusébio: dar uma última volta ao estádio. Nas bancadas, cerca de 15 mil pessoas associaram-se a esse momento, o caixão no centro do relvado e o hino cantado em coro.

Memórias, da guerra de África às lágrimas de Hilário

Estiveram milhares nas ruas, ao longo da cidade, a acompanhar o cortejo fúnebre. Até à Praça do Município, primeiro. Onde se juntaram muitos, para dizer Obrigado. E contar coisas como esta. «Sabe, eu vi Eusébio jogar algumas vezes, mas antes de o ver, ouvi-o. Estive na guerra de África e ele ajudou-me a passar o tempo que lá estive», contava um homem na reportagem do Maisfutebol naquele dia: «Nos dias de jogos, quando tentava adormecer, pensava nas jogadas, nas conversas que tínhamos tido entre camaradas sobre o jogo. Ficava a sonhar acordado com aquilo e, nem que fosse por um bocadinho, esquecia onde estava.»

Depois, o cortejo seguiu para a igreja e daí para o cemitério do Lumiar. Era um dia de chuva, pesado. Mas nem isso afastou as pessoas. Tantas. Da dor de Hilário, amigo de sempre, às manifestações de respeito de milhares, sob muitas formas, numa última despedida que teve lágrimas, tochas e cânticos, antes de Eusébio descer à terra ao som do hino nacional. Mil formas de chorar o adeus ao Rei, como contava esta reportagem do Maisfutebol.

Onze Eusébios no Clássico e uma última homenagem em Zurique

Quis o destino que o jogo seguinte do Benfica fosse um clássico. O jogo que ainda hoje tem Eusébio como maior goleador de sempre. No domingo, uma semana depois da morte de Eusébio, o encontro com o FC Porto foi antecedido de mais uma homenagem simbólica nas bancadas da Luz.

Depois, entraram em campo onze Eusébios – todos os jogadores do Benfica tinham o nome dele na camisola naquele jogo que venceram por 2-0. No dia seguinte, ainda mais uma homenagem. Em Zurique, a gala da Bola de Ouro, que nessa altura integrava também a FIFA e que haveria de coroar Cristiano Ronaldo, reservou espaço para uma homenagem a Eusébio, com um vídeo a evocar o Mundial 66.

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