Confidências do barbeiro de Eusébio: «Íamos os dois para a Cave Mundial»

5 jan, 10:53
João Besteiro

João Besteiro foi amigo, confidente e confessore do Rei: o Maisfutebol submeteu-se à navalha e tesoura dos mestre e ouviu muitas histórias de outros tempos

Há dez anos o mundo chorou a morte de Eusébio e o Maisfutebol foi para a rua testemunhar a dor dos portugueses. Esta reportagem que agora publicamos foi realizada mais tarde, já em 2019, e é recuperada neste dia, em que se cumprem dez anos sobre a partida do Rei, como testemunho do que foi aquele Eusébio.

João Besteiro, mais conhecido por João Barbeiro, senhor distinto e muito bem apresentado, trabalhava numa barbearia no Marquês de Pombal. Depois esteve na Duque de Loulé, passou pelo Amoreiras Shopping e está há mais de vinte anos no Hotel Ritz.

Tem 85 anos e diz que não quer deixar de cortar cabelos, porque se parar enferruja.

Emociona-se ao recordar que soube da morte do Eusébio pelos jornais, é sócio do Sporting e sempre teve clientes ligados ao Benfica. Corta cabelos desde 1960, há 59 anos.

«O Eusébio desembarcou em 1961, às 9 horas da manhã, no Aeroporto de Lisboa e foi recebido pelo Dr. Jaime Catarino Duarte, filho do presidente da altura, António Catarino Duarte. Eu trabalhava numa barbearia no Marquês de Pombal, que ficava no primeiro andar de um prédio, e o Eusébio saiu do aeroporto e foi para a barbearia para cortar o cabelo. Ele trazia uma carapinha quase afro e o Dr. Jaime quis que ele cortasse o cabelo», conta ao Maisfutebol, bom conversador.

João Besteiro no salão de cabeleireiro do Hotel Ritz

«Depois da barbearia, foi comprar roupa. Tinha saído de Moçambique com 40 graus, aqui estavam sete e ele vinha com roupa de verão. Então foi à Pestana & Brito, na Avenida da Liberdade, comprar um sobretudo e roupas quentes. Ficou meu cliente para sempre. Desde que chegou até que partiu, foi sempre meu cliente e amigo.»

A amizade nasceu, a ligação profissional cresceu, e tudo começou com a beleza das coisas simples. As melhores, no fundo. «O Jaiminho era meu cliente na barbearia e passou por lá no dia anterior. ‘Ó João, amanhã vou ao aeroporto às 9 horas, depois passo por aqui, cortas-me o cabelo?’ Disse que sim, que podia vir à vontade. Então ele apareceu-me lá com o Eusébio. ‘É para cortares o cabelo a este rapaz, que vai jogar para o Benfica’.»

O rapaz era Eusébio, está bom de ver. «Perguntei-lhe como queria, ele respondeu que queria baixar um pouco e perguntou-me se já alguma vez tinha cortado o cabelo a um negro. ‘Já, com certeza. Olhe, cortei ao Coluna, que é meu cliente’. E ele, muito acanhadito, porque foi toda a vida meio acanhadito: ‘Ah, o Coluna corta contigo? Está bem, está bem’.»

O senhor João já era falador na altura. E meteu-se com o Pantera Negra que ainda não era Pantera Negra. «O Eusébio que me apareceu nesse dia no cabeleireiro era uma pessoa muito calada, muito introvertida. Eu tentei meter-me com ele, disse-lhe que devia ir para o Sporting porque eu também era do Sporting, mas o Jaiminho interrompeu-me logo. ‘Isso é outra conversa, deixa lá essas conversas agora’. Passados 24 horas li no jornal a bronca que houve, porque ele era para vir para o Sporting, o Benfica antecipou-se, foi buscá-lo ao aeroporto e levou-o para o Algarve oito dias.»

Eusébio era visita semanal no estabelecimento do João Barbeiro

«O Eusébio começou a ter arranjinhos e eu era o confidente dele»

Apesar de sportinguista, João Barbeiro ficou feliz por ver o King que ainda não era King a rumar à Luz. Ele lá sabe.

«Se tivesse ido para o meu Sporting tinha-se estragado no caminho. Tudo que cai naquele clube acaba por se estragar.»

Entretanto, João e Eusébio tornaram-se amigos íntimos. «Passado dez dias dessa primeira vez que cortou o cabelo comigo, voltou lá ao cabeleireiro. Dizia que tinha ficado grande de mais e que queria aquilo mais curtinho, porque aqui tomava banho todos os dias, muitas vezes duas vezes por dia, e aquilo fazia-lhe confusão. Então cortei baixinho, como ele usou toda a vida.»

A empatia entre cabeleireiro e pretendente a goleador evoluiu do salão para a noite lisboeta. Mais concretamente para a Cave Mundial.

«Era uma boîte muito chique no Cinema Mundial, para pessoas respeitáveis. Aquela casa tornou-se a casa dele à noite em Lisboa. E eu ia com ele. Ele tinha um Ford Mustang, que deixava numa garagem quando ia jogar para o estrangeiro. Desconfiava que faziam muitos quilómetros com o carro quando estava fora. O Eusébio tinha a cabeça muito arrumada e antes de ir para o estrangeiro tirava o número de quilómetros que o carro tinha», recorda o senhor João, aprumado na indumentária e na linguagem.

João Besteiro, senhor distinto e de apresentação imaculada

«Quando chegava percebia que tinham andado 100 quilómetros ou 80 quilómetros com o carro. Então veio falar comigo. ‘João, tu vais ficar com o meu carro. Vais tirar o teu da garagem e metes lá o meu. Se quiseres podes ir dar uma voltinha, mas não vás muito longe, porque aquilo gasta muito. Dás uma voltinha e, quando chegares, guarda-o outra vez na garagem’. E assim foi, a partir daí guardava o carro dele.»

Lisboa já era uma cidade de tentações. Principalmente para um rapaz que começava a aparecer nas primeiras páginas dos jornais, como conta João Besteiro.

«Ele começou a ter uns arranjinhos e eu era o confidente dele. Eu é que fazia a comunicação com elas. Elas escreviam uma carta, passavam no cabeleireiro e davam-mas para as entregar ao Eusébio. Ligava para o Estádio da Luz. ‘Digam ao sr. Ferreira que o João Barbeiro quer falar com ele’. O Eusébio passava lá, lia a carta, escrevia a resposta e eu ia levar onde elas estavam. Houve uma que durou muitos anos e que vivia ali no Príncipe Real. Eu ia lá, tocava à porta do porteiro, abriam-me a porta, metia a carta na caixa do correio e vinha-me embora.»

Um amigo para todas as ocasiões, portanto.

Mas João, por coincidência, também conheceu José Maria Pedroto. «A minha esposa trabalhava com uma namorada dele, na zona do Martim Moniz. Cumprimentávamo-nos e mais tarde, quando ele veio treinar o Vitória de Setúbal, passou também a ser cliente. Lembro-me de ouvir o senhor Pedroto a pedir-me para lhe pintar o cabelo, quando lhe apareceram as primeiras brancas.»

«Na véspera da morte, o Eusébio veio aqui fazer a barba»

Nos salões de João Barbeiro, Eusébio encontrava um porto seguro. Um porto de amizade. Até ao fim.

«O Eusébio fazia todas as sextas-feiras a barba. Sempre, sempre, sempre. E de vez em quando dava um toque no cabelo. Tanto assim é que na véspera do dia em que morreu veio aqui fazer a barba. Até lhe tirei uma foto. Mas ele já estava muito doente. Até lhe disse para ir para casa e voltar noutro dia, mas ele quis fazer a barba», diz, emocionado, o senhor João.

«Estava lá no cabeleireiro uma senhora com uma miúda, que andava de um lado para o outro e era filha do cônsul dos Emirados Árabes Unidos. A senhora pediu ao Eusébio para tirar uma fotografia, mas ele respondeu que não, que naquele dia não estava bem e não queria fotografias. E eu perguntei ao Eusébio: ‘Ó Ferreira, sabes quem é a miúda? É filha do cônsul dos Emirados Árabes Unidos. Ele respondeu: Ai é, João? Não me digas’. Então chamei a moça e o Eusébio tirou a foto, deu-lhe um beijinho e disse-lhe para dar um abraço ao pai, que era muito amigo dele.»

Nesse dia, prossegue João Besteiro, a antiga glória do Benfica cortou a barba e pediu para se sentar um bocadinho. «Disse que precisava de descansar. Eu perguntei-lhe: ‘O Morais onde está?’ O Morais era o motorista dele. ‘Não está cá, foi para o Algarve’. E eu disse-lhe que viesse então comigo que eu levava-o a casa. ‘Não é preciso, João, eu já apanho um táxi, deixa-me só descansar um bocadinho’. Pronto, foi a última vez que o vi. Passado dois dias fui para a Costa da Caparica, que tenho lá uma casa, fui passear na praia e quando me sentei a ler os jornais dou com a notícia da morte dele.»

«O Zé Augusto não podia vê-lo beber logo de manhã»

Os últimos dias de Eusébio mexem com João Besteiro. Comovem-no. A conversa não podia acabar nesse tom, por isso seguimos para outros ritmos: a rabeta, de Moçambique.

«O Eusébio adorava dançar as rabetas, eu também adorava dançar, então íamos para a Cave Mundial e dançávamos os dois, cada um de seu lado. Nessa altura ele arranjou um arranjinho com uma mulher que estava em Madrid e que vinha cá de vez em quando. Então eu ia ter com ela, entrávamos os dois na boîte e depois lá dentro dançava com o Eusébio.»

E tudo acaba com outra memória. As fugas malandras de Eusébio para um copinho ou outro a mais. «Nos tempos do Zé Augusto treinador, o plantel do Benfica tinha folga à segunda-feira e muitos jogadores aproveitavam para ir ao cabeleireiro arranjar o cabelo», relata João Besteiro.

«O próprio Zé Augusto também ia. Então o Eusébio chegava: ‘Ó João, o Zé Augusto já veio hoje?’ Eu respondia: ‘Não te preocupes, só vem à tarde’. E ele: ‘Ah, está bem. Então arranja-me aí um gin tónico’. Gostava muito de gin tónico. Mas o Zé Augusto não podia vê-lo beber logo de manhã, não lhe perdoava.»

Um barbeiro, dois barbeiros. As melhores histórias dos confidentes de José Maria Pedroto e Eusébio da Silva Ferreira, na véspera de mais um Clássico entre FC Porto e Benfica.

(Artigo originalmente publicado às 23:55 de 28-02-2019)

Relacionados

Benfica

Mais Benfica

Patrocinados