De Craiova para Tânger a pensar em Portugal

20 fev 2020, 09:38
Carlos Fortes

Carlos Fortes foi protagonista de uma transferência insólita no último mercado de inverno. Depois de há um ano ter sido sensação no campeonato romeno, agora, em janeiro, foi emprestado aos marroquinos do Ittihad de Tânger. Mais uma aventura de um avançado que também já jogou em Espanha e na Turquia e que está desejoso de voltar a casa

Estórias Made In é uma rubrica do Maisfutebol que aborda o percurso de jogadores e treinadores portugueses no estrangeiro. Há um português a jogar em cada canto do mundo. Este é o espaço em que relatamos as suas vivências. Sugestões e/ou opiniões: djmarques@mediacapital.pt ou rgouveia@mediacapital.pt

Carlos Fortes foi protagonista de umas das transferências mais insólitas no último mercado de inverno ao ser cedido por um clube romeno a um clube marroquino. Há um ano entrou em grande no campeonato da Roménia, com a camisola do Gaz Metan. Marcou três golos nas três primeiras jornadas e, em dezembro, foi contratado pelo Universitatea Craiova.

Uma ascensão meteórica, passando a representar um candidato ao título, mas, com a mudança de treinador, perdeu espaço e deixou de jogar. A vontade de voltar a pisar a relva levou-a a aceitar agora uma proposta inusitada e, em janeiro, foi emprestado aos marroquinos do Ittihad Tânger.

Uma transferência pouco vulgar de um jogador europeu para um clube africano, mas é apenas mais um passo na carreira de altos e baixos do jovem avançado que aos 19 anos chegou ao Sp. Braga como um novo Bebé e que, aos 25 anos, além de Portugal, já jogou em países como Espanha, Turquia, Roménia e, agora, Marrocos.

A história de um avançado saltimbanco que, ainda júnior, rumou à Madeira, para representar o Nacional, e, nas suas palavras, nunca mais voltou a casa.

Já jogaste em Portugal, Espanha, Turquia, Roménia e agora Marrocos. Como está a correr esta nova experiência?

- Já fiz três jogos aqui em Marrocos, no último não joguei, estava tocado no joelho, mas tem corrido tudo bem. O clube recebeu-me muito bem, o pessoal tem feito tudo para me sentir integrado.

Como é que surgiu esta oportunidade? Não é normal um jogador europeu ser emprestado a um clube africano…

- A verdade é que eu queria sair. Não estava a jogar na Roménia e queria sair. A oportunidade apareceu através de um intermediário amigo do meu empresário. Ele já achava que eu era um jogador ideal para o campeonato marroquino e as coisas aconteceram. É um empréstimo de seis meses, vamos ver como as coisas correm. É um mercado que a nível financeiro está ao mesmo nível da Roménia, mas que me pode abrir outras portas.

Chegaste há pouco mais de um mês a Tânger, quais as primeiras sensações? Muitas diferenças em relação a Craiova?

 - Não, Tânger é praticamente uma cidade europeia, eu, de barco, em 35 minutos estou em Espanha. A nível cultural é um pouco diferente, mas a cidade em si é muito ocidental.

Até já foi uma cidade portuguesa no século XV, já deu para passear e conhecer um pouco?

 - Não sou muito de sair, fico muito por casa, mas já conheço a cidade minimamente, já me desenrasco por aqui. Pareceu-me uma cidade bonita. Mas, normalmente, vou treinar de manhã e volto para casa, fico a ver séries e falo com a família por Skype.

Estás bem instalado? O clube tem boas condições?

- Sim, são normais. Não se pode comparar ao Craiova, isso não tem comparação. O Craiova ao nível de estrutura está ao nível de um clube de topo, mas o Ittihad dá-nos boas condições.

O Ittihad tem um estádio grande, 45 mil lugares, como é o ambiente nos jogos?

- O estádio está sempre bem composto em todos os jogos. Os adeptos aqui são muito fervorosos. Não se compara com Portugal em que, tirando os «grandes», é raro ver um estádio tão bem composto. Aqui eles vêm o futebol de outra forma.

Às vezes um pouco fervorosos demais. A última jornada ficou marcada por incidentes graves entre adeptos do Raja Casablanca e o FAR.

- Aqui é muito habitual haver problemas entre os adeptos. Durante os jogos, às vezes ainda no aquecimento, passo o olho pelas bancadas e há sempre confusão entre eles, é impressionante.

Não é muito habitual os clubes africanos terem jogadores europeus. Como é que foste recebido?

- Ao início havia uma certa desconfiança, olhavam para mim de uma forma diferente, mas agora já começo a sentir-me integrado. Ainda me sinto um pouco deslocado, mas também é normal, eles falam árabe entre eles. Acho que o árabe é impossível de aprender [risos], mas neste momento dou-me bem com toda a gente, não tenho qualquer tipo de queixas nesse sentido.

A nível de balneário, é muito diferente da Europa?

- Em relação a Portugal, é muito diferente, mas em relação à Roménia não. Em Portugal temos uma cultura de balneário diferente dos outros clubes europeus. Senti uma grande diferença quando saí do Vizela para o Gaz Metan na Roménia. Nessa altura senti a diferença. Em Portugal sentia prazer em estar no balneário, conversávamos, havia bom ambiente, mas na Roménia, e aqui também, isso não existe. Não se sente aquela amizade, não é uma família como se diz no futebol. Em Portugal íamos para os treinos com a roupa normal e equipávamo-nos no balneário. Aqui eles vêm logo equipados de casa, saem do treino equipados e vão tomar banho a casa.

Chegaste, começaste logo a jogar e, logo na estreia, falhaste um penálti…

- Pois foi, não tenho estado em maré de sorte, ainda por cima, perdemos por 2-1 e no final do jogo o nosso treinador [Hicham Dmii] demitiu-se. É curioso, na Roménia aconteceu-me o mesmo quando cheguei ao Craiova. O treinador que me contratou [Victor Piturca] acabou por sair quando eu comecei a jogar.

Já fizeste três jogos, dois em casa e outro em Agadir. Ainda não deu para conhecer bem o campeonato marroquino

- Ainda não, mas pelo que tenho visto, as equipas têm um nível muito semelhante. Antes de ser inscrito assisti a dois jogos, Tétouan-Tanger, que é uma espécie de dérbi local, e outro com o Raja Casablanca, que é um dos grandes do campeonato. Esse jogo com o Raja foi o único até agora em que posso dizer que não tivemos hipóteses, de resto, as outras equipas que vi têm um nível semelhante.

Objetivos até ao final da época?

- Quero ajudar a equipa a conseguir a manutenção, quero fazer golos, um avançado precisa de fazer golos. Pelo que vi até agora, penso que temos equipa mais do que suficiente para conseguir isso. Não estávamos a conseguir ganhar, mas neste último jogo já ganhámos [2-1 ao FUS Rabat] e espero que a partir de agora as coisas sejam totalmente diferentes.

A volta ao mundo com paragens em Sacavém, Funchal, Santander, Braga, Sanliurfa, Vizela, Medias, Craiova e Tânger

Voltando ao início da tua carreira. Nasceste em Lisboa em 1994 e começaste cedo na formação no Sacavenense

- Comecei com dez anos no Sacavenense, estive lá três anos e depois saí para o Alta de Lisboa. Guardo amigos no Sacavenense até hoje, adorei o tempo que lá passei. Mesmo sendo criança recordo todos os momentos. É um clube que até hoje sigo e acompanho, é um clube que me marcou a nível pessoal.

Depois vais para a Madeira ainda como júnior para jogar no Nacional.

- Tinha feito uma excelente época na Pontinha (CAC), marquei alguns 24 golos. Na altura já estava a treinar no Belenenses há uma semana, recebi muitas chamadas e convites, também do Real Massamá, mas preferi sair da minha zona de conforto e tentar a minha sorte na Madeira.

Foi a primeira grande mudança na tua vida? Ficaste longe da família, dos amigos…

- A partir daí nunca mais voltei a casa dos meus pais, entre aspas. Foi aí que comecei a pensar ser profissional, deu-me aquele clique. Vai ter de ser o futebol. Foi o ano em que também deixei a escola por esse motivo, queria pensar mais no futebol. Graças a Deus consegui. Não fiquei no Nacional porque no ano anterior o clube tinha assinado com oito juniores e, no meu ano, ninguém assinou.

Segue-se a primeira experiência no estrangeiro, no Racing Santander. Foi apenas uma época, mas deixou marcas, não?

- É outros dos clubes que acompanho. Gostei muito de lá estar. Embora tivesse num período muito difícil a nível financeiro, fui muito bem-recebido, os adeptos trataram-me de forma espetacular. Foi uma época que ficou marcada pelo jogo dos quartos de final da Taça do Rei [frente à Real Sociedad] em que os jogadores recusaram-se a jogar por salários em atraso.

É nesta altura em que também és chamado à Seleção Nacional Sub20, para o Torneio de Toulon…

- Fui chamado pelo adjunto do mister Fernando Santos [Ilídio Vale]. Era um grande grupo com Bruno Varela, Rúben Vezo, Bruno Fernandes, João Cancelo, Iuri Medeiros, Rúben Semedo… Muitos grandes jogadores.

O Bruno Fernandes já vai no Manchester United, já se percebia que era craque?

- Na altura já se notava que ele tinha um toque diferente. Obviamente que não tinha o mediatismo que tem hoje, mas nos treinos já se via que era um jogador diferente, com uma classe diferente, com um bom toque de bola, remate fácil.

Depois de Toulon, surge o Sp. Braga

- Fui no pacote do Fábio Martins. Foi o meu empresário que tratou da transferência do Fábio Martins [na altura no Desp. Aves, agora no Famalicão] e também acabei por assinar, para ir para a equipa B.

Acabaste por apanhar o Abel Ferreira, na equipa B, e o Paulo Fonseca, na equipa principal

- Quando cheguei ainda estava o mister Fernando Pereira que tinha ido com o Sérgio Conceição. O Abel Ferreira chegou na parte final, mas depois fiz uma época inteira com ele.

Mas o Paulo Fonseca também estava de olho em ti

- Sim, treinava bastante com eles e cheguei a estrear-me na I Liga, num jogo com o Belenenses. Treinava regularmente com eles e já tinha sido chamado para meia-final da Taça de Portugal frente ao Rio Ave. Nessa noite não consegui dormir, já tinha a noção que ia ficar de fora, mas estava tão nervoso que não dormi.

Mas acabaste por depois jogar na Liga…

- Sim, nesse tal jogo com o Belenenses, mas aí já ia bem preparado. O mister Paulo Fonseca é extraordinário, tratava os jogadores de uma forma tão especial que nem consigo descrever. Antes desse jogo com o Belenenses, fez um treino todo concentrado em mim. Só me dava indicações a mim, dizia-me como queria que eu me posicionasse. Mostrou-me vídeos do Rui Fonte, do Stojilkovic e do Hassan, para eu ver como é que eles se movimentavam. Queria que eu fizesse o mesmo.

Mas na época seguinte foste emprestado ao Sanliurfaspor, da II Divisão da Turquia.

- Para esquecer. Correu tudo muito mal. Nem digo a nível desportivo, até acabei por jogar com regularidade, mas tudo o resto à volta foi horrível. Até hoje se me falarem da Turquia, tinha de pensar muito bem para poder voltar para lá.

Mas o que é que foi assim tão horrível?

- Era uma desorganização total a todos os níveis. Por exemplo, tinha contrato, mas nunca me trataram dos papéis de residente. Quando vinha a Portugal, quando regressava estava banido de entrar no país. Foram muitas situações que ocorreram em poucos meses.

Acabas por voltar a Portugal, para jogar no Vizela

- Acabámos por descer ao Campeonato de Portugal. Quando as coisas me estavam a sair bem, acabei por lesionar-me. Foi uma época difícil, mas o Vizela também foi um clube que me recebeu muito bem. Foram todos corretíssimos comigo e a nível de balneário, até hoje, foi o melhor que tive.

Na época seguinte, a terceira experiência no estrangeiro. Vais para a Roménia para o Gaz Metan. Pode-se dizer que entras a todo o gás. Três golos nas três primeiras jornadas?

- Fiz esses três primeiros jogos e o Craiova queria contratar-me logo em agosto. Mas tinha acabado de chegar, o Gaz Metan tinha feito um investimento e não me ia libertar na altura. Não foi em agosto, mas em janeiro as coisas acabaram-se por concretizar-se. Tinha várias propostas em cima da mesa. Falou-se num clube da Série B italiana, tinha uma proposta para ir para o Dubai que a nível financeiro também era muito vantajosa. Também estive quase a assinar pelo Steaua Bucareste, mas eles só me queriam por empréstimo e acabei por assinar pelo Universitatea Craiova.

Foi um grande salto na carreira? Estavas num clube que lutava para não descer, passaste para outro que lutava pelo título

- Foi um grande salto a todos os níveis, mas atenção, o Gaz Metan em termos de estrutura tinha grandes condições para os jogadores. Tinha um hotel só para os jogadores, com jacúzi, sauna, ginásio. No estádio, o relvado era provavelmente o melhor do campeonato. Mas o Craiova já é outro nível. Tem um grande estádio, parece o Estádio do Dragão e as condições do centro de estágio são de ouro nível.

Estavam já lá dois portugueses, o Tiago Ferreira e o Nuno Rocha. Isso facilitou a tua integração?

- O Tiago ainda lá está, o Nuno nesta altura está sem equipa, mas ajudaram-me bastante.

Já esta época, começaste bem, marcaste na Liga Europa e no campeonato, mas em outubro deixaste de jogar. O que aconteceu?

- Comecei bem, mas as coisas voltaram a ser o que já tinham sido na época anterior. Mudou o treinador, deixei de ser opção. No início da época estive com um pé em Israel, quase que assinei pelo Ashdod. Cheguei a lá ir, mas acabei por não assinar. Eles queriam um contrato de um ano e mais dois de opção, mas tinha ainda um contrato de três anos com o Craiova e não fazia sentido. Se as coisas corressem mal, ficava sem clube. Voltei à Roménia, o novo treinador disse-me que contava comigo, mas depois raramente joguei. Fiz um jogo, joguei os 90 minutos, marquei um golo, mas a partir daí não joguei mais. Queria sair.

Tens ainda mais dois anos de contrato com o Craiova

- Tenho mais dois anos, mas sinceramente já começo a ficar cansado de estar no estrangeiro. A nível financeiro é mais vantajoso, mas sinto falta do nosso campeonato, da nossa língua, da nossa cultura. Vou acabar esta época em Marrocos, mas depois estou muito inclinado em voltar a Portugal no próximo ano.

Uma inclinação reforçada pela ausência da companheira e dos dois filhos

Agora estou sozinho, mas sempre que posso tento ir a Portugal, até porque os voos não são tão longos. Só é chato por causa da escala [em Madrid], mas assim que posso vou sempre.

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