Como os antioxidantes encontrados em muitos legumes, fruta, chá e vinho podem atrasar a perda de memória

CNN , Sandee LaMotte
3 dez 2022, 12:00
Legumes cozinhar gastronomia  chef

Novo estudo mostra um declínio cognitivo mais lento com flavonoides. Saiba quais os alimentos recomendados

Comer mais flavonoides, os antioxidantes encontrados em muitos legumes, fruta, chá e vinho, pode diminuir o ritmo de perda de memória, afirma um novo estudo.

A pontuação cognitiva das pessoas do estudo que comeram mais flavonoides diminuiu 0,4 pontos por década mais devagar do que a pontuação das pessoas que comeram menos flavonoides. Os resultados mantiveram-se mesmo após serem acrescentados outros fatores que podem afetar a memória, como a idade, o género e o tabagismo, segundo o estudo publicado recentemente na “Neurology”, a revista médica da Academia Americana de Neurologia.

“É emocionante que o nosso estudo mostre que fazer opções alimentares específicas pode levar a um ritmo mais lento de declínio cognitivo”, disse em comunicado o autor do estudo, o Dr. Thomas Holland, professor no departamento de Medicina Interna da Faculdade de Medicina da Universidade Rush, em Chicago.

“Algo tão simples como comer mais fruta e legumes e beber mais chá é uma maneira fácil de as pessoas assumirem um papel ativo na manutenção da saúde do seu próprio cérebro.”

Os flavonoides são citoprotetores, o que significa que protegem as células, incluindo os neurónios, por isso é plausível que haja um impacto direto na cognição, disse o Dr. David Katz, especialista em medicina preventiva, de estilo de vida e nutrição, que não participou do estudo.

 

As cebolas contêm os níveis mais altos de quercetina, um dos flavonoides mais comuns.

 

“Mas também são um indicador de uma maior ingestão de fruta e legumes - o que é bom para o cérebro porque é bom para todos os órgãos vitais e para o organismo como um todo”, afirmou Katz, por e-mail.

“Também podem ser um indicador de melhor qualidade geral da dieta ou de uma ainda maior consciência em relação à saúde. As pessoas mais preocupadas com a saúde podem fazer coisas para preservar a sua cognição, ou talvez o facto de serem mais conscientes em relação à saúde seja um subproduto de uma melhor cognição.”

Uma enorme família de fitoquímicos

As plantas contêm mais de 5000 compostos flavonoides, que desempenham vários papéis no crescimento celular, combatendo o stresse ambiental e atraindo os insetos para a polinização.

Os flavonóis, um tipo de flavonoide, demonstraram, em ensaios com animais e também com alguns humanos, reduzir as inflamações, um importante gatilho para doenças crónicas, além de serem uma fonte muito rica de antioxidantes. Os antioxidantes combatem os radicais livres, as “moléculas altamente instáveis ​​que são formadas naturalmente quando fazemos exercício físico e quando o corpo converte os alimentos em energia”, segundo o Centro Nacional de Saúde Complementar e Integrativa, pertencente aos Institutos Nacionais de Saúde.

Um dos flavonóis mais comuns, a quercetina, mostrou resultados promissores na redução do aparecimento de cancro colorretal e de outros tipos de cancro, de acordo com os estudos. As cebolas contêm os níveis mais altos de quercetina. Níveis mais baixos podem ser encontrados nos brócolos, nos mirtilos, na couve-flor, no repolho, no alho-francês, nos espinafres e nos morangos.

Outro flavonol comum, o kaempferol, parece inibir o crescimento das células cancerígenas, conservando e protegendo as células normais. Boas fontes de kaempferol são as cebolas, os espargos e os frutos vermelhos, embora os legumes mais ricos sejam o espinafre, a couve e outros legumes de folhas verdes, bem como algumas ervas como o cebolinho, o endro e o estragão.

Um terceiro interveniente importante é a miricetina, que foi estudada em roedores para o controlo do açúcar no sangue e a redução da tau, uma proteína que causa os emaranhados característicos da doença de Alzheimer e de outras demências. Os espinafres e os morangos contêm altos níveis de miricetina, mas o mel, a groselha negra, as uvas e outras frutas, bagas, legumes, frutos secos e chás, também são boas fontes.

O último grupo de flavonóis, a isoramnetina, pode proteger contra doenças cardiovasculares e neurovasculares, além de ter benefícios contra tumores e propriedades anti-inflamatórias. Boas fontes de isoramnetina são as peras, o azeite, o vinho e o molho de tomate.

Pode encontrar uma lista completa do conteúdo em flavonoides de várias frutas e legumes aqui [em inglês].

Uma população mais velha e livre da demência

O novo estudo pediu a 961 pessoas com uma média de idades de 81 anos e sem sinais de demência que preenchessem um questionário alimentar todos os anos, durante sete anos. Além disso, os participantes foram submetidos a testes cognitivos e de memória anuais e foram questionados sobre o tempo que passaram física e mentalmente ativos.

As pessoas foram divididas em grupos com base no consumo diário de flavonoides. A menor ingestão foi de cerca de 5 miligramas por dia; o valor mais alto de 15 miligramas por dia é o equivalente a cerca de uma chávena de folhas verdes escuras, observou o estudo. (Como termo de comparação, a ingestão média de flavonoides em adultos, nos EUA, é de cerca de 16 a 20 miligramas por dia, segundo o estudo.)

O estudo analisou o impacto dos quatro principais flavonóis - o kaempferol, a quercetina, a miricetina e a isoramnetina - na taxa de declínio cognitivo ao longo de sete anos.

O maior impacto foi com o kaempferol: as pessoas que ingeriram as maiores quantidades de alimentos com kaempferol apresentaram um ritmo de declínio cognitivo 0,4 pontos mais lento, por década, em comparação com aquelas que comeram menos, segundo o estudo.

A miricetina ficou logo a seguir: as pessoas que ingeriram mais alimentos com miricetina tiveram um ritmo de declínio cognitivo 0,3 pontos mais lento por década, em comparação com o grupo de menor consumo. As pessoas que comeram mais alimentos com quercetina mostraram um ritmo de declínio cognitivo 0,2 pontos mais lento, por década.

A isoramnetina na dieta não teve impacto, segundo o estudo.

O júri ainda está indeciso

Apesar dos aparentes aspetos positivos, os estudos sobre o impacto dos flavonoides na saúde humana foram inconclusivos - principalmente porque muitos são observacionais e não podem mostrar uma causa e efeito diretos. Isso também se aplica ao estudo na Neurologia, segundo os seus autores.

Alguns ensaios clínicos distribuídos aleatoriamente - o padrão científico de excelência - mostraram benefícios associados aos flavonoides para controlar o açúcar no sangue na diabetes tipo II e melhorar a saúde cardiovascular, segundo o Instituto Linus Pauling, onde se situa o Centro de Informação de Micronutrientes, uma base de dados online para informações nutricionais.

Não se sabe se estes benefícios serão a longo prazo, disse o Instituto, e nenhum impacto claro foi demonstrado na prevenção do cancro ou na proteção cognitiva.

“Existem outros bioativos que podem contribuir para os resultados observados”, disse Katz. “São necessários estudos suplementares para isolar completamente os efeitos dos flavonoides.”

Também há uma desvantagem em assumir um impacto na saúde sem os estudos necessários para apoiá-lo, disse o Dr. Christopher Gardner, professor investigador de Medicina e diretor do Grupo de Pesquisa em Estudos Nutricionais da Universidade de Stanford.

“Sabemos que os norte-americanos vão querer os benefícios das plantas, mas não as vão querer comer”, disse ele por email.

“(E) se as pessoas lessem o cabeçalho e saíssem a correr para comprar flavonoides engarrafados (extratos) em vez de comerem os legumes, poderiam descobrir que não eram apenas os flavonoides, mas o conjunto de tudo o que essas plantas contêm.”

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