Bom dia, trabalhar remotamente para o estrangeiro pode aumentar o seu salário em 60% - mas... (o "mas", há sempre um "mas")

ECO - Parceiro CNN Portugal , Joana Nabais Ferreira
6 mai, 09:00
Teletrabalho

Este "mas" tem que ver com o sector em que isto acontece

Um em cada cinco profissionais do sector tech já trabalha a partir de Portugal remotamente para uma empresa estrangeira e isso repercute-se — fortemente — no salário, que pode aumentar mais de 60% graças à ‘aldeia global’. O salário médio anual bruto continua a subir, fixando-se agora nos 46.334 euros, mas o gap salarial de género também: os homens ganham em média 35% mais do que as mulheres, revela o relatório anual da Landing.jobs, o “Global Tech Talent Trends Report”, a que o ECO Trabalho teve acesso.

“No final da pandemia de Covid-19, os salários registaram um aumento sem precedentes de 36,5% (relatório de 2022), principalmente devido a empresas estrangeiras que contrataram profissionais de tecnologia portugueses para trabalhar remotamente além-fronteiras, com salários muito mais altos do que as empresas locais”, lê-se no relatório que examina o estado atual da indústria tecnológica.

“Entre 2022 e 2023, com o advento de uma nova crise económica, as empresas corrigiram o rumo e voltaram a uma política salarial e de recrutamento mais cautelosa (algumas chegaram mesmo a fazer layoffs). A nossa convicção, com base nos dados e na experiência, é que os salários continuarão a aumentar, mas a um ritmo mais razoável, com as empresas a serem menos agressivas”, estima a empresa dirigida por José Paiva.

Mas existem diferenças significativas dentro do setor. Mais de 50.000 euros anuais separam o salário do profissional tech mais bem pago — que é o CTO — daquele que aufere o salário mais baixo (maintenance & support). Enquanto o primeiro recebe, em média, 80.843 euros brutos por ano, o segundo ganha 28.977 euros brutos anuais.

No que toca a igualdade salarial, fica evidente, uma vez mais, o fosso entre os géneros registado na indústria tecnológica. Os homens ganham, em média, mais 34,9% do que as mulheres, uma diferença que, desde o ano passado, agravou em 3,7 pontos percentuais (p.p).

“A diferença de remuneração entre homens e mulheres é maior nos cargos de gestão (47,4%) do que nos cargos de desenvolvimento (29,3%). Aparentemente, a pandemia (e o que se lhe seguiu) agravou seriamente a situação das mulheres profissionais da tecnologia. As causas são várias e precisam de ser seriamente discutidas para reverter esta situação”, alerta a Landing.jobs.

Já em matéria de benefícios, por sua vez, os relacionados com a saúde são os preferidos dos profissionais tech (21%), mas também o bónus anual é altamente valorizado (20,7%). Segue-se, embora com menos expressão (15,1%), a formação.

No sentido oposto, o subsídio de transporte e o budget destinado ao desporto e bem-estar são os benefícios menos valorizados (ambos com 3,6%) pelos profissionais. Destaque ainda para as stock options, onde se registou a maior queda de interesse por parte dos trabalhadores face ao ano passado: de 9,7% para 8,2%.

1 em cada 5 trabalha remotamente para empresa estrangeira

Longe de ser uma exceção, o setor tecnológico português sofreu importantes mudanças ao longo dos últimos dois anos. Com a adoção do trabalho remoto e dos modelos híbridos, as barreiras geográficas e culturais tendem a desaparecer, permitindo que o talento tecnológico trabalhe remotamente, não só para empresas portuguesas, mas também para empresas além-fronteiras.

“As empresas estrangeiras viram este facto como uma oportunidade e fizeram movimentos agressivos na contratação de talento tecnológico português para trabalhar remotamente a partir de Portugal. Se, no ano passado, a percentagem de profissionais portugueses a trabalhar remotamente além-fronteiras era impressionante (18,6%), este ano, essa sensação é exacerbada (22,6%)“, destaca a tecnológica.

As empresas estrangeiras viram este facto como uma oportunidade e fizeram movimentos agressivos na contratação de talento tecnológico português para trabalhar remotamente a partir de Portugal. Se, no ano passado, a percentagem de profissionais portugueses a trabalhar remotamente além-fronteiras era impressionante (18,6%), este ano, essa sensação é exacerbada (22,6%)", 'Global Tech Talent Trends Report', da Landing.jobs.

“Este fenómeno tem vindo a causar um enorme impacto, tanto na disponibilidade de talento local, como nos salários, algo que as empresas locais começam a perceber”, continua.

A diferença de salário médio praticado entre empresas localizadas noutro país e entre empresas locais é evidente: 60,8%, enquanto em 2022 era de 46,8%.

“Este é mais um sinal da globalização do trabalho tecnológico: as empresas de todo o mundo estão a gastar muito dinheiro para garantir os melhores talentos tecnológicos, onde quer que estejam. Empresas locais, avancem ou não terão ninguém para atrair.”

Mas parece que as empresas portuguesas ainda não abraçaram completamente a globalização do trabalho tecnológico. Apenas 10,6% da força de trabalho portuguesa é proveniente de outros países.

“A escassez de talento local irá aumentar, a menos que as empresas comecem a contratar seriamente e a deslocalizar profissionais de tecnologia do estrangeiro. A concorrência pelo talento é feroz e as estratégias de recrutamento têm de ser avaliadas de forma crítica — pode mesmo ser uma questão de vida ou de morte para algumas empresas.”

Já a tendência de que os profissionais que trabalham 100% presencial no escritório recebem menos do que aqueles que trabalham remotamente ou mediante modelo híbrido, já verificada no ano passado, manteve-se, embora o fosso que os separa tenha reduzido ligeiramente.

“A escassez de talento local irá aumentar, a menos que as empresas comecem a contratar seriamente e a deslocalizar profissionais de tecnologia do estrangeiro. A concorrência pelo talento é feroz e as estratégias de recrutamento têm de ser avaliadas de forma crítica — pode mesmo ser uma questão de vida ou de morte para algumas empresas", 'Global Tech Talent Trends Report', da Landing.jobs.

As conclusões apresentadas no relatório Landing.jobs resultaram de um inquérito a 2.474 profissionais de tecnologia residentes em Portugal. Este, por sua vez, faz parte um inquérito global a 7.485 profissionais de tecnologia que esteve aberto ao público entre dezembro de 2022 e março de 2023. O relatório na íntegra poderá ser consultado a partir de meados de maio.

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