Preço da energia vai disparar este ano para as empresas. Consumidores poderão ver preços finais subir

3 jan, 10:34
Indústria
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Há empresas que podem vir a pagar até quatro vezes mais pela eletricidade em 2022. O setor está preocupado e o consumidor final vai sofrer as consequências: com mais custos, os preços sobem. E o poder de compra desce

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Não são só os hospitais, que foram surpreendidos por aumentos em janeiro na factura de eletricidade. O problema é geral para muitas indústrias. Depois de já terem lidado com a subida dos preços das matérias-primas e dos combustíveis, as empresas vão virar a página do calendário e enfrentar o encarecimento da eletricidade e do gás em 2022, ao contrário de muitos consumidores domésticos, que estão protegidos contra estas subidas. Mas mesmo estes vão acabar por sofrer, à medida que as empresas subam os preços dos seus produtos para acomodar os custos. 

A situação “preocupa toda a economia”, afirma o presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), em declarações à CNN Portugal. De acordo com António Saraiva, todo o país vai sair afetado, mas o choque vai começar pelos grandes consumidores de energia, como a indústria.

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O representante de várias associações empresariais revela números preocupantes: nas indústrias cerâmica e têxtil: praticamente todas as empresas tiveram aumentos de 380% a 400%, testemunha. A exceção foram as empresas que conseguiram contratos antecipados, que agora vão terminando, atirando aquelas companhias para o mesmo problema.

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“Tenho uma empresa que estava a ter um custo de gás natural de 100 mil euros por mês e passou para 400 mil euros por mês”, refere António Saraiva.

Números pesados, que afetam também o setor da Metalurgia e Metalomecânica. De acordo com a Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal (AIMMAP), a fatura da energia representa entre 7,5% a 20% dos custos mensais das empresas.

Rafael Campos Pereira, vice-presidente daquela associação, revela que a situação pode piorar drasticamente em abril de 2022, altura em que muitos contratos de eletricidade vão terminar.

Em abril de 2021, a AIMMAP promoveu a compra de energia em grupo, juntando também algumas empresas dos setores da cerâmica e do têxtil, conseguindo um contrato de aquisição de energia a 55 euros o megawatt por hora. Na mesma altura, e no mercado livre da Península Ibérica, chegaram a negociar-se valores de 380 euros.

Esse acordo termina no primeiro trimestre de 2022, e ainda que a associação vá tentar nova compra conjunta, já sabe que o preço vai subir em flecha.

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“Os 55 euros são virtualmente impossíveis. O cenário mais otimista aponta para contratos entre os 100 e os 120 euros por megawatt por hora”, sublinha Rafael Campos Pereira.

A ter em conta está também a descida dos preços das tarifas de acesso, contabilizada em cerca de 30% a 40%. Mesmo assim, lembra o setor, estaremos a assistir a um cenário de aumentos entre os 60% a 70%. Isto é, as empresas que hoje pagam 55 euros por megawatt por hora vão passar a pagar, no mínimo, 88 euros.

“Há uma enorme imprevisibilidade e não sabemos qual será o custo este ano, mas estamos à espera que aumente substancialmente”, admite a AIMMAP.

De resto, e de acordo com alguns dos dados mais recentes do Mercado Ibérico de Eletricidade (Mibel), a última semana de 2021 abriu com 307 euros por megawatt por hora para contratos celebrados para todo o ano de 2022. Trata-se de um valor quase seis vezes acima do atualmente contratualizado pelas empresas da AIMMAP.

A CIP tem alertado os ministérios do Ambiente e da Energia desde setembro, mas reconhece que é difícil fazer mais, até porque se assistem a problemas semelhantes no setor do Estado, como é o caso dos hospitais, numa notícia avançada em exclusivo pela CNN Portugal, que dá conta de problemas semelhantes.

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“Como é que uma unidade empresarial consegue fazer face a este aumento de custos?”, questiona António Saraiva.

O setor do comércio e dos serviços não é tão afetado diretamente, mas o aumento da energia, aliado aos aumentos com encargos salariais e aos combustíveis e matérias-primas, pode ser mais um peso em cima das empresas, já que “a margem não permite absorver os aumentos”, afirma o presidente da Confederação de Comércio e Serviços de Portugal.

“As empresas estão preocupadas com o aumento do preço da energia, mas, acima de tudo, estão bastante preocupadas com a conjugação de todos os aumentos”, diz João Vieira Lopes.

Aqui, defende o responsável, o setor vai depender muito daquilo que for a evolução do consumo: “Se a quebra de consumo for pequena, as empresas conseguem absorver, mas se for grande inviabiliza empresas”.

Os números não desmentem a realidade. Ao longo do ano de 2021 houve uma grande volatilidade no preço da energia. De acordo com os dados do Operador do Mercado Ibérico de Eletricidade, aquele ano começou com um preço negociado de 42,51 euros por megawatt por hora. Acabou por ir flutuando, mas a 7 de outubro atingiu os 288,53 euros. Voltou a descer e a subir de forma inconstante, chegando ao pico de 383,67 euros a 23 de dezembro.

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Fechou 2021 com cerca de 127,81 euros, o que dá algo aproximado do triplo do valor com que o ano abriu. De resto, a tendência de subida manteve-se em 2022. O primeiro dia do ano fechou com um preço de 167,26 euros, praticamente quatro vezes acima em relação ao período homólogo.

De referir que, em relação ao gás natural, grande parte dos aumentos que se têm verificado estão relacionados com o conflito entre Rússia e Ucrânia, com o país presidido por Vladimir Putin a limitar o fornecimento daquele combustível à Europa.

O reflexo no preço final e na carteira dos portugueses

Se as empresas vão ser as primeiras a sofrer, quem olha do lado de lá não tem dúvidas: as consequências vão chegar aos consumidores.

António Saraiva diz que, a manterem-se os preços como estão, e concretizando-se o aumento esperado, “vai haver uma pressão inflacionista”, o que se vai notar nas carteiras dos portugueses, mais tarde ou mais cedo.

“Todas as indústrias vão ser afetadas, e logo, todos os consumidores”, vinca.

A AIMMAP concorda, mas diz que as empresas são “obrigadas a repercutir os aumentos nos preços” que vão para o mercado.

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Ainda assim, segundo Rafael Campos Pereira, é o facto de esta ser uma crise generalizada que está a ajudar a “mitigar as consequências”, até porque os concorrentes, mesmo os internacionais, também têm os mesmos problemas de competitividade.

Tudo funciona como uma pescadinha de rabo na boca, e os vários cenários colocados em cima da mesa estão longe de ser animadores, até porque existem dois lados que podem despoletar a crise. Preços mais altos levam a uma diminuição do consumo, que leva a uma diminuição da receita das empresas, que pode originar desemprego, e todo um ciclo económico negativo.

Mas a questão pode começar na ponta oposta. E se for o consumidor que perde poder de compra, de tal forma que deixa de conseguir manter o nível de vida que tinha? Inverte-se o ciclo, mas os problemas são os mesmos.

É com esse “dilema” que, segundo João Vieira Lopes, as empresas se debatem: será que há condições para os consumidores portugueses manterem os níveis de consumo?

“Temos receio de que o poder de compra dos consumidores possa baixar o lucro das empresas”, assume.

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A questão do poder de compra, que vai descer

Para o economista António Mendonça não há dúvidas: o poder de compra e o nível de vida dos portugueses vão, mesmo que num curto período de tempo, descer em 2022. Não só por causa da subida destes preços, mas da inflação geral, que deve ficar além dos aumentos salariais previstos para os portugueses. Veja-se, a título de exemplo, que os funcionários públicos vão ser aumentados em 0,9%, enquanto as últimas estimativas apontam que a inflação possa ultrapassar os 2%.

O antigo ministro das Obras Públicas (cargo que exerceu entre 2009 e 2011) diz que “é natural que haja uma perda de poder de compra até haver um ajustamento à dinâmica de preços”.

Ainda assim, o agora bastonário da Ordem dos Economistas não quer ser demasiado pessimista, e diz que é preciso perceber como vai evoluir a inflação, nomeadamente se esse será um fenómeno estrutural, que venha com caráter persistente e contínuo, ou se vai ser passageiro.

“Estamos em presença de uma subida dos preços, mas há dúvidas sobre qual ver ser a dinâmica”, justifica o economista, que até aponta uma possível queda na inflação para 2023 e 2024.

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Voltando à eletricidade, se esta é uma fatura que vai aumentar para as empresas, o mesmo não vai acontecer para os contribuintes, que até vão ver uma redução da fatura em 3,4% no mês de janeiro, em relação ao pago em dezembro.

Ainda assim, e comparando o período homólogo, trata-se de um aumento de 0,2%, uma vez que a descida de 3,4% não compensou as subidas ocorridas ao longo de 2021.

Outra situação a acompanhar cautela, de acordo com António Mendonça, é a questão das taxas de juro. Ainda não se sabe se o Banco Central Europeu vai permitir uma mexida, mas esse horizonte deixa a vida de muitas pessoas em suspenso.

“A subida das taxas de juro num contexto de dívida pode ser dramática, mergulhando novamente numa crise de consequências imprevisíveis”, explica o economista.

Este pode ser um cenário particularmente nefasto para o setor imobiliário, e sobretudo para quem já tem casa, que pode ver o crédito à habitação aumentar.

De acordo com o antigo ministro, uma eventual subida das taxas de juro vai originar uma nova crise, para a qual, afirma, Portugal "não está, nem poderia estar, preparado".

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Caso isso se venha a verificar, defende António Mendonça, deve haver uma ação conjunta dos países europeus, que não podem deixar cair os "mais fracos", como é o caso de Portugal, que é um país particularmente sensível, por causa do elevado valor de dívida.

Grande parte das empresas já pediu à EDP para mudar os contratos

A EDP é apenas uma das operadoras que fornece energia no mercado, mas é também a maior em Portugal. Em reação oficial à CNN Portugal, a EDP Comercial garante que acompanha todo o processo com “preocupação” e que trabalha de forma permanente para tentar chegar a uma melhor solução com as empresas.

Sobre os contratos, a elétrica refere que a perspetiva de aumento de preços está a levar a uma modificação no mercado, com muitas empresas a trocarem contratos anuais para contratos de três, cinco ou até sete anos, conseguindo assim uma maior “previsibilidade” e “estabilidade”.

A CCP e a CIP confirmam que a EDP tem trabalhado de perto com muitas das suas empresas, por forma a conseguir garantir uma solução que agrade a ambas as partes.

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