O jogo das 9 coligações que podem dar o poder a Costa ou a Rio

25 jan, 07:00
Debate entre António Costa e Rui Rio/ Lusa

Com as sondagens a revelarem que a vitória do PS ou PSD será renhida, o próximo Governo irá depender das negociações de bastidores com os outros partidos. Politólogos explicam à CNN Portugal quais são as alianças mais fortes, prováveis e vencedoras

“Um país politicamente novo”. É assim que José Adelino Maltez, professor universitário e investigador de Ciência Política, acredita que será o país depois das eleições legislativas de 30 janeiro.  Alem disso, “serão as eleições ao Parlamento mais inclusivas desde que há memória”. A dispersão de votos, incluindo pelos partidos mais pequenos é, na sua opinião, uma das marcas destas eleições. E para isso até recorre ao exemplo da sua família: se antes os seus filhos estariam divididos entre um voto em partidos com maior representatividade parlamentar, hoje tudo é diferente: “Está 50/50. Metade quer o Livre no Parlamento, a outra quer o Iniciativa Liberal”. 

Com as sondagens a revelarem que as contas da vitória vão ser renhidas entre PS e PSD, o cenário pode tornar-se complexo. Isto, aliado à possibilidade de muitos partidos, alguns mais pequenos, conseguirem eleger deputados e de existir a porta aberta  para que o partido a formar governo não seja o mais votado, mas o que consiga acordos para uma maioria.

Depois das eleições, e da contagem de votos, sem uma vitória clara, o novo Governo vai depender, assim,  das negociações de bastidores.  

 “É um terreno muito novo e, como tal, difícil de prever”, diz Adelino Maltez, considerando que isso se deve ao facto, em parte, de as novas forças políticas estarem a ganhar legitimidade e influência no eleitor português. “Há um país novo que não foi entendido nas suas preces”, afirma, explicando que isso “colocará à prova a capacidade dos líderes partidários que irão ser responsáveis por formar Governo”.

Desde a hipótese “à Guterres”, a um casamento de três forças à direita, passando por uma convocação de toda a esquerda para um acordo de Governo, os cenários pós-eleitorais multiplicam-se. Por isso, segundo a investigadora Paula do Espírito Santo, “cada dia de campanha é decisivo para os próximos quatro anos”.  Para conseguir ter 116 deputados no parlamento são várias as coligações possíveis, tendo com conta os resultados eleitorais.

As hipóteses de António Costa

PS + Bloco de Esquerda

É uma solução possível, segundo os politólogos. Apesar de partidos se terem distanciado após a crise gerada pelo chumbo do Orçamento do Estado, “é bastante provável um entendimento”, refere o politólogo Bruno Gonçalves Bernardes. No entanto, considera que “é previsível que o Bloco de Esquerda não dispense de um acordo escrito”.  Aliás, nota Paula do Espírito Santo, investigadora em Ciência Política e professora Associada com agregação do ISCSP, tem havido, nesta campanha, recados de Catarina Martins nesse sentido: “Diariamente é reafirmada a disponibilidade de se fazer uma ponte com o PS”.  

PS + CDU

Esta é uma negociação mais fácil para António Costa do que com o Bloco de Esquerda, diz Bruno Gonçalves Bernardes, considerando que a relação entre os partidos está mais fortalecida. O “clima de  animosidade” verificado no debate entre António Costa e Jerónimo de Sousa, iniciado pelo chumbo do Orçamento do Estado para 2022 não se replicou ao longo da campanha, concorda Paula do Espírito Santo. “Tirando esse debate, a estratégia do PS não tem sido de hostilizar a CDU que continua a ser um dos parceiros mais relevantes para António Costa”.  Além disso, nota o politólogo, este “é também um cenário menos complexo do que com o partido de Catarina Martins, pois existe menor divisão do eleitorado entre o PS e o PCP, que não está tão dependente de um voto de protesto”

 

PS + CDU + Bloco de Esquerda

Ainda que António Costa, durante a campanha eleitoral tenha reiterado que uma reedição da geringonça não lhe parece uma solução confiável de Governo, as suas últimas declarações sugerem uma aproximação, diz  Paula do Espírito Santo, notando que “a quota eleitoral do Bloco de Esquerda poderá não ser suficiente para se alcançar uma maioria relativa e a expectativa é que precise da força eleitoral da CDU”. 

Neste cenário, acredita Bruno Gonçalves Bernardes, mesmo com o fracasso da geringonça, começa a parecer ser real a manutenção desta coligação: “É possível voltar atrás e fazer um acordo escrito”

 

PS + PAN ou/e Livre

Para conseguir os deputados que precisa, o PS pode aliar-se  ao livre ou ao PAN ou aos dois. “O Livre e o PAN poderão ser uma possibilidade para viabilizar uma solução de acordos com o PS”, considera Paula Espírito Santo. Segundo a investigadora, o Livre “parece estar em crescimento e pode vir a roubar votos ao Bloco de Esquerda” e por isso poderá ser uma surpresa dentro da forte competição.

Já quanto ao PAN, a politóloga acredita que terá “dificuldade em manter o número de deputados”. Na opinião de Bruno Gonçalves Bernardes, tanto o Livre como o PAN estariam disponíveis para fazer acordos com o PS. “A principal prioridade seria a aprovação do Orçamento do Estado para 2022”, afirma Bruno Gonçalves Bernardes, sublinhando que ambos os partidos teriam influência na aplicação do PRR, com o PAN a incidir maioritariamente no pacote economia verde e o Livre a concentrar esforços na solução dos problemas habitacionais em Portugal. Por outro lado, Paula do Espírito Santo vê este cenário de estratégia negocial com o Livre e o PAN como provável, perante uma “recusa bloquistas ou dos comunistas”.

PS + PAN + Livre + Bloco de Esquerda e/ou CDU

Esta aliança que converge toda a esquerda pode ser uma solução caso, como explica o politólogo Bruno Gonçalves Bernardes, o Partido Socialista “seja o mais votado nas eleições do dia 30 de janeiro, mas com uma diferença muito reduzida face ao PSD”,. Esta solução, frisa, precisará de um acordo formal para se alcançar a estabilidade. No mesmo sentido, Paula do Espírito Santo considera que esta será uma das soluções mais prováveis à esquerda, já que “a expectativa é que nenhum destes partido, sozinho, consiga uma prevalência de votos significante para poder formar governo sem precisar de mais apoios”. “Este cenário é mais aliciante para António Costa do que uma união com o PSD”, considera a investigadora.

As hipóteses de Rui Rio

PSD + CDS

É um dos cenários “ideais” para Rui Rio que já assumiu entregar a pasta da Defesa nacional a Francisco Rodrigues dos Santos, explica Bruno Gonçalves Bernardes, reiterando que ambos os partidos têm mostrado abertura para o diálogo e são “parceiros naturais de Governo”. Esta coligação necessitaria de uma expressiva votação angariada pelo CDS-PP cujas sondagens não prevêem. Esta solução, argumenta ainda o politólogo, “beneficiava de um acordo de incidência parlamentar com a Iniciativa Liberal”.

 

PSD + Iniciativa Liberal

Segundo o politólogo José Adelino Maltez, ambos os partidos “escolheram o mesmo caminho”, pelo que um acordo entre os dois é “provável, já que têm vontade de encontrar soluções semelhantes de equilíbrio cultural”. Adelino Maltez considera ainda que um acordo entre o PSD e a Iniciativa Liberal já está implícito num voto em Rui Rio: “Quem votar nele, já sabe que tem bilhete marcado para a Iniciativa Liberal”, afirma, recordando que o líder dos sociais-democratas já assumiu entregar uma pasta ao partido de Cotrim Figueiredo.

 

PSD+CDS+Iniciativa Liberal (... e Chega)

Este “casamento a três”, como define José Adelino Maltez é a solução preferencial de Rui Rio, já que ambos estão disponíveis para negociar em conjunto, “especialmente se isso significar afastar o PS do poder”. Também André Freire concorda com esta posição, insistindo que a coligação poderá acontecer também se Rui Rio não for o mais votado, mas existir uma maioria parlamentar à direita, “fazendo o que António Costa fez em 2015”. Bruno Gonçalves Bernardes define, no entanto, um problema associado à correlação de forças: “O CDS poderá estar numa posição insegura após as eleições. É um partido que tem interesse em estar no Governo, mas discute os votos pela liderança com o Iniciativa Liberal”.

Já sobre a incógnita relativa à expressão do Chega nas eleições, André Freire afirma que o lugar do partido de André Ventura nesta equação entre PSD, CDS e Iniciativa Liberal “não passará por um gabinete, mas será incluído numa maioria política, através de um acordo como aquele feito nos Açores”. Um acordo deste tipo não parece agradar André Ventura, como o próprio disse à rádio Observador, mas, se não aceitar, “pode ficar com o ónus de passar o poder para a esquerda”, entende o politólogo que reitera que o Chega é um risco para a governabilidade: “É um partido que muda várias vezes de posição. É um partido com falta de coesão e de um homem só”.

 

PSD+Iniciativa Liberal+PAN

Esta é uma solução improvável para o politólogo André Freire, já que implica que o CDS não faça parte das contas para a governação. “Se a questão das corridas de touros for um cavalo de batalha pode ser um problema”, afirma, explicando que o desempate favorecerá sempre Francisco Rodrigues dos Santos: “Rui Rio preferirá, até pelas provas de longa data e pelas alianças feitas nas autárquicas, sempre o CDS”. Ainda assim, o politólogo diz que o PAN não deixa de ser uma peça no jogo de xadrez de Rui Rio, necessária “se for preciso para prescindir do Chega” e caso o CDS não consiga eleges deputados.

O politólogo Bruno Gonçalves Bernardes, lembra ainda que o PAN “tende a aproximar-se dos partidos mais à esquerda”. No entanto, acredita que  o líder do PSD não desistirá de uma maioria parlamentar por ter de fazer algumas concessões ao PAN. “Rui Rio não desistirá de um acordo com o PAN, se ele for um partido chave para a sua maioria”.

 

A possibilidade de um bloco central está afastada?

"Há uma porta entreaberta” para um acordo do bloco central, considera Paula do Espírito Santo, salientando que Costa vai sempre preferir a solução de unir toda a esquerda, ou de conseguir uma “ecogeringonça” com o PAN, com o Livre e com o PEV.

Já José Adelino Maltez afirma que um acordo entre PS e PSD é hoje uma das possibilidades melhor posicionadas para acontecer, desde que não tenha o nome “bloco central”, diz. “O grande problema é o nome. O nome é impeditivo e dá a sensação de que existe um muro de Berlim erguido com um acordo secreto”

Se a escolha “equívoca e esmagadora” da população se dividir entre os dois maiores partidos então, explica o politólogo, Costa e Rui Rio “vão ter de cooperar em nome do regime democrático”. Questionado se isto não é um empecilho à estabilidade, José Adelino Maltez diz que Portugal não vive divisões ideológicas como os conservadores e os trabalhistas no Reino Unido. “É perfeitamente possível na cultura democrática e a sociedade civil vê isso bem, em vez de berros vão ter de negociar dossiê a dossiê”, afirma.

Por outro lado, o politólogo André Freire considera que uma aliança que coloque António Costa, como primeiro-ministro, a negociar com Rui Rio seria “frágil”, já que à primeira oportunidade o PSD tentaria chegar-se à frente para conseguir alcançar o poder. Esta é, diz, “uma solução baseada num apoio instável que dura um ou dois anos”.

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