865 + 276 = 1.215 - 74: a fórmula para pôr Trump contra Biden

5 mar, 09:00
Donald Trump à chegada a um comício no Sioux Center, Iowa, a 5 de janeiro de 2024. Scott Olson/Getty Images

Quinze estados norte-americanas têm eleições primárias esta noite: é a super terça-feira, no rescaldo de uma importante decisão do Supremo Tribunal federal favorável ao ex-presidente e depois de Nikki Haley ter conquistado a sua primeira vitória na corrida à nomeação republicana. Analistas dizem que, se Trump vencer na maioria dos estados a votos esta noite, uma repetição Trump-Biden em novembro poderá estar garantida já na próxima semana

“Quando és solicitado e o dever chama, tu respondes. A minha motivação é salvar a democracia. Porque Donald Trump vai destruir a nossa democracia.” Norma Anderson tem 91 anos e, por breves meses, chegou a abandonar o partido pelo qual sempre militou e que o ex-presidente tem vindo a reformular desde que entrou de rompante na cena política norte-americana, na campanha para as presidenciais de 2016. 

Depois da pausa, Anderson decidiu voltar a filiar-se ao partido pelo qual foi eleita para o congresso do Colorado há algumas décadas porque, nas suas palavras, reproduzidas pelo Politico, é uma “republicana à antiga” que acredita na democracia. “Eles não vão perseguir-me. Serei republicana até morrer. Nasci republicana e vou morrer republicana.” A ex-deputada foi uma de seis cidadãos republicanos e não-filiados que, em dezembro, tinham dado início a um processo sem precedentes para tentar travar a recandidatura de Trump à presidência – e que ontem, na véspera da famosa super terça-feira, viram as suas aspirações cair por terra.

Sustentados por uma alínea da Constituição dos Estados Unidos com mais de 150 anos, que dita que um ex-cargo público não pode candidatar-se à presidência se sobre ele penderem suspeitas de envolvimento em “atos de insurreição”, o grupo Cidadãos pela Responsabilidade e Ética em Washington DC (CREW) aguardava desde então uma decisão do Supremo Tribunal federal (SCOTUS) quanto à elegibilidade de Trump face ao ataque ao Capitólio, a 6 de janeiro de 2021. Essa decisão chegou ao início da tarde de segunda-feira, com o painel de juízes federais a decidir que o Supremo do Colorado “errou” ao ditar a inelegibilidade do ex-presidente, horas antes de 15 estados terem primárias para decidirem quem querem que dispute a presidência em novembro.

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Do lado democrata, e dado que Joe Biden tem a nomeação garantida, as votações diretas deverão ter pouco impacto (isto pode não ser assim se o que aconteceu há cinco dias no Michigan se repetir em alguns ou todos os estados com diretas democratas, ainda que as regras ditem que, a menos que Biden desista da corrida, a nomeação já é sua). Do lado republicano, contudo, esta será uma das mais importantes etapas da corrida à nomeação, com mais de um terço dos delegados republicanos em disputa e muitos analistas a anteciparem que vai funcionar como o último prego no caixão político de Nikki Haley, única rival de Trump na corrida à nomeação.

Numa altura em que o ex-presidente continua a somar e a seguir – até agora, o empresário só perdeu num dos nove estados que já tiveram primárias republicanas – é consensual que, na quarta-feira, a sua nomeação pode tornar-se praticamente oficial, apesar de outros 31 estados e territórios terem diretas entre março e meados de julho, data da convenção nacional do partido.

A equação parece simples: com votações marcadas em 31 dos 50 estados ao longo dos próximos meses, seria expectável que tudo continuasse mais ou menos em aberto até ao verão. Mas, neste momento, Trump enfrenta apenas uma rival, cuja vitória em Washington DC, apesar de histórica, de pouco lhe valeu face às contas que realmente interessam – contra os 43 delegados que Haley já conquistou, incluindo 19 na capital federal no domingo, Trump tem já algumas centenas no bolso e deverá conquistar muitos mais nas votações de hoje.

Nikki Haley continua a disputar a nomeação republicana apesar de ainda só ter vencido uma das nove etapas das primárias. Foto: EPA

 

Ao todo, 865 delegados republicanos estarão em disputa em 15 estados, incluindo alguns de redobrada importância dado o seu peso no mapa eleitoral; para conquistar a nomeação republicana, um candidato precisa de um mínimo de 1.215. Os eleitores dos estados do Alabama, Arkansas, Califórnia, Colorado, Maine, Massachusetts, Minnesota, Carolina do Norte, Oklahoma, Tennessee, Texas, Vermont e Virginia são chamados a votar em primárias esta noite, a juntar aos caucuses no Alaska e Utah. Em 11 desses 15 estados, o modelo de primárias é aberto, ou seja, não são exclusivas para aqueles que estão registados como republicanos. No caso democrata, estarão em disputa 1.420 delegados eleitorais, sendo que um candidato precisa de um mínimo de 1.968 até à convenção do partido em agosto para conquistar a nomeação (Biden já tem 206).

Em 2016, a super terça-feira foi o momento em que Trump ganhou o quase total controlo das primárias republicanas, vencendo em sete dos 11 estados a votos naquele dia, apesar de ter perdido no mais importante deles, o Texas. Ao contrário deste ano, a corrida continuou relativamente renhida até à reta final das eleições diretas do partido. Neste momento, Trump conta já com 276 delegados eleitos. Se vencer em todosos estados a votos na super terça-feira, ficará com 1.141, menos 74 do que a fasquia mínima. Citando especialistas eleitorais, a CBS News indicava ontem que Trump poderá alcançar esse mínimo já na próxima terça-feira, 12 de março, dia de primárias nos estados da Georgia, Mississippi e Washington, a par do caucus republicano do Hawaii.

O que já foi – e o que está por vir

Mesmo que assim seja, e que a vitória de Trump fique definida este mês, as votações diretas dos partidos vão continuar como previsto ao longo das próximas semanas, numa etapa pré-presidenciais que, para o partido da oposição, vai terminar a 4 de junho, com primárias no Montana, Nova Jérsia, Novo México e Dakota do Sul, antes da certificação dos resultados na convenção de 15 a 18 de julho, em Milwaukee, no Wisconsin. É cada vez mais provável que, chegada essa data, Trump tenha a nomeação garantida há muito – agora que pode cantar vitória na mais promissora batalha de entre as várias que enfrenta no caminho até à Casa Branca.

Com o caso do Colorado encerrado, continuam a pender sobre o ex-presidente 91 acusações criminais em quatro casos judiciais distintos, dois deles federais, a decorrer em Washington DC e na Florida, os outros dois estatais, em curso nos estados de Nova Iorque e Georgia. Não é para já claro se qualquer desses casos será julgado antes das presidenciais de novembro.

Na semana passada, os juízes do Supremo aceitaram ouvir um desses casos, o que está a decorrer na capital federal, por suspeitas de interferência eleitoral face ao alegado envolvimento do ex-presidente na invasão do Capitólio após Joe Biden ter vencido as presidenciais de novembro de 2020.

A primeira audiência no SCOTUS está marcada para a semana de 22 de abril, não se esperando qualquer decisão antes de maio, na melhor das hipóteses. Nesse caso, os juízes do Supremo são chamados a decidir se Trump tem ou não imunidade face às acusações de subversão eleitoral – e a decisão que for tomada tem o potencial de anular uma série de outros casos que pendem sobre o candidato presidencial, nomeadamente o que decorre na Georgia.

Antes disso, haverá audiências no caso que decorre em Nova Iorque, no qual é acusado de falsificar documentos da Organização Trump para pagar subornos a uma ex-estrela de filmes pornográficos durante a campanha às presidenciais de 2016. A primeira etapa desse caso judicial está marcada para 25 de março, no rescaldo das primárias em Louisiana e no Missouri e dias antes de outros sete estados irem a votos. Mas é possível, senão provável, que por essa altura a sua candidatura presidencial esteja já garantida.

[artigo atualizado para refletir os delegados conquistados por Trump no caucus da Dacota do Norte]

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