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Reguila: do golo ao Benfica à «alegria de jogar» no Forjães

10 fev 2018, 15:31
Reguila - Forjães (Foto: Ricardo Jorge Castro)
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Chegou ao topo do futebol nacional apenas aos 30 anos, após três subidas no Trofense. Figura de um clube no qual marcou um golo «para a vida» ao Benfica, eis Reguila, num vaivém entre as divisões inferiores e a Liga. Da iminência de terminar a carreira a artilheiro de serviço do Forjães, nos distritais de Braga

artigo original: 08-02-2018 23:31

Domingo à tarde é uma rubrica do Maisfutebol, que olha para o futebol português para lá da liga e das primeiras páginas. Do Campeonato de Portugal aos Distritais, da Taça de Portugal aos campeonatos regionais, história de vida e futebol.

Se a idade é condição para continuar na luta da redondinha, Nuno Filipe Rodrigues Silva, no vaivém da carreira, não olha à certidão pelo «bichinho» que o move no futebol. Desporto de sonhos, objetivos. Memórias. Época após época.

Já lá vão 23 na carreira sénior, numa completa escalada dos campeonatos distritais à Liga, com regresso ao ponto de partida.

Falamos de Reguila, 38 anos e um contínuo apetite pelas balizas contrárias. Lembra-se, por exemplo, do avançado que marcou um dos golos de uma surpreendente vitória do Trofense ante o Benfica, na única época dos nortenhos na Liga? Ei-lo hoje no concelho de Esposende, ao serviço do Forjães, como melhor marcador da equipa no mais alto campeonato distrital de Braga, a Pró-Nacional: dez golos em 22 jogos, vontade de continuar.

Ei-lo no reencontro com a «alegria» de jogar. Quando a «desmotivação» podia ter pendurado as chuteiras mais cedo.

«Na época passada, ponderei abandonar. Sentia-me desmotivado para jogar. O Forjães, na segunda jornada, estava sem ponta de lança, com dificuldades em reestruturar o plantel. E abordaram-me. Acreditei nas pessoas, no projeto. É um clube cumpridor e o bichinho fez voltar a jogar futebol. Aceitei, estou contente, encontrei um grupo formidável», conta, nas primeiras palavras da conversa com o Maisfutebol.

Falamos, atente-se, de um avançado que conheceu os palcos da Liga apenas – e pela única vez - aos 30 anos: época 2008/09 e o Trofense como pontos comuns. Até aí, formação e um escalar de divisões distritais em Braga: do Cervães ao Ucha, passando por Laje e Merelinense. Daí ao topo, o Trofense, com Gondomar pelo meio.

Do Trofense indesejado ao «golo mais mediático»

Reguila tinha 23 anos quando esteve às portas da equipa B do Sp. Braga. Não queria ir para o Trofense «e sabia que, no Braga B, podia ser chamado à equipa principal». «Surgiram empresários e desviaram para a Trofa, fiz força para não ir. Certo é que fui e as coisas começaram a correr de feição», recorda. Na então III Divisão B, hoje extinta, Reguila fez 25 golos. Convenceu e criou ligação de uma vida ao clube.

De 2002 a 2012, jogou nove épocas no Trofense e subiu de divisão três vezes, até ao topo do futebol nacional. Aí, palcos de sonho, um golo para a vida e outras memórias.

«Fui degrau a degrau, era um sonho que estava a concretizar», atira, entre o histórico 4 de janeiro de 2009. O Trofense, então último classificado, recebia e batia o até aí líder e invicto Benfica, 2-0. Reguila, em cima do intervalo, abria o marcador.

«Não direi que foi o [golo] mais marcante, mas o mais mediático. Nunca escondi: sempre fui benfiquista. E ainda hoje as pessoas abordam-me na rua para falar desse golo. Recordo com satisfação. Irá ficar para a vida», atira.

O golo de Reguila ao Benfica (minuto 1'45):

Após brilharete às águias, o Trofense anulou o FC Porto no Dragão. Lisandro López, uma troca de camisolas. «Fomos com dois “autocarros”, para empatar ou perder por poucos. Falei com o Lisandro no início, para trocar camisola. Certo é que empatámos 0-0, fui ter com o Lisandro, cheguei e empurrou-me. Mas foi no calor do jogo», sustém.

Nessa época, o Trofense bateu o pé aos três grandes, mas desceu à II Liga. «Esfumou-se o sonho», comenta Reguila, que a partir daí conheceu o caminho contrário. De divisão em divisão.

«No primeiro treino, apetecia-me vir embora»

Seguiram-se quatro épocas na II Liga – três no Trofense, uma no Santa Clara. Sempre a marcar, mas sem voos mais altos. Após ter descido da I Liga e como peça preponderante no Trofense, renovou por três anos e cumpriu, mesmo falhada a ambição de voltar a jogar no principal campeonato.

Depois, Famalicão e Vilaverdense, este o clube da terra. Em comum, expetativas meio goradas. «No Santa Clara, tive proposta para o Penafiel. Ia assinar, mas surgiu o Famalicão. [No Penafiel] senti que não me iria dar bem. Acedi ao convite do Famalicão, no início estava a fazer golos. Depois, comecei a deixar de jogar. Vim para o clube da minha terra e as coisas começaram a correr mal», lembra.

Em 2015, o Brito no regresso aos distritais. «Ano após ano, vou ter de acabar», pensava. Até ao Forjães e à «alegria de jogar futebol novamente». Mas com um início difícil. «Na época passada, quando cheguei ao Forjães, no primeiro treino, apetecia-me vir embora. Não havia organização», atesta.

O tempo, contudo, tratou de assentar estruturas. Isso e estabilidade, a Reguila e ao Forjães. O clube, quase sempre aflito na luta da permanência, está este ano num confortável sexto lugar, com 35 pontos. Reguila abriu caminho a nova vitória no último domingo, ante o Águias da Graça (2-0) e apontou o décimo golo da época. «O Forjães tem sido a surpresa deste campeonato pela positiva», garante Reguila, alcunha oriunda do irmão mais velho, ex-futebolista.

Reguila num Trofense-Naval, em 2009

Da página de fãs às certezas

No marcante Trofense, Reguila tornou-se protagonista dos relvados às redes sociais. Tudo por causa de uma menina que começou a colecionar recortes do avançado até criar uma página de apoio no Facebook, "Reguila Fãs". «No final dos treinos, estava sempre uma miúda no portão à minha espera. Eu passava, ela ficava corada, mas na altura nem associei. Um dia, como estava a fazer muitos golos, ela queria falar comigo e foi aí que senti que me idolatrava. Ia aos jogos, treinos, criou a página, guardava tudo», detalha.

No vaivém de realidades competitivas, Reguila saiu dos distritais aos 23 anos e lá voltou aos 36. Após o sonho de primeira e uma carreira à beira do fim, um misto de mágoa: «Acreditava que podia jogar dois ou três anos na primeira Liga». Mas também de certeza no percurso. «Questionam muitas vezes se cheguei tarde [à Liga] mas há muita gente que queria lá chegar e não chegou. Cheguei, com 30 anos, mas cheguei», refuta.

Num olhar ao futuro, pedalada para «mais um, dois anos». Porque o que tem início, conhece fim. «Sei que isto do futebol, um dia acaba».

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