"Não devíamos estar a trabalhar só para pagar as contas". Dicas para conseguir poupar mesmo quando o custo de vida aumenta

3 nov, 17:40

Sara Antunes, autora do livro Ganhar, Poupar, Investir, defende que a literacia financeira devia ter um papel mais ativo nas escolas, e ressalva que existem investimentos a beneficiar de uma inflação alta. Gerir as finanças pessoais não tem de ser um "bicho de sete cabeças".

Autora do livro “Ganhar Poupar Investir”, Sara Antunes, Diretora de Comunicação e Conteúdos no Doutor Finanças, dá-nos conselhos sobre como gerir as finanças pessoais num contexto marcado pela incerteza e elevada inflação.

Após um período de pré-venda, o livro chegou esta quinta-feira às bancas. Nele, Sara Antunes aborda temas como formas de renegociar créditos e seguros, fazer um "check-up" às suas finanças, poupar na despesa com o supermercado, ou ainda aumentar o reembolso do IRS.

Uma das coisas que defende é que a primeira fatura que devemos pagar é a nós próprios. O que é que isto significa?

O que isto significa é que não devíamos estar a trabalhar só para pagar as contas. O primeiro passo é remunerar-nos pelo que andamos a fazer ao longo de todo o mês e garantir que vamos constituir uma poupança.

Há muitas pessoas que acham que isso implica poupar todos os meses 100 euros, não é verdade. Tem de ser uma poupança adaptada à nossa realidade. Podem ser 5 ou 10 euros, mas temos de o fazer para garantir que há uma margem de segurança. Isso é pagar a nós próprios.

Um dos primeiros passos no livro é, precisamente, fazer um orçamento familiar. Isto é algo que devia ser ensinado nas escolas, ou é uma tarefa que cabe a outras instituições?

A literacia financeira devia ter um papel muito mais ativo nas escolas porque vamos ter de lidar com este universo quer queiramos quer não. Já há programas dos reguladores a fomentar boas práticas e no Doutor Finanças também fazemos esse trabalho através de workshops, formações, e uma panóplia de artigos.

Um orçamento parece um bicho de sete cabeças. Dá algum trabalho e exige alguma disciplina, mas é muito simples porque é colocar tudo o que ganhamos (remunerações, subsídios, reembolsos do IRS) e colocar tudo o que gastamos por rubricas (casa, telecomunicações, roupa, comida…) e ver em que ponto estamos.

Há encargos que não sabemos que vão aparecer, como um carro na oficina, mas quem tem casa própria sabe quando e quanto vai pagar de IMI, e isso é possível antecipar e não sermos “surpreendidos” naquele mês.

Deve a inflação ser vista como um “imposto extra” no momento de investir?

Não podemos dizer que a inflação é um imposto, mas vai anular uma parte do nosso retorno, porque compramos menos, ou temos menor capacidade de investimento. O dinheiro, na prática, vale menos.

A inflação influencia os investimentos, sendo que há investimentos que beneficiam de uma inflação mais alta. Por regra, a inflação tira valor geral ao dinheiro, mas é preciso perceber que tipo de investimentos é que estamos a falar.

Atualmente, os depósitos a prazo têm uma rendibilidade baixa. É altura de abandonar este método de poupança por outros, como os Certificados de Aforro?

Depende do objetivo daquele dinheiro. Se aquele dinheiro estiver lá para uma emergência, esse dinheiro deve continuar disponível, embora não seja suposto esse dinheiro ser de muito fácil acesso, para não cairmos na tentação de o gastar.

No caso de haver parte da poupança que queiramos pôr a render, os depósitos a prazo não serão a melhor opção. Os Certificados de Aforro estão indexados à Euribor, estando ela a subir, os CA tendem a ficar mais atrativos.

Mas há muitas outras coisas que podemos fazer. Há os PPR’s, mas para quem tem casa, pode ser interessante amortizar o crédito habitação. Com os juros a subir, se temos uma poupança e temos esse dinheiro alocado num banco sem render, pode fazer muito mais sentido amortizar o crédito habitação porque vamos estar a poupar em juros e a reduzir a nossa fatura mensal do crédito.

E que percentagem das poupanças deve ser alocada para investimento?

De uma forma geral, nós devíamos esquecer que ganhamos 10% do nosso rendimento, para constituir poupança e para usar parte desse valor para investir, para pôr o dinheiro a trabalhar por nós. Mas primeiro devemos ter um fundo de emergência que nos garanta proteção e segurança num caso extremo.

Portanto, trabalhar a partir desses 10% mensais?

Depende dos objetivos de cada um. Podemos optar por esses 10% para constituir poupanças diferentes, como uma viagem ou um investimento. Poderá haver pessoas que usam esse dinheiro para meter os filhos na universidade ou a estudar para fora.

Não gostava de dizer que devíamos investir 10% do nosso rendimento. Nalguns casos pode ser inviável, estes 10% são uma recomendação. As realidades são tão distintas que pode haver necessidades diferentes, mas de uma forma geral, 10% do nosso rendimento podia ser alocado para a poupança e para o investimento.

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