Folhetim de voto: Ventura histriónico vs. Catarina poker face

3 jan, 10:15

Arrancaram os debates e arranca o Folhetim de Voto, coluna de análise e opinião diária assinada pelo jornalista de política Filipe Santos Costa. Ventura, Catarina, Costa e Rui Tavares foram os protagonistas da noite. Faltam 27 dias para as eleições

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O assunto do momento é o arranque dos frente-a-frente televisivos, que só por si são todo um folhetim: este domingo aconteceram os dois primeiros, até ao dia 15 ainda faltam 28 (e só não serão mais porque Jerónimo de Sousa recusou fazer debates nos canais por cabo, como a CNN Portugal, e por isso só terá dois frente-a-frente, com Rui Rio e António Costa - este, já amanhã, na TVI). Arranca hoje o Folhetim de Voto, que todas as manhãs fará a análise à pré-campanha eleitoral (e à campanha, quando lá chegarmos, a partir do dia 16).

Decisivos. Podem os debates televisivos ser decisivos para o resultado eleitoral? A literatura de ciência política diz que isso raramente acontece, pois a inclinação de voto já costuma estar definida a esta distância das eleições. Porém… se a luta estiver muito renhida, como poderá ser o caso nestas eleições, os embates na tv podem fazer a diferença, como lembra no Eco o politólogo António Costa Pinto.

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Chega. André Ventura portou-se no debate mais aguardado deste domingo exatamente como se esperaria que se comportasse: ruidoso, histriónico, demagógico, populista, exaltado. Tal como já havia feito nas presidenciais (sobretudo no seu primeiro debate), aproveitou toda a latitude que lhe deram para interromper e perturbar o discurso da adversária, tentando condicionar o debate com as suas provocações constantes. Apesar disso, o grande tema do duelo com Catarina Martins, a corrupção, foi lançado pela líder do BE, e não por Ventura - mas este adaptou-se rapidamente ao guião, com as fórmulas de sempre. Em guião que ganha não se mexe, e Ventura sabe que este é o guião de que o seu eleitorado gosta. 

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Se Ventura fosse mulher, a sua prestação seria provavelmente rotulada como histérica; como é homem, dizem que foi “aguerrido”. Esperteza e instinto matador também é isto: usar a seu favor o viés machista de boa parte da sociedade. E também debitar tantas informações falsas por minuto que não é possível responder a todas. Será útil que os media tenham boas equipas de fact checking ao longo dos próximos dias.

Catarina Martins vs André Ventura

BE. Ao contrário do seu oponente, Catarina Martins apresentou-se no primeiro debate com uma atitude surpreendentemente serena, demonstrando grande autocontrolo perante as boutades do seu adversário. Fez um exímio uso de poker face, que deve ter sido o que mais praticou nos media training para este confronto (aprendeu bem com os erros de Marisa Matias há um ano). Foi afirmativa, mas nunca agressiva, e trouxe o Papa Francisco na ponta da língua. Ângela Silva, na SIC-N, classificou Catarina Martins como “moderada”, “às vezes quase frágil” - e, com isso, deu a vitória ao “killer” André Ventura. Talvez conseguir o rótulo de “moderada” fosse mesmo o objetivo de Catarina Martins neste debate, onde dificilmente disputava eleitorado com o seu oponente (o Ricardo Costa, também na SIC-N, disse que os dois líderes “estavam em dois debates diferentes, porque estão em corridas diferentes”, o que é bastante evidente). 

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A maior pressão sobre o BE nesta campanha vem do PS, que apela ao voto útil e retrata os bloquistas como um partido extremista, sem capacidade de diálogo ou de ponderação, e por isso inútil para uma futura maioria. A Catarina Martins do debate de ontem foi o contrário desse retrato, e nenhuma provocação de Ventura a desviou do papel que decidiu interpretar. Veremos de que forma Catarina se apresentará nos debates que faltam, e sobretudo com António Costa - se for (como é bem possível) mais agressiva com o PM do que foi com “o candidato da extrema-direita”, isso poderá fazer ricochete contra o BE. Para já, a maior dificuldade de Catarina Martins foi-lhe colocada por si própria, ao puxar pelo tema da corrupção, em que Ventura debita soundbites mais depressa do que a bloquista explica os seus argumentos. 

 

Homens vs mulheres. O Diário de Notícias fez as contas a todas as candidaturas apresentadas a estas legislativas e concluiu que as mulheres ocuparam menos de um terço dos lugares de cabeça de lista pelos vários círculos eleitorais. Só 60 num total de 174 lugares. Sem surpresa, o Bloco de Esquerda leva a palma como partido mais igualitário; o Chega é o campeão a desvalorizar as mulheres.

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Livre. Valeu a pena Rui Tavares ter lutado por um lugar nos debates (que, em rigor, sempre mereceu, pois lidera um partido que elegeu representação parlamentar em 2019). Face a António Costa, mostrou-se bem preparado, focado, com soundbites bem engatilhados. Mas, sobretudo, mostrou-se com ideias claras e um plano, que era um desafio a António Costa: um “pacto para uma maioria social, progressista e ecológica”, aberto “aos partidos que nele quiserem participar”, com um programa bem definido e, em contrapartida, um compromisso de viabilização de orçamentos. Clarinho, clarinho.

Uma clareza que não existe em mais nenhum partido da esquerda, seja BE, PCP ou PS. Costa, claro, não respondeu - e essa fuga foi um ponto a favor do líder e candidato do Livre. “Se [António Costa] chutar para canto, continuará a fazer pressão sobre o voto dos portugueses”, respondeu Tavares. Os analistas apontam o ascendente do lado de Rui Tavares - aqui na CNN Portugal, a Anabela Neves declarou a vitória do líder do Livre, e o Sebastião Bugalho falou num empate que equivale a uma vitória para Tavares, tendo em conta o ponto de partida tão distante em experiência e expetativas de ambos os contendores.

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António Costa vs Rui Tavares

PS. António Costa apresentou-se no primeiro debate com os três argumentos principais da sua campanha: estabilidade, estabilidade, estabilidade. E faz equivaler esse mantra a uma “maioria do PS” - Costa não classifica a maioria como “absoluta”, a palavra queima-lhe a língua, mas toda a gente percebe bem demais de que maioria o secretário-geral do PS está a falar. “Todas as outras soluções revelam-se precárias ou, pior, más”. Costa coloca como condição para a governabilidade “não ficarmos na dependência dos humores, das jogadas políticas, e da movimentação tática de cada um dos partidos”, e dessa forma revela “uma certa dificuldade”, como identificou a Anabela Neves: defende agora a maioria absoluta que não pediu em 2015 nem em 2019, e desqualifica agora aquilo que defendeu nas últimas eleições: “Queria uma maioria de esquerda, lutou por ela, era o seu sonho, e agora já não quer uma maioria de esquerda”. 

“O voto no Livre não nos livra da direita”, respondeu Costa, como responderá a ao PCP e ao BE, em campanha pelo voto útil. Mas a energia de Costa não foi para replicar ao Rui que tinha à sua frente, mas ao Rui ausente, como escreve a Ana Sá Lopes no Público. Qualquer que seja o interlocutor, “Costa escolheu a bipolarização com Rui Rio”, e os seus debates serão sempre com o líder do PSD, mesmo que por interposta pessoa. Mas não perderá a oportunidade de fazer, também, campanha contra a restante esquerda - mesmo antes do debate, pediu aos eleitores que dêem resposta “a quem abriu esta crise”.

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Minimalista. Segundo Público desta segunda-feira, a campanha do PS será muito diferente do figurino habitual, condicionada pela pandemia. Nem as grandes arruadas da Rua de Santa Catarina, no Porto, e do Chiado, em Lisboa, nem almoços, nem jantares. Haverá ações de rua, mas de menor impacto, e tudo será reavaliado de acordo com a evolução da incidência de SARS-CoV2. A campanha socialista apostará nos debates televisivos e nas redes sociais, mas António Costa irá a todos os distritos, como sempre, revela Duarte Cordeiro, o diretor de campanha do PS, que também é secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares e coordenador do Governo para a pandemia na região da Grande Lisboa. 

PSD. Rui Rio estreia-se esta segunda-feira nos frente-a-frentes, e logo com o líder do Chega, com quem o PSD tem um acordo de governo nos Açores, que garante que não se repetirá a nível nacional. Rio já disse muita coisa diferente sobre uma eventual aproximação ao Chega, já a admitiu, já colocou condições para que seja possível, e atualmente garante que não há acordo possível. Esse será um dos assuntos do embate desta noite, na SIC. Mas era importante que, para além de compromissos claros sobre soluções pós-eleitorais, os líderes pudessem confrontar-se sobre políticas públicas e de respostas concretas para os problemas do país. Dois exemplos em que seria interessante perceber as (eventuais) diferenças: Rio concorda com os cortes dos apoios sociais, como Ventura propõe? O que defendem ambos sobre impostos e políticas salariais? Temos demasiada conversa sobre política, e discussão a menos sobre políticas. 

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PAN. Nestas eleições há um elefante no meio da sala, e só o PAN parece preocupado com isso (e não por ser um partido animalista). Com o aumento da incidência da covid-19, podemos chegar ao dia das eleições com dezenas de milhares de portugueses em quarentena, impedidos pelas regras da DGS de poderem ir votar. No fim-de-semana, Inês Sousa Real chamou a atenção para esse problema, que poderá empolar os valores da abstenção, para além de impedir muitos eleitores de cumprirem um direito básico da democracia. Na reação do PAN ao discurso de Ano Novo do Presidente da República, a líder do PAN lamentou que Marcelo não tenha referido este problema, que pode enviesar os resultados eleitorais. “A este tempo ainda não sabemos o que o Governo está a antecipar relativamente ao ato eleitoral para que esteja assegurado o direito ao voto de todas as pessoas, em particular aquelas que vão estar em isolamento ou doentes por força da Covid-19, entre outras doenças”, alertou Inês Sousa Real. Falta informação sobre o que será feito, mas sabemos bem o que não foi feito nestes dois anos: desde que a covid surgiu, não se mexeu uma palha nas leis eleitorais, de forma a mitigar o impacto que a pandemia poderá ter sobre a afluência às urnas.

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Marcelo. Não vai a votos, mas será provavelmente uma das figuras da campanha. A sua mensagem de ano novo mostra isso mesmo: cada partido apropriou-se da parte que lhe convém das palavras do Presidente da República. Marcelo fez votos de que 2022 seja o ano de “virar a página”, e toda a oposição faz coro por isso mesmo, fazendo equivaler a mudança de página com a mudança da correlação de forças no Parlamento. O PSD quer “protagonizar esse virar de página”; o Bloco subscreve e pede “um novo ciclo político”; a IL diz que “é de facto a hora de virar a página”, e o CDS diz parecido. Mas também o PS faz suas as palavras do Chefe do Estado, falando na necessidade de  “virar esta página [da pandemia] como virámos a página da austeridade”. E, se Marcelo pede um governo com “previsibilidade”, a mensagem de ano novo do secretário-geral do PS faz equivaler isso à necessidade de uma maioria socialista.

David Pontes, no editorial do Público, escreve sobre isto. “Serão os portugueses a decidir se há virar de página político, mas o ponto de partida que as sondagens mostram não aponta para tal. 

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A frase do dia.

“Eu não fui condenado por racismo, eu fui condenado por ofensas a uma família.”

André Ventura, debate na SIC-N

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