"Um navio destes não se afunda porque alguém fuma um cigarro": a história do mítico Moskva, o envolvimento da NATO e o impacto disto tudo na guerra da Ucrânia

14 abr, 16:19
Moskva

Era o orgulho da frota russa mas foi construído por ucranianos na Ucrânia. Agora o Moskva está abandonado e a flutuar sem rumo no Mar Negro - depois de ter sido atingido por mísseis ucranianos. O Kremlin não confirma nem nega qualquer ataque, diz só que houve um incêndio. "“É possível que haja a seguir um contra-ataque punitivo da Rússia - não por isto mas acelerado por isto", diz um major-general ouvido pela CNN Portugal

Durante 50 dias dominou o Mar Negro e ajudou a Rússia a bloquear o acesso da Ucrânia aos mares internacionais, mas esta quarta-feira a sorte do Moskva, o navio-almirante da frota russa no Mar Negro, parece ter chegado ao fim. "Não entendemos o que aconteceu", disse, de forma sarcástica, um conselheiro do presidente Zelensky, Oleksiï Arestovitch, após fontes militares ucranianas terem garantido que o navio foi atingido por dois mísseis antinavio. No entanto, Moscovo garante que em causa esteve um incêndio a bordo, que obrigou a evacuar a embarcação, mas sublinha que o navio não foi afundado e será rebocado.  

"Um navio destes não afunda porque alguém fuma um cigarro", afirma o major-general Agostinho Costa, em declarações à CNN Portugal, acrescentando que este ataque é “um golpe muito forte” em termos reputacionais para as forças armadas russas. A bordo do Moskva estariam 510 marinheiros e, para o especialista em assuntos militares, é “muito provável” que existam baixas. “Além disso, este navio, que é o navio-almirante da frota do Mar Negro, tem um peso simbólico muito grande. Isto é um revés muito forte para os russos”, destaca.

Com mais de 186 metros de comprimento, 12 mil toneladas e uma tripulação de quase 500 marinheiros, o Moskva era um dos maiores e mais importantes navios da frota militar russa. Projetado para a marinha soviética, foi construído em 1983 nos estaleiros da cidade de Mykolaiv, no sul da Ucrânia, e o seu primeiro nome era Slava (Glória), acabando por mudar para Moskva (Moscovo) em 1995.

A embarcação está equipada com uma vasta gama de mísseis antinavio P-500 Bazalt, capazes de carregar uma ogiva altamente explosiva ou nuclear, com cerca de mil quilos. Conta também com o apoio do sistema antiaéreo russo S-300, um mecanismo de mísseis terra-ar com um alcance de 100 quilómetros.

“Um navio destes não se afunda com uma granada de mão. Provavelmente a causa do incidente será um ataque com mísseis Neptuno, um projétil moderno de produção ucraniana que tem como objetivo destruir navios. A ser verdade, mostra que a desmilitarização que os russos tanto apregoam não está completa”, explica Agostinho Costa.

Apesar de o possível risco de ataque ser sempre presente num cenário de guerra, o especialista mostra-se surpreendido pela incapacidade da embarcação, que tem vários sistemas defensivos, em evitar um ataque da Ucrânia. Agostinho Costa explica que esse tipo de ataque só pode ter acontecido com recurso ao apoio de informação por parte dos países da NATO.

O Ministério da Defesa da Rússia afirmou esta quinta-feira que o fogo a bordo do navio Moskva, o principal da frota no Mar Negro, está “sob controlo”. As forças ucranianas afirmam ter atingido o navio, mas os russos confirmaram apenas a existência de um incêndio. “Não existem chamas visíveis. O armamento já não está a explodir”, indica o governo russo, acrescentando que os maiores mísseis não foram danificados.

As piadas e a punição

O Moskva participou, nos primeiros dias da invasão, num ataque contra a ilha das Serpentes, localizada no mar Negro, perto da fronteira romena, durante o qual 19 marinheiros ucranianos foram capturados. O incidente ganhou notoriedade pela forma como as forças ucranianas responderam ao pedido de rendição com um “vão-se foder”. Os marinheiros foram posteriormente trocados por prisioneiros russos. Nas redes sociais, multiplicam-se as piadas em torno do alegado ataque ucraniano ao Moskva, com alguns utilizadores a repararem que o navio não foi destruído mas que foi “promovido a submarino”.

Agostinho Costa não acredita numa retaliação direta por parte da Rússia, mas sugere que esta humilhação pode levar a uma aceleração da ofensiva na região do Donbass. “É possível que haja um ataque punitivo, não por isto mas acelerado por isto”, frisa o major-general.

Esta opinião é partilhada pelo comentador da CNN Portugal José Azeredo Lopes, que desvaloriza o impacto militar de um possível ataque ucraniano contra o cruzador, embora refira que estas notícias são importantes para a Ucrânia transmitir “a ideia de um país que continua a resistir e a enfrentar o adversário”. “Um ato espetacular destes, como algumas ações de sabotagem que aparentemente a Ucrânia está a conseguir realizar mesmo dentro do território russo, tem uma dimensão mediaticamente muito apetitosa e simbolicamente mais valiosa. Agora, quanto ao impacto disto na condução das hostilidades ou na capacidade de a Ucrânia resistir, acredito que não é muito significativo.”

Esta guerra faz-se muito através de referências simbólicas e de notícias impactantes do ponto de vista do espaço público, que dão a entender que não existem alvos russos a salvo. “Isso transmite uma capacidade de projeção de capacidade militar que é sempre relevante”, frisa Azeredo Lopes.

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