Estudar nas férias, sim ou não? A resposta não é assim tão simples

10 jul, 11:00
Crianças

Férias são, por definição, tempo de descanso. Mas será assim para todos? As crianças devem aproveitar a pausa de verão para estudar, preparar o ano letivo seguinte ou consolidar conhecimentos? A CNN Portugal ouviu uma psicóloga e um professor que alertam: “questão deve ser analisada de forma criteriosa”

Chegam as férias de verão e, com elas, dois meses com as crianças longe da escola. Há, por isso, a tentação de colocar as crianças a estudar, no sentido de preparar o ano letivo seguinte e consolidar o conteúdo que aprenderam no ano que agora termina. Há até quem aproveite o período de verão para colocar os filhos em explicações. Mas devemos mesmo obrigar os nossos filhos a estudar nas férias? A CNN Portugal foi ouvir uma psicóloga e um professor que confirmam ser uma preocupação dos pais, mas concluem: a pergunta não pode ter uma resposta de sim ou não.

“Estudar nas férias de verão é uma preocupação dos pais que aparece frequentemente em consulta, e deve ser analisado de forma criteriosa, tendo em conta vários fatores, tais como estabilidade emocional da criança, dificuldades de aprendizagem, fraca consolidação das matérias dadas no ano escolar e o número de atividades definidas para o período de férias. Deve por isso, ser avaliado de forma individual”, sublinha Marta Fialho, psicóloga especialista avançada em intervenção precoce.

A orientação da psicóloga é corroborada pela experiência do professor e pai de três filhos Jorge Carvalhais. “Num primeiro momento, estaria tentado a responder, categoricamente, que não. As férias devem servir para realizar atividades de lazer, lúdicas, aprazíveis! Porém, reconsiderei”, confessa o docente.

E Marta Fialho lembra que, por definição, o período de férias “deve ser considerado um momento de gratificação da criança pelo seu esforço durante todo o ano letivo”. Deve, pois ser período em que a criança tenha o prazer de se sentir mais livre e com “horários menos rígidos”.

“Contudo, a evidência científica sugere que o cérebro deve ser estimulado neste período, uma vez que potencia uma maior plasticidade cerebral e ser benéfico ao nível cognitivo e para a evolução das aprendizagens”, sublinha a psicóloga.

Não havendo receitas infalíveis, a especialista defende que é possível exercitar o cérebro sem o carácter “estudo", levando a cabo atividades prazerosas para a criança, que possam estimular o cérebro e até colmatar eventuais fragilidades de aprendizagem.

Psicóloga e professor concordam neste ponto. “A tónica deverá colocar-se no estímulo e no prazer das tarefas, ao invés do aborrecimento e do dever decretado. Deve optar-se por recursos que ajudem a aprender, sem quase se dar por isso”, resume Jorge Carvalhais.

A brincar também se aprende

Resumindo: não é necessário estar sentado a uma secretária com os livros e os cadernos à frente para estudar. “Pode-se levar a criança a parques infantis, andar de bicicleta, jogar á bola, saltar no trampolim e jogar à mata, andebol ou ping-pong de forma a estimular a motricidade global e a coordenação motora”, enumera Marta Fialho.

“Claro que propostas como a leitura de um bom livro deverão ser incluídas porque ajudam, efetivamente, os alunos durante o período estival, a desenvolver capacidades de compreensão textual, de reflexão e de concentração que, só por si, serão importantíssimas no regresso às aulas”, acrescenta o professor Jorge.

Depois de conhecer o seu filho e identificar as necessidades específicas da criança, a psicóloga Marta deixa mesmo algumas sugestões de atividades em que se estuda a brincar, adequando-as a cada situação:

- Crianças do 1º Ciclo: Leitura de histórias, palavras cruzadas, jogos de adivinha, jogo do stop, escrever cartas ou fazer um diário de verão.

“São momentos que estimulam as competências linguísticas, compreensão verbal e organização do pensamento”, explica a especialista.

- Para estimular o cálculo mental: pedir à criança para contar os legumes para fazer uma sopa enquanto cozinham juntos, contar conchas na praia e estimular, assim, a soma e a subtração.

- Para estimular a coordenação motora e a motricidade: levar a criança a parques infantis, andar de bicicleta, jogar à bola ou saltar no trampolim.

- Para estimular a motricidade fina: pintura, recorte, fazer colares e pulseiras de contas, rasgar e colar imagens e realizar origamis.

- Para estimular a atenção e a concentração: jogos lógicos, puzzles, jogos de tabuleiro, descobrir diferenças, procurar detalhes em imagens.

- Para estimular a maturidades e a autonomia: aproveitar para incentivar a criança a responsabilizar-se pelas rotinas do dia-a-dia, como a alimentação, a higiene ou o vestuário.

E quando a professora manda TPC para férias?

É fundamental não contrariar as orientações dos professores responsáveis pela criança. E se houver trabalhos de casa (os famosos TPC) para as férias, é preciso fazê-los.“O adulto deve definir com a criança a quantidade de exercícios para fazer a cada dia, definir os dias da semana a dedicar aos TPC (devem ser dois ou três dias por semana apenas) e o período de tempo por dia, que não deve exceder os 30 minutos”, aconselha Marta Fialho.

A psicóloga lembra ainda os casos particulares de crianças com necessidades educativas especiais, que merecem uma atenção específica. Nestas situações, as atividades devem ser acordadas entre a família e os técnicos especializados que seguem a criança. “É importante, seguir com rigor o plano de intervenção estipulado e definir as atividades para o verão que devem ser também atividades ligeiras, lúdicas e de maior liberdade”, acrescenta.

A importância do descanso

Nas férias também se deve aprender a descansar. É importante para o crescimento físico e emocional.“É de extrema importância que a criança interiorize a importância do descanso, do autocuidado e de se permitir ao prazer. Desta forma, irá desenvolver autoestima, confiança em si mesma e sobretudo a consciencialização de ser merecedora de coisas boas. Este é um fator muito significativo para a saúde mental da criança que de futuro, será um adulto com comportamentos saudáveis”, resume Marta Fialho.  

O professor de Português Jorge Carvalhais concorda em género, número e grau. O docente sublinha que “ao longo das férias escolares, o mais determinante é proporcionar vivências solidárias, de grupo, entre pares ou intergeracionais, que desenvolvam, nos mais jovens, valores e comportamentos humanistas que possam estar presentes durante todo o seu percurso escolar e académico, bem como prevalecer na sua vida laboral posterior”.

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