Mais mísseis sobre o Mar do Japão: Coreia do Norte fez novos disparos, EUA enviam porta-aviões nuclear

6 out, 05:17

Novos lançamentos norte-coreanos esta manhã, em resposta a disparos dos EUA e Coreia do Sul. Porta-aviões americano, movido a energia nuclear, foi enviado para a região. Líderes do Japão e da Coreia do Sul vão conversar, após Rússia e China terem protegido a Coreia do Norte na ONU

A Coreia do Norte voltou a lançar, na manhã desta quinta-feira, dois mísseis balísticos de curto alcance, que caíram no Mar do Japão, aparentemente fora da Zona Económica Exclusiva nipónica. Os disparos foram confirmados pelos ministérios da defesa de Seul e de Tóquio, e terão sido a contra-resposta norte-coreana aos lançamentos de mísseis terra-terra por parte dos EUA e da Coreia do Sul na quarta-feira - por sua vez, estes disparos foram a resposta sul-coreana e norte-americana ao facto de, na terça-feira de manhã, a Coreia do Norte ter lançado um míssil que sobrevoou o território do Japão, pela primeira vez nos últimos cinco anos.

Os disparos desta manhã foram a sexta ronda de lançamentos de mísseis por parte da Coreia do Norte em apenas 12 dias. No total, sobe para dez o número de mísseis lançados em menos de duas semanas pelo regime de Kim Jong-un: nove mísseis de curto alcance e um de alcance intermédio. “Isto é intolerável”, reagiu esta manhã o primeiro-ministro japonês, Fumio Kishida.

Numa atitude pouco habitual, o ministério norte-coreano dos Negócios Estrangeiros justificou em comunicado as "justas medidas de reação do Exército Popular [da Coreia do Norte] face aos exercícios conjuntos Coreia do Sul-EUA". No mesmo comunicado, Pyongyang criticava a reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas, convocada pelos EUA, para discutir a situação na Coreia do Norte. 

No mesmo documento, a Coreia do Norte também condenou Washington por reposicionar um porta-aviões nuclear ao largo da península coreana, dizendo que esta ação representa uma séria ameaça à estabilidade da região.

Porta-aviões nuclear ao largo das Coreias

O disparo na terça-feira de um míssil balístico norte-coreano de alcance intermédio, que sobrevoou o Japão, acabando por cair no Oceano Pacífico, provocou um agravamento na tensão militar em torno da Península Coreana e levou os Estados Unidos a tomar uma decisão pouco comum: sem que tal estivesse planeado, os norte-americanos enviaram para o Mar do Japão, a leste das Coreias, o porta-aviões nuclear USS Ronald Reagan, acompanhado de toda a sua frota de apoio. Os navios chegaram ontem à região, e ainda esta quinta-feira deverão desenvolver novos exercícios tripartidos com meios japoneses e sul-coreanos.

O USS Ronald Reagan é o principal ativo militar do Comando Naval norte-americano nesta zona do Oceano Pacífico - está baseado no Japão, e na semana passada participou em exercícios navais conjuntos com a Armada sul-coreana, coincidindo com a visita da vice-presidente dos EUA, Kamala Harris, a Seul e à Zona Desmilitarizada que separa as duas Coreias. A decisão de enviar o porta-aviões de volta para essa zona é mais um sintoma da escalada de tensão provocada pelos sucessivos ensaios de mísseis por parte do regime de Kim Jong-un.

O lançamento do míssil de alcance intermédio por parte da Coreia do Norte desencadeou intensas movimentações diplomáticas e militares entre os EUA e os seus dois principais aliados nesta região. Joe Biden falou ao telefone com Fumio Kishida e houve também contactos bilaterais diretos dos chefes da diplomacia e da defesa dos EUA com os seus homólogos do Japão e da Coreia do Sul, bem como entre os respetivos conselheiros de defesa nacional. 

Líderes de Tóquio e Seul ao telefone

Também a relação bilateral entre o Japão e a Coreia parece estar a evoluir, refletindo a gravidade da situação. Apesar de estes dois países não terem tradicionalmente as melhores relações (uma herança, ainda hoje, da ocupação nipónica da Coreia até ao final da II Guerra Mundial), a crescente ameaça colocada por Pyongyang está a aproximar os governos de Tóquio e Seul.

Segundo a agência de notícias sul-coreana, o presidente do país e o primeiro-ministro japonês vão falar ao telefone ainda esta quinta-feira, para coordenarem respostas ao aumento da tensão militar. O presidente sul-coreano Yoon Suk-yeol, e o chefe do governo nipónico, Fumio Kishida, voltaram esta quinta-feira a condenar as contínuas provocações do regime norte-coreano, e têm mostrado vontade de ultrapassar as divergências do passado para reforçar a cooperação entre Tóquio e Seul em todas as áreas, mas sobretudo em matéria de segurança e defesa.

Rússia e China protegem Kim na ONU

Japão e Coreia do Sul apoiam também a ideia de novas sanções da ONU contra a Coreia do Norte. Não há dúvidas de que os testes de mísseis violam várias resoluções aprovadas pelo Conselho de Segurança nas últimas duas décadas, conforme afirmou o próprio secretário-geral da ONU, António Guterres. Dessas violações deveriam decorrer novas consequências - e foi essa a proposta feita pelos EUA numa reunião de emergência do Conselho de Segurança que decorreu esta quarta-feira.

Porém, tanto a Rússia como a China, que são membros permanentes e têm direito de veto, travaram à partida qualquer iniciativa. A oposição destes dois países a qualquer ação contra a Coreia do Norte foi tal que nem queriam a realização de uma reunião pública do Conselho de Segurança sobre o assunto, argumentando que esse encontro em nada contribuiria para aliviar a situação. 

O representante da China disse que o Conselho de Segurança precisa de desempenhar um papel construtivo "em vez de confiar apenas em forte retórica ou pressão". "Discussões e deliberações deveriam contribuir para uma dissuasão, em vez de alimentar uma escalada. Deveriam promover o diálogo em vez de alargar as diferenças, e forjar a unidade em vez de criar divisões", afirmou. Na mesma linha, a representante da Rússia considerou que "a introdução de novas sanções contra a RPDC [Coreia do Norte] é um beco sem saída" e traz "zero resultados".

A Rússia e a China são aliados tradicionais da Coreia do Norte, mas apesar disso aprovaram nos últimos anos diversas resoluções condenando o programa nuclear e de armamento de Pyongyang. Porém, com a recente fratura entre democracias e autocracias - provocada pela invasão russa da Ucrânia e agravada pela pressão da China sobre Taiwan -, Moscovo e Pequim têm impedido qualquer ação contra o país de Kim Jong-un.

A Coreia do Norte “tem gozado de proteção por parte de dois membros deste conselho", acusou a embaixadora dos EUA nas Nações Unidas, Linda Thomas-Greenfield. "Em suma, dois membros permanentes do Conselho de Segurança validaram Kim Jong-un."

"Este é um esforço claro da China e da Rússia para recompensar a [Coreia do Norte] pelas suas más ações, e não pode ser levado a sério por este conselho", acusou a diplomata norte-americana.

Dos 15 membros do Conselho de Segurança, uma maioria de nove subscreveu uma declaração conjunta condenando as provocações militares norte-coreanas:  Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Albânia, Brasil, Índia, Irlanda, Noruega e Emirados Árabes Unidos.

Japão admite “todas as opções”

O disparo norte-coreano de terça-feira tem sido visto na região como um ponto de viragem em relação aos sucessivos lançamentos de mísseis deste ano - foi o míssil do Norte que percorreu a maior distância de que há registo (mais de 4.600 quilómetros), tendo sobrevoado o Japão, o que não acontecia de 2017. Este foi o sétimo míssil norte-coreano a sobrevoar território nipónico, o que deixou o Japão em alerta, com a população de três regiões a ser aconselhada a ficar em casa ou procurar abrigo. O projétil sobrevoou uma província no Norte do Japão durante cerca de 1 minuto, tendo depois prosseguido a sua trajetória para sudeste, até cair no oceano, a mais de 3 mil quilómetros da costa japonesa.

Em resposta, EUA, Japão e Coreia do Sul fizeram exercícios militares conjuntos na terça-feira, e caças norte-americanos e sul-coreanos lançaram bombas de alta precisão sobre alvos fictícios numa ilha desabitada no Mar do Japão. Também aconteceram exercícios aéreos conjuntos entre norte-americanos e japoneses.

Ontem, numa manobra pouco comum, a Coreia do Sul e os EUA fizeram lançamentos de mísseis terra-terra. Um dos mísseis lançados da Coreia do Sul explodiu logo após o disparo, mas sem provocar danos ou vítimas - porém, esse incidente teve grande relevou na comunicação social sul-coreana em tornou-se um embaraço para o governo, que pretendia fazer uma demonstração de força e capacidade ofensiva.

Num telefonema para o ministro da Defesa japonês, o secretário da Defesa dos EUA, Lloyd Austin, reiterou o compromisso "inabalável" de Washington com uma política de dissuasão alargada, que inclui a possibilidade de uso de armas nucleares, para defender o seu aliado. Os dois chefes de Defesa concordaram em reforçar a capacidade da aliança para "dissuadir e responder" à ameaça norte-coreana.

Durante essas conversações, Yasukazu Hamada reiterou que o governo japonês está a considerar "todas as opções" para "reforçar drasticamente" as capacidades de defesa do país - incluindo um forte aumento do orçamento militar e a possibilidade de adquirir "capacidade de contra-ataque" que permita atingir bases inimigas, apesar da Constituição pacifista do Japão.

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