Comunidade judaica recebeu mais de 20 milhões para certificar sefarditas, mas garante que foi tudo legal e aprovado pelo Governo

12 mar, 23:07
Daniel Litvak, responsável da Comunidade Israelita do Porto

Quase 90% dos pedidos de nacionalidade entregues ao Estado português têm certificados passados no Porto. A comunidade diz que usa critérios mais simples que em Lisboa

A Comunidade Israelita do Porto confirmou à CNN Portugal que recebeu, legalmente, dezenas de milhões de euros, nos últimos seis anos, no âmbito da certificação de descendentes de judeus sefarditas que procuram a nacionalidade portuguesa.

As contas não são difíceis de fazer tendo em conta que os dados do Ministério da Justiça revelam que 88% dos pedidos de nacionalidade foram feitos com um certificado passado pela Comunidade Israelita do Porto.

Ou seja, em seis anos a Comunidade passou pelo menos 100 mil certificados, o que a 250 euros cada (valor do donativo para avaliar cada caso) significa uma receita a rondar os 25 milhões de euros.

Numa entrevista até agora inédita, feita há dias, antes da operação da Polícia Judiciária, o rabino Daniel Litvak - detido na sexta-feira e libertado com termo de identidade e residência - confirmava estas contas, mas sublinhava que o dinheiro servia para pagar as despesas administrativas com cada processo e também foi usado para apoiar uma série de causas sociais em Portugal e no estrangeiro, bem como construir dois novos museus no Porto (o Museu Judaico e o Museu do Holocausto) e fazer dois filmes estreados em 2019 e 2020.  
Os dois filmes ("Sefarad" e "1618") tinham como objetivo promover a história da comunidade judaica portuguesa e o último ganhou dezenas de prémios internacionais.

"A nossa análise é mais fácil"

Sobre a discrepância entre o número de certificados passados em Lisboa e no Porto, o rabino explicou à CNN Portugal que a razão estava relacionada com os critérios completamente diferentes seguidos pelas duas comunidades judaicas.

Em Lisboa a Comunidade Israelita também passa certificados de descendência sefardita a pessoas que já não são judeus, sendo feita uma análise genealógica mais complexa e demorada.

No Porto, pelo contrário, segundo Daniel Litvak, são pedidas provas de que o próprio ou a família próxima têm uma tradição judaico-sefarditia na família, nomeadamente certificados de casamento ou de nascimento, bem como cartas rabínicas passadas nos países de origem.    

Por outro lado, no Porto só se certificam judeus e o rabino explica que não procuram a origem exata do familiar que viveu, há séculos, em Portugal, um trabalho que seria muito difícil ou praticamente impossível tendo em conta que estamos a falar de pessoas que em muitos casos saíram do país há vários séculos.

O rabino explica que os critérios usados no Porto foram - tal como os de Lisboa - aprovados pelo Ministério da Justiça e defende que seria este o objetivo da lei aprovada pelo Parlamento em 2015 como reparação histórica pela expulsão dos judeus sefarditas de Portugal.  

"Para uma análise genealógica não precisavam das comunidades israelitas, era possível colocar um historiador a analisar as genealogias", refere o rabino.

"Se a pessoa demonstra que o avô fazia parte da comunidade portuguesa de Amesterdão [por exemplo], tem um apelido sefardita e é judeu, é claro que tem uma origem sefardita e nós fazemos a certificação", explica Daniel Litvak.

"A nossa análise é mais fácil de fazer que a de Lisboa, a resposta é mais rápida e a maioria das empresas que trabalha com judeus procura-nos", conclui o rabino da Comunidade Israelita do Porto, justificando, assim, o elevado número de certificados passados nos últimos anos.  

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