Os Coldplay têm assim tantos fãs ou esta "loucura" foi apenas o resultado de uma boa estratégia de marketing?

26 ago, 16:47
Concertos dos Coldplay em Londres (Getty Images)

Milhares de pessoas ficaram durante horas em filas de esperas - reais ou virtuais - para comprar bilhetes para os concertos dos Coldplay. Uma especialista em marketing e um especialista em música ajudam-nos a compreender o fenómeno

Em poucas horas, os Coldplay venderam 200 mil bilhetes para quatro concertos a realizar em maio, em Portugal, deixando de fora outros tantos milhares de pessoas que ficaram em filas de espera - reais ou virtuais - mas não conseguiram comprar bilhete. “É inédito, nunca houve tanta procura para um evento em Portugal”, admitiu a responsável pela Ticketline. Mas não foi só em Portugal. Esta quinta-feira, também foram colocados à venda os bilhetes para os outros concertos da digressão e para Amesterdão, Manchester ou Barcelona também foram anunciadas datas extra e também havia filas de espera enormes para comprar ingressos, com 400 mil ou meio milhão de pessoas a desesperar em frente ao computador. Já sabíamos que os Coldplay eram populares, mas como se explica esta "loucura"?

"Isto não é surpreendente e até se explica de uma forma muito simples: é a soma da fome com a vontade de comer", começa por dizer à CNN Portugal Davide Pinheiro, crítico musical e autor da página Mesa de Mistura. Primeiro, independentemente de se gostar ou não da música, há que reconhecer, que "os Coldplay são, provavelmente, a maior banda deste século". "Venderam milhões de discos, têm vários singles de sucesso, continuam a passar na rádio e estão presentes no streaming. Podem não ser um nome consensual, mas são transversais. Numa altura em que já não temos assim tantas bandas de grande escala, os Coldplay conseguem essa abrangência e uma transversalidade", chegando a um público muito vasto.

Depois, recorda o crítico, "tivemos um hiato de dois anos em que os grandes acontecimentos estiveram proibidos". "Existe uma necessidade coletiva de ir a concertos e a festivais. Este ano, quase todos os grandes festivais esgotaram ou superaram os números de público de antes da pandemia. Existe esta dimensão de querer participar em grandes acontecimentos, de partilhar a experiência de um concerto em comunhão com milhares de pessoas. Estes comportamentos emocionais do público já existiam antes, mas são amplificados pelas redes sociais", explica Davide Pinheiro. No período de pandemia, as redes sociais desenvolveram-se imenso, tornámo-nos muito mais ligados, e isso nota-se.

O crítico recorda, por exemplo, o fenómeno que foram os concertos da dupla Miguel Araújo e António Zambujo, que em 2016 esgotou 26 coliseus, anunciando sucessivamente novas datas. Ou, por exemplo, Ed Sheeran, que em 2019 encheu por duas vezes o Estádio da Luz. "Se fosse agora, com estas condições, penso que seria um fenómeno semelhante a Coldplay", atira.

Para Hélia Gonçalves Pereira, especialista em marketing, a palavra-chave para entender o que se passou na quinta-feira é "escassez". "É um termo económico, mas acho que se aplica perfeitamente aqui", diz à CNN Portugal.

Antes de mais, porque "estivemos num contexto de pandemia, durante dois anos deixámos de poder fazer muitas coisas e de experienciar um conjunto de liberdades", recorda. "Durante a pandemia, nós perguntávamo-nos o que as pessoas iriam fazer a seguir: será que iria haver uma contenção, as pessoas iriam desabituar-se de fazer determinadas coisas, ou, pelo contrário, iriam procurar, quase freneticamente, fazer tudo o que tinha sido proibido e participar em todos os eventos. E o que se verificou foi esta segunda hipótese. Aquilo que temos reparado no último ano é que as pessoas escolheram vivenciar as experiências no mínimo com a mesma intensidade de antes, se não mais. Isso é visível, por exemplo, no turismo, que já superou os níveis pré-pandemia, mas também em toda a indústria de eventos."

A escassez refere-se também ao facto de os Coldplay "terem estado desaparecidos durante alguns anos". "Os fãs estavam ávidos por concertos", diz a reitora da Universidade Europeia: "Estas duas variáveis juntas criaram este fenómeno, que não aconteceu só em Portugal. É um fenómeno global."

Por fim, a escassez pôde também verificar-se no número de concertos: "Com a estratégia de anunciar apenas um concerto pretendia-se realmente provocar esta pressão no público. Deu-se a entender que este seria um evento único a que só um grupo reduzido de pessoas teria acesso. Isto estimula a vontade de participar. E, assim, a loucura estava instalada".

Davide Pinheiro explica que não é a primeira vez que os músicos e os promotores recorrem a esta estratégia de anunciar primeiro só um concerto para depois revelar datas extra. "É algo que já se faz há bastante tempo, até para avaliar como será a resposta do público, mas sobretudo como estratégia de marketing porque cria um efeito nos fãs: o concerto extra é anunciado como algo especial, como uma surpresa", diz. "Mas neste caso sequer houve qualquer efeito surpresa, acho", porque a hipótese de haver quatro concertos já tinha sido avançada pelo presidente da Câmara de Coimbra e "as pessoas já estavam à espera que isto acontecesse".

Hélia Gonçalves Pereira concorda com Davide Pinheiro ao dizer que esta estratégia foi claramente potenciada pelas redes sociais. À medida que as pessoas iam partilhando a sua experiência nas filas de espera, iam criando noutras pessoas a vontade de, também elas, irem ao concerto ou, simplesmente, tentarem comprar um bilhete. 

"A componente experiencial está cada vez mais presente no universo musical. Para além dos fãs da música, há muitas pessoas que querem ir a um evento onde só alguns podem estar. Porque existe de facto um valor de carácter intangível nesta experiência. Por um lado, o da experiência partilhada por aquelas pessoas que participam no evento, naquele momento. Por outro lado, das pessoas que o vão partilhar nas redes sociais. E, se as redes móveis o permitirem, naqueles dias de maio vamos ver milhares de selfies e reels de pessoas a dizer: eu estou aqui", explica a especialista em marketing.

"Antes da pandemia, já vivíamos num mundo da digitalização. Hoje, em dia, isso é ainda mais verdade. E as bandas sabem que a sua notoriedade aumentará exponencialmente quanto mais forem as partilhas dos espectadores das experiências que tiveram com o grupo. Por isso alimentam este tipo de fenómenos", conclui Hélia Pereira Gonçalves. "As bandas são produtos e são marcas, que arrastam milhões de pessoas e geram milhões de euros. Este tipo de fenómenos interessa a todos: à banda, ao promotor, à cidade de Coimbra que já tem alojamentos lotados para esse dia e vai ter muito turismo, restaurantes cheios, etc.."

Ao olhar para esta loucura em volta dos Coldplay, Davide Pinheiro não consegue deixar de pensar em como a história do rock esteve sempre tão ligada à rebeldia - fosse pela música, fosse pelos músicos - desde Elvis Presley ou os Beatles, passando pelos Doors, os Rolling Stones, Ian Curtis ou Kurt Cobain, até mesmo por figuras controversas como Michael Jackson ou Prince. "Pelo contrário, os Coldplay, assim como Ed Sheeran, são os bem comportados, os bons alunos", conclui o crítico. "Tem tudo a ver com o tempo que vivemos. É a vitória da normalidade e da neutralidade."

Apesar de não serem adorados pela maioria da crítica especializada, "os Coldplay não são a pior banda do mundo e têm até algumas boas canções". "A sua música não é detestável, não gera ódios. Pode gerar alguma indiferença, é aquela música sem sal, sensaborona. Mas o que podemos concluir é que é essa música que vinga. A rebeldia já não tem tanto sucesso. A contra-cultura está muito distante das multidões, está longe do centro", diz Davide Pinheiro. 

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