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O dilema chinês

4 mar, 09:19

A China acaba de desmentir a ideia, que por aí corria, de que pedira à Rússia que não iniciasse o ataque militar à Ucrânia antes do termo dos jogos olímpicos de inverno, imagina-se que para não afetar o brilho e o prestígio que pretendia retirar do exercício, já de si marcado por boicotes vários. E terá dado como prova de que desconhecia as intenções agressivas russas o facto de agora estar a tentar, com grande dificuldade, exfiltrar os cerca de mil chineses que viviam na Ucrânia.

Mas o que se passou na Ucrânia estará a trazer à China outras preocupações. É que a sua abstenção no Conselho de Segurança da ONU, somada ao sentido idêntico de decisão na posterior votação na Assembleia Geral, rimam bem com o tom muito colaborante que já emanava da declaração conjunta que Xi Jinping assinou com Vladimir Putin, a montante da abertura dos jogos, naquela que foi uma rara, e inédita nos últimos dois anos, deslocação ao estrangeiro do líder russo.

A circunstância de, nesse texto, China e Rússia concordarem que algum gás e petróleo russos passariam a ser vendidos à China também está em sintonia com a expectável redução das exportações desses produtos para os Estados europeus, que, à época, já constava que iria ser a consequência das previsíveis sanções, em caso de agressão à Ucrânia.

Foi a China enganada por Putin? Ou Rússia e China são, afinal, valores entendidos que, neste contexto, procuram disfarçar que têm mais em comum do que querem fazer parecer?

Vale a pena revisitar o comunicado chino-russo para lembrar que nele se condena a expansão da NATO, movimento que Moscovo interpreta como um acossamento estratégico que reforça as suas preocupações de segurança e justifica a sua ação na Ucrânia.

A China, ao ter observado, nos últimos meses, o reativar da estrutura estratégica QUAD (com os EUA, Índia, Japão e Austrália) e o nascimento da estrutura de segurança AUKUS (com o Reino Unido e a Austrália), percebeu, o que aliás não era um segredo para ninguém, que os Estados Unidos, com amplo e raro consenso político interno, acabavam por ir concretizar aquela que se sabia ser uma linha estratégica essencial da falhada “administração Clinton”: uma forte política de contenção da China.

A China também sabia que os EUA estavam disponíveis para ir muito longe nesse domínio, desde logo lançando sinais fortes de reação quanto às ambições de Pequim face a Taiwan, mas, igualmente, procurando introduzir uma linguagem sobre o perigo chinês no renovado Conceito Estratégico da NATO.

As questões da NATO, num tempo em que, cada vez mais, esta olha muito para desafios estratégicos “out of area”, começam a interessar bastante à China. E, neste particular, seguramente coincidiram com os russos na avaliação que estes fazem de que, afinal, quem hoje dirige a política externa americana é gente que vem da Administração Obama, numa linha que Clinton tinha dado mostras de ir prosseguir, de acaso tivesse sido eleita face a Trump.

Mas, afinal, qual é, concretamente, o grau de cumplicidade da China com a Rússia?

Há a sensação de que a atual situação pode estar, afinal, a provocar um grande desconforto à China, mas que esta não pode evitar. A erupção agressiva do temor russo face ao ocidente não tinha condições para ser travada pela China, tanto mais que, como vimos, vive uma ameaça idêntica na sua área geopolítica.

A China percebe que os sinais vão no sentido de se estarem a estabelecer as condições para uma nova Guerra Fria em que, desta vez, ela será um polos. Dava sinais de se estar a preparar para esse cenário, contando mesmo com a possibilidade de, dentro da Europa, poder haver uma tendência para mimetizar a atitude americana. Mas teria, e já veremos porquê, alguma esperança em que essa tendência não viesse a converter-se numa unanimidade contra si. Ora o sobressalto estratégico que, desde há poucos dias, a Europa sofreu, por virtude da violência russa na Ucrânia, acabou por mudar alguns dados fundamentais do jogo.

Pequim teve de enfrentar um dilema e nenhuma das saídas era favorável. Ou se afastava abertamente da Rússia, renegando a partilha do seu mal-estratégico face aos EUA ou assumia uma atitude de “neutralidade colaborante”, neste caso acabando por ficar inevitavelmente ligada ao progressivo isolamento internacional de Moscovo. Ao parecer ter optado por esta última alternativa, a China corre um imenso risco. E só pode dele sair pela já aventada implicação no processo negocial ou por um crescente afastamento tático perante Moscovo, se, como é possível, a situação no terreno da guerra na Ucrânia vier atingir pontos ainda mais inaceitáveis, aos olhos escandalizados da comunidade internacional.

Uma grande esperança para a China, que agora se pode converter num imenso problema, no quadro europeu, chamava-se “Nova Rota da Seda”. Vale a pena recordar que a China tinha a Ucrânia como um ponto importante desse seu plano estratégico, em matéria de infraestruturas, que serviriam para alavancar a sua expressão comercial e de investimentos no futuro. E que alguma da Europa de Leste, em especial a Polónia, estavam no centro desse projeto. Agora, perante a “cumplicidade” da China com a Rússia, com o novo movimento agregador europeu a que se assiste, será que esses países vão continuar a manter-se empenhados na “Nova Rota da Seda”?

Vale a pena estarmos atentos aos próximos movimentos da China em face da crise ucraniana.

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