“Papa vai receber doação portuguesa de texto quinhentista”. Cardeal Tolentino conta o que descobriu sobre a imagem do País no Vaticano

15 jun, 08:00
O cardeal português D. José Tolentino Mendonça

José Tolentino de Mendonça conta as histórias e os segredos que estão guardados na biblioteca do Vaticano e revela que este mês será entregue a Francisco um documento "muito importante para a literatura" de Portugal

O Papa Francisco vai receber um importante documento para a sua biblioteca pessoal. Trata-se de uma doação nacional, revelou o Cardeal José Tolentino de Mendonça, responsável pela Biblioteca Apostólica Vaticana e pelo arquivo da Santa Sé, no seminário para jornalistas “O Vaticano por dentro e in loco”, que decorreu em Roma, na Universidade Pontifícia de Santa Cruz.

“Este mês vamos receber uma doação de Portugal de um texto quinhentista que é muito importante para a literatura portuguesa”, explicou o cardeal, sublinhando que na biblioteca do Vaticano já há um “cancioneiro das Cantigas de Amigo”. Agora, esta nova doação, diz, vai “enriquecer” ainda mais o que está guardado na Santa Sé.

Depois de ter sido nomeado, em 2018, para o cargo de Arquivista e Bibliotecário da Santa Igreja Romana, Tolentino conta que uma das suas “curiosidades” foi tentar perceber “como é que a biblioteca do Vaticano espelha a imagem de Portugal”. E não tardou a descobrir: “É um país muito diferente da imagem psicológica que temos de Portugal, da ideia que interiorizámos de ser um país na cauda Europa, com dificuldades em afirmar-se internacionalmente, um país sem dimensão para comandar, inovar e trazer novidade. Na globalização que as Descobertas representaram, a potência científica de Portugal é uma coisa verdadeiramente extraordinária”. No entanto, acrescenta, os portugueses não têm essa perceção. “Achamos que não podemos concorrer com os grandes. Mas ali éramos os grandes”, refere, explicando que, através do que está guardado naquela biblioteca, se percebe que os filósofos e matemáticos portugueses, entre outros, eram publicados em Lisboa, mas também publicados e traduzidos em Veneza ou Hamburgo. “Toda essa aventura está conservada na biblioteca”.

Por isso, para o homem que cuida dos livros e manuscritos do Papa, não há dúvida de que o conjunto do que está conservado nos 80 mil manuscritos, no milhão e 600 mil livros, nos milhares de medalhas e nos outros tantos desenhos “serve para contar a história da humanidade”.   E é vital para "afirmar a identidade dos povos”. Ainda recentemente uma delegação do Centro Nacional de Cultura de Portugal visitou o arquivo apostólico e um dos documentos que lhes mostraram “foram 11 respostas que o dominicano  Bartolomeu de las Casas deu acerca dos índios: se tinham alma, se deviam ter educação, se deviam ou não ser batizados". “Pode parecer uma violência cultural, mas não eram questões claras naquela época”, diz.

Bunker para proteger as obras

Na biblioteca e arquivo da Santa Sé há de tudo. Estão ali guardados os dois mil manuscritos de músicas da Capela Sistina, por exemplo. Ou seja, toda a música que se fez para ser executada na Capela Sistina, que conta o Cânone do Ocidente. Está também o testemunho mais antigo do Evangelho, um papiro que conta o final do Evangelho de Lucas e o início do Evangelho de João, datado do século II e que foi oferecido por um mecenas norte-americano ao Papa Bento XVI. E é também naquele espaço que se encontra toda a biblioteca da Rainha Cristina da Suécia, que se converteu ao catolicismo e abdicou da coroa.

Se algumas das obras são compradas, como a biblioteca desta monarca europeia, muitas outras são doadas, como vai agora suceder este mês com o importante texto quinhentista português. As obras vindas de Portugal têm sido várias. Ainda recentemente foram dados ao Papa desenhos contemporâneos portugueses do fundo Maria da Graça e Vitor Carmona e Costa.

Mas ali, nota o cardeal Tolentino, também há muitos outros documentos que permitem identificar os mais variados povos, que foram vivendo no passado.  “Recebemos todos os meses pedidos de povos muito pequenos à procura da sua memória. Querem saber se temos gramáticas ou textos com as suas línguas, Se temos algum documento que fale da sua existência. E normalmente nós temos”

Apesar de já estar há quatro anos na Biblioteca e arquivo do Papa, o cardeal diz que ainda hoje se “espanta” com a visão dos 80 mil manuscritos conservados num bunker, a uma certa temperatura, luz e estabilidade. E com máxima segurança.

Todas as noites, dentro dos muros do Vaticano, os bombeiros fazem uma ronda pela biblioteca do Papa e o arquivo apostólico. “São os últimos seres humanos que ali passam diariamente”, conta o cardeal José Tolentino de Mendonça, explicando que a função deles é garantir  “que está tudo bem”. E este é também um sinal do valor e da importância do que ali está guardado. “A biblioteca contém muitos mundos dentro. As bibliotecas são muito perigosas. E por isso tantas foram bombardeadas e queimadas. Quando um país invade outro, a primeira bomba é para a biblioteca e para o arquivo. Sem essas estruturas há uma dimensão de identidade que não se pode mais afirmar”.

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