O que todas as mães e todos os pais devem aprender e saber sobre Archie Battersbee, em coma aos 12 anos - e que tem a família dele (e a ONU) contra os médicos

2 ago, 13:47
Archie Battersbee

Archie Battersbee ficou em coma depois de um desafio viral do Tik Tok - mas não é caso único. Saiba o que fazer para proteger os seus filhos

Hollie Dance chegou a casa e deparou-se com o filho, Archie Battersbee, de 12 anos, inconsciente, com uma ligadura ao redor do pescoço. Aconteceu a 7 de abril deste ano no Reino Unido: a mãe acredita que este foi o resultado de um desafio viral da rede social Tik Tok, conhecido como "Blackout Challenge", que consiste em apertar o pescoço até se perder a consciência por falta de oxigénio.

A criança foi transportada para o Royal London Hospital, em Londres, onde foi diagnosticada com "morte cerebral". O diagnóstico foi o início de uma batalha judicial entre o hospital e os pais de Archie, que se recusaram a aceitar a recomendação dos médicos para desligar as máquinas de suporte de vida que têm mantido os sinais vitais da criança, que está em coma há três meses.

Os médicos argumentam que o corpo da criança vai colapsar eventualmente, mesmo com os tratamentos de suporte de vida, mas a família mantém a esperança e recusa-se a acreditar que este será o desfecho de Archie. O caso foi a tribunal e os pais chegaram a recorrer às instâncias internacionais, nomeadamente à Organização das Nações Unidas (ONU) no âmbito da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, que escreveu uma carta dirigida aos médicos daquele hospital a apelar para que as máquinas continuem ligadas.

Porém, a Justiça britânica rejeitou o apelo da ONU, argumentando que o organismo não possui força vinculativa sob a lei nacional e, após vários requerimentos e deliberações, os juízes deram razão aos médicos, considerando que a manutenção dos tratamentos de suporte de vida não seriam do "melhor interesse" para a criança.

Juiz diz que Archie "já não é o mesmo menino" que os pais conhecem

Os três juízes do tribunal decidiram adiar o fim do tratamento de Archie durante 48 horas - até esta quarta-feira - para permitir que os pais da criança façam um requerimento junto do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos para que considere o caso. Andrew McFarlane, um dos juízes que tomaram a decisão, disse que a criança "já não é a mesmo menino da fotografia" que se tornou viral após a divulgação do caso. Archie é agora "alguém cujas funções corporais são todas elas mantidas por meios artificiais”, acrescentou.

Archie Battersbee, o menino de 12 anos que foi diagnosticado com morte cerebral após um desafio na Internet (D.R.)

À saída do Royal Courts of Justice, em Londres, Hollie Dance garantiu que não vai desistir do filho: "O sistema não deveria ter permissão para fazer isto às pessoas. Tudo o que pedi desde o primeiro dia foi tempo. Estamos a falar do meu menino e eu vou lutar tanto quanto possível."

Tal como prometido, os pais de Archie recorreram da decisão através do Supremo Tribunal, que, de acordo com a Sky News, confirmou ter recebido o pedido, o qual merecerá a atenção do tribunal "como uma questão de urgência". Assim, os médicos terão de prolongar o tratamento de suporte de vida de Archie, pelo menos até que o Supremo Tribunal se pronuncie sobre a questão.

O caso de Archie não é único - de acordo com o The Washington Post, são já várias as famílias que enfrentam um desfecho destes na sequência do desafio do Tik Tok. Nylah Anderson, uma menina de 10 anos, natural de Chester, no estado norte-americano da Pensilvânia, foi encontrada inconsciente no quarto em dezembro de 2021. Passado cinco dias a receber cuidados médicos no hospital, Nylah acabou por morrer.

Outras famílias de vários países denunciam situações semelhantes ao longo dos últimos dois anos: James Boyd-Gergely, um menor de 14 anos, da Austrália, morreu depois de participar no desafio em abril de 2020, e o mesmo aconteceu com uma menor de 10 anos, de Palermo, Itália, que morreu em janeiro do ano passado. 

Em declarações ao The Washington Post, na altura em que se soube da morte de duas crianças de 12 anos - uma de Colorado e outra de Oklahoma, nos Estados Unidos - em 2021, um porta-voz do Tik Tok classificou o desafio como "perturbador", acrescentando, contudo, que as pessoas parecem aprender sobre o mesmo através de outras fontes além do Tik Tok, sendo aliás "um desafio que já existia" antes do surgimento da rede social [criada em 2016]. "Nunca foi uma tendência do Tik Tok", sublinhou.

"Não vale a pena proibir"

Face à gravidade destas situações, é natural que os pais se questionem sobre o que devem fazer para evitar que os seus filhos caiam na tentação de imitar os conteúdos a que assistem na Internet, tal como o fazem com as famosas danças do Tik Tok e outros desafios da rede social. Mas desengane-se quem acredita que proibir o acesso das crianças aos conteúdos é a solução.

De acordo com a psicóloga Bárbara Ramos Dias, especialista em Psicologia do Adolescente e autora do livro "Consegues Tudo o Que Queres", que explora este tema, "não vale a pena proibir" o acesso às aplicações, até porque as crianças "têm acesso a estas aplicações nas escolas" quando interagem com os colegas. A solução passa, por isso, por "alertar para os perigos e ensinar a navegar na Internet de forma segura", tal como ensinam os filhos "a atravessar a estradam, a pôr a mesa ou a não aceitar nada de desconhecidos na rua".

"Cabe-nos dar-lhes responsabilidade, maturidade, ensiná-los a dizer que não. Se controlarmos ou proibirmos, aí é que eles vão fazer muito pior", diz, invocando a velha máxima de que "o fruto proibido é sempre o mais apetecido".

Para os pais que acreditam que abordar o assunto pode ter o efeito contrário, isto é, pode despertar o interesse das crianças para estes conteúdos, a psicóloga Bárbara Ramos Dias garante que o pior mesmo é não mencionar estes temas e não alertar para os perigos: "Devemos alertá-los para que estejam preparados para, se isso acontecer, eles saberem dizer 'nã'o."

O controlo parental à distância

A psicóloga e psicoterapeuta Tânia Annes, da Clínica da Mente, também considera que proibir não é a solução, mas defende que "os pais têm de ter alguma autoridade nesta matéria", desde logo através do controlo parental dos conteúdos e do tempo que as crianças passam na Internet. Já existem aplicações que permitem fazer isso mesmo, como a Family Link da Google, que os pais podem instalar nos seus dispositivos e controlar à distância o que as crianças podem aceder quando utilizam telemóveis e tablets.

"Todas as aplicações têm essas restrições de conteúdos do que se pode ver, do número de horas que eles podem estar em frente ao ecrã, portanto os pais devem valer-se e devem utilizar esses controlos parentais para bloquear determinados conteúdos que não são adequados para a idade das crianças", diz.

Além das aplicações de controlo parental, Tânia Annes sugere que os pais não permitam o acesso das crianças às palavras-passe das aplicações das redes sociais, de modo a terem de pedir aos pais a autorização nesse sentido.

"Não podemos dar um telemóvel a uma criança e deixar que ela navegue livremente na Internet sem qualquer supervisão. Isto não é educar", sublinha

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