O poder de Anitta

29 jun, 20:47
Anitta no Rock in Rio Lisboa (Miguel A. Lopes/Lusa)

Porque haverá tanto escárnio em torno de Anitta? Ainda antes do concerto, um repórter em direto passava em revista os artistas que iam tocar nesse dia. De todos - todos homens - elencou um conjunto de sucessos profissionais. Sobre Anitta - mulher -, reduziu-a a uma artista que tinha perdido a bagagem com a roupa para o concerto, mas pouco importava porque usava pouca roupa em palco. Nos últimos anos tenho lido sobre funk. Como nasceu na favela, mas também como se tornou uma forma de protesto. Houve miúdos a cantar funk em São Paulo porque a escola fechou e ficaram sem aulas. Queriam estudar. Pessoas como Anitta não só contribuíram para retirar algum do estigma associado ao funk, como, através dele, conseguiram duas coisas importantes: ascensão social e difusão de uma mensagem. Anitta está a ser criticada por ter defendido a Amazónia. Também defende os direitos das mulheres, os diretos LGBT e outros mais. Mas o que importa isso ao lado de uma bandeira que segurou durante breves instantes? “É burra, não foi às aulas”, li por aí. Ao mesmo tempo criou um império de sucesso, sendo uma das brasileiras com maior projeção internacional. Além disso, faz - e bem - aquilo que bem entende com o seu corpo. Cresceu por conta própria numa dimensão que pode inspirar tantos outros que hoje ouvem funk da e na favela. Mas, para o tal repórter e outros que tais, é apenas alguém que usa pouca roupa. Até quando vamos continuar com este discurso impune?

Foi este o texto que escrevi e através dele percebi o poder de Anitta, mas, sobretudo, o poder da palavra. Depressa a mensagem chegou à própria. Anitta partilhou o meu texto no Instagram, onde tem mais de 62 milhões de seguidores, e respondeu à pergunta que escrevi propositadamente de forma retórica para provocar uma reflexão sobre um tipo de discriminação de género: mais camuflada, mas, simultaneamente, a mais perigosa - a que se entranha sem que nos apercebamos dela. “Li esse texto e resolvi responder aqui. Por que? Porque tudo que estimula mudança ou evolução incomoda (qualquer tipo de mudança). Até quando? (Ele pergunta) até quando eu morrer, claro. Aconteceu igual a rainha Carmen Miranda (aliás, perfeita junção de Portugal e Brasil, mas hoje em dia apenas, pois na época ela era ‘vergonha nacional’). Carmen não aceitava se submeter a ser o que o povo queria para ser amada. Ela queria revolucionar e ser ela mesma sem ‘papinho furado’”, respondeu-me Anitta.

Parece simples, mas não é.

Escrevi sobre uma injustiça - como já denunciei tantas outras -, nunca imaginando que a própria Anitta fosse lê-lo. Escrevi-o em casa, onde assisti ao concerto através da televisão. O texto ficou viral. Combinados, a minha partilha chegou a quase um milhão de pessoas só através da minha página. Sem contar com os 62 milhões a que Anitta chega todos os dias e as milhares de partilhas por quem se indignou. Todos temos direito à palavra. Se todos usarmos esse direito para passar uma mensagem: a quantos milhões conseguimos chegar? Mas não nos iludamos. Seremos, ainda assim, poucos. Haverá sempre alguém que nascerá numa posição de privilégio. Ou que se julga numa posição de privilégio. Será preciso explicar vezes sem conta - aos que já nasceram e aos que estão por nascer - que somos todos iguais. Mesmo que a sociedade insista em fechar-nos em gavetas. “Se é mulher é inferior, se tem sucesso que horror, se rebola ainda pior”. É este o preconceito opressor. É possível ouvir Anitta e ao mesmo tempo Chopin. É possível rebolar e ao mesmo tempo estudar. É possível ser mulher e ao mesmo tempo ter poder.

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