2009: Chelsea-Barcelona, Ovebro vezes 4, Iniesta e o início do super-Barça

6 mai 2015, 10:10
Iniesta prepara-se para festejar o golo que apurou o Barça para a final

Anatomia de um jogo.

José Mourinho já lá não mora. É Guus Hiddink quem comanda o barco-Chelsea
, que tenta, frente ao Barça, voltar à final da Liga dos Campeões. Procura uma segunda oportunidade para levantar o troféu, depois de no ano anterior se ter estatelado na final de Moscovo, perante Manchester United e Cristiano Ronaldo, depois da célebre escorregadela de John Terry e do falhanço posterior de Anelka nos penáltis. Um nome passa a ser repetido por Mourinho, que não anda por lá, mas nem por isso esquece, sempre que se queixa do alegado favorecimento das arbitragem aos catalães: Ovebro.
 
Zero-a-zero no Camp Nou, segunda mão numa apinhada Bridge londrina. É a primeira época da era-Guardiola, que promoveu uma autêntica revolução. Zambrotta e Ronaldinho foram para Milão, Giovani dos Santos seguiu para o Tottenham, Edmilson para o Villarreal e Oleguer está no Ajax. Deco faz parte do outro lado da barricada, o do Chelsea, mas não está entre as opções. Thuran terminou a carreira devido a um problema cardíaco.
 
Até Samuel Eto'o esteve para fazer as malas, mas Pep gostou do trabalho do camaronês nos treinos e reintegrou-o na equipa. Chegaram Dani Alves e Keyta do Sevilha, Martín Cáceres do Villarreal, Piqué regressou do Manchester United e Hleb foi contratado ao Arsenal. Busquets, Pedro Rodríguez e Jeffrén foram promovidos. Thierry Henry é, neste dia 6 de maio de 2009, o grande ausente.

Um jogo mágico para sustentar as novas ideias

 
A nova filosofia começou com dúvidas que agora se dissipam. A derrota com o Numancia na primeira jornada da liga tinha dado força a essas mesmas inseguranças, mas a Copa del Rey, o título espanhol e a goleada por 6-2 no Bernabéu, ajudaram a consolidar o projecto do conjunto mais forte dos anos seguintes. Antes, contudo, há um jogo fundamental na caminhada, e que apelará à força mental, resistência e também a grande dose de felicidade por parte do conjunto espanhol.
 
Em Londres, tudo é mais temporário. O holandês Guus Hiddink, então também selecionador russo, sucedeu a Luiz Felipe Scolari em fevereiro desse ano. A opinião geral é a de que os Blues
estão rejuvenescidos, são hoje uma nova equipa, capaz de lutar com os melhores. No final do encontro, irão também eles falar muito no nome de Ovebro, insinuando mesmo uma teoria da conspiração por parte da UEFA. Em causa está um eventual desejo na não repetição da final do ano anterior, com um novo ator, bem mais querido, a insinuar-se, como é já o Barcelona.

«It’s a fucking disgrace!»

Drogba é dos mais revoltados no final da partida, e não evita o vernáculo frente às câmaras. Ballack persegue Tom Henning Ovrebo, o árbitro. Hiddink deixa escapar a palavra «conspiração» para emendar depois. É demasiado forte.

«Conspiração é uma palavra muito forte e que tem de ser provada. Não quero avançar com essa palavra tão dura.»

Os primeiros minutos, sobretudo depois do golo fabuloso de Michael Essien aos nove minutos, não fazem prever tamanha explosão final. O ganês apanha a bola no ar e, com o pé esquerdo, faz a bola entrar bem alto na baliza de Victor Valdés.

O golo de Essien


O que se segue é uma lição de como defender. Mas não só. Registam-se três casos muito polémicos na área culé
, com Piqué a ser obrigado a defender-se de um deles: «Para ser justo, tocou-me nas mãos, mas não foi deliberado. O árbitro pode decidir o que quiser, e temos de respeitar as suas decisões. Às vezes estão erradas.»

Os casos e a teoria da conspiração


Drogba é puxado por Abidal, e além de Piqué também Eto'o joga a bola com a mão na sua área. Dani Alves também agarra Abidal. Ovebro, que mais tarde receberá ameaças de morte, nada vê. Nada diz.
 
O Barcelona começará a dominar o jogo - não este, o jogo em si -, mas nada ainda o faz prever. Serão duas Taças dos Campeões, e mais uma meia-final muito em breve. No entanto, com o tempo a avançar em Stamford Bridge, nem as não-decisões de Ovebro parecem ameaçar a festa dos Blues
. Os catalães estão reduzidos a dez. Abidal é expulso aos 67 minutos, por derrubar Anelka à entrada da grande área.
 
É o terceiro de cinco minutos de descontos. Dani Alves faz o primeiro cruzamento decente da noite, Terry tenta aliviar, Essien acerta mal na bola. Sobra para Messi, que vê Iniesta em zona frontal. O remate é perfeito, ao ângulo, não dando qualquer hipótese ao gigante Petr Cech, que voa impotente. Ashley Cole põe as mãos na cabeça, o Barça faz a festa junto à bandeirola de canto. Guardiola parece um miúdo, sem saber o que fazer, junto à linha lateral. Duas substituições, mas está feito. O Chelsea é agora só raiva.

Um jogo muito intenso


«O abuso durou bastante tempo, e recebo três ou quatro emails por ano. Não é agradável, mas não é demasiado sério. Não deixo que me afete a mim ou à minha família. Eles não sabem muito sobre isto porque não lhes mostro os emails. Olhando para trás, há certas coisas que teria feito de forma diferente. Aprendi muito com a experiência, mas todos os árbitros vão dizer-vos que têm bons e maus jogos, momentos em que estão bons e momentos menos bons. Faz parte do trabalho. Não posso guardar lamentos de um único jogo. A minha vida tem de continuar. Apesar de tudo o que aconteceu, continuo a adorar ver a Liga dos Campeões, especialmente os grandes jogos em que surgem mais tarde na competição, como este o foi», disse Ovebro, três anos depois, ao «Guardian».

Drogba é suspenso por seis jogos, Bosingwa por três. Apelam, e é-lhes retirado um deles. O Chelsea é multado. E o melhor Barcelona de sempre começa agora.

FICHA DO JOGO:


CHELSEA - Cech; Bosingwa, Alex, John Terry e Ashley Cole; Ballack, Essien, Lampard e Malouda; Anelka e Drogba (Belletti, 72)

Suplentes não utilizados: Hilário; Ivanovic, Di Santo, Mikel, Kalou e Mancienne

BARCELONA - Valdez; Dani Alves, Piqué, Touré e Abidal; Busquets (Bojan Krkic, 85), Keita e Xavi; Messi, Iniesta (Gudjohnsen, 90) e Eto'o (Sylvinho, 90)

Suplentes não utilizados: Pinto; Caceres, Hleb e Pedro Rodríguez
 


Outras anatomias de um jogo:

1953: Inglaterra-Hungria, o jogo que mudou o jogo (e um país)

1967: Celtic-Inter, a primeira ferida mortal infligida ao catenaccio

1970: Itália-Alemanha, o jogo do século

1973: Ajax-Bayern, o futebol nunca foi tão total

1974: RFA-RDA, o dia em que a Guerra Fria chegou ao Grande Círculo

1982: França-Alemanha, o jogão que o crime de Schumacher abafou

1986: Argentina-Alemanha, a vitória de uma nova religião

1994: Milan-Barcelona, o fim do sonho do Dream Team

1994: Leverkusen-Benfica, empate épico sentido como grande vitória

1999: Bayern-Manchester United, o melhor comeback de sempre

2004: Holanda-Rep. Checa, o futebol de ataque é isto mesmo

2004: Sporting-FC Porto, o clássico da camisola rasgada

2005: Milan-Liverpool, o fim do paradigma italiano

2005: Argentina-Espanha, a primeira página da lenda de Messi

2009: Liverpool-Real Madrid, pesadelo blanco aos pés da besta negra


ANATOMIA DE UM JOGO é uma rubrica de Luís Mateus (
  @luismateus
   no Twitter), que recorda grandes jogos de futebol do passado. É publicada de três em três semanas na 
  MFTotal
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