Nove alimentos que devemos consumir dentro do prazo de validade - e outros conselhos úteis para evitar intoxicações alimentares

24 set, 12:00
Carne

Não vale a pena facilitar: há alimentos que não podem ser consumidos fora do prazo de validade, porque os riscos superam, em larga medida, os benefícios. Saiba quais são e como agir para os consumir em segurança

Os tempos são de contenção, porque a inflação não ajuda e os preços dos bens alimentares dispararam nos últimos meses. Mas não é motivo para facilitar: há alimentos que não devem nunca ser consumidos fora do prazo de validade indicado na embalagem, e mesmo quando está em causa o desperdício alimentar, há sinais que nos obrigam a rejeitar o produto e a deitá-lo fora para se evitarem riscos maiores para saúde.

Antes de mais, um enquadramento: é preciso distinguir entre as expressões "consumir até" e "consumir de preferência antes de" que encontramos nos rótulos dos produtos. "'Consumir até' corresponde a uma data limite de consumo, não devo consumir aquele alimento para além daquela data e os comerciantes também não o podem ter à venda para além dessa mesma data", explica José Camolas, vice-presidente da Ordem dos Nutricionistas. "No caso da data de durabilidade mínima, 'consumir de preferência antes de', é uma situação diferente: são alimentos menos perecíveis, que se estragam com menor facilidade e em que a data até à qual se aconselha o consumo deriva da própria avaliação que a empresa que comercializa o produto fez da sua durabilidade", acrescenta o nutricionista. Neste caso, os comerciantes podem manter aquele produto à venda depois do final do prazo aconselhado de validade, mas há dois requisitos importantes: devem explicitar claramente que aquele produto está à venda fora do prazo recomendado pela empresa e devem igualmente assumir "o ónus de responsabilidade" por essa comercialização, indica José Camolas.

É com os alimentos perecíveis que devemos ter maiores cuidados na hora do consumo, atendendo não só ao prazo de validade mas também às características dos próprios produtos. "São alimentos muito nutritivos, e o grande senão é que são tão nutritivos para nós como para os microorganismos, pelo que são fontes fáceis de deterioração microbiológica", explica o nutricionista. "Os alimentos perecíveis são muito sensíveis a alterações microbiológicas", acrescenta. É o caso da carne e do peixe frescos, mas também de leite, iogurtes e alguns queijos, por exemplo, ainda que nos lacticínios o processo de pasteurização tenha vindo ajudar a prolongar os prazos de validade. Nestes casos, é preciso ter cuidado sobretudo com a data da abertura da embalagem para não correr riscos. 

Atenção aos "perecíveis muito nutritivos"

Vejamos alguns destes alimentos que nunca devemos consumir fora de prazo: na carne fresca, por exemplo, "o período de utilização é muito curto e é aconselhável nunca quebrarmos a cadeia de frio" desde o momento em que a carne é retirada dos frigoríficos no supermercado, sendo útil reservar para essas situações um saco térmico, aconselha José Camolas. Em casa, a carne tem de ser acondicionada no frio e, se não for consumida em dois a três dias, terá de ser congelada para não se estragar, mesmo que na embalagem, no caso das carnes já cortadas disponíveis no supermercado, o prazo possa ser ligeiramente superior. Atenção, porém, à carne com aspeto viscoso e que cola nas mãos quando é mexida - pode não estar nas melhores condições. Uma nota sobre carne, que pode surpreender: "As carnes picadas são particularmente sensíveis, preferencialmente têm que ser picadas no momento e deve ser mantida a cadeia de frio até ao seu consumo, que deve ser imediato. A carne picada não deve sequer ser congelada", assinala o vice-presidente da Ordem dos Nutricionistas. "É muito fracionada, tem maior contacto com o ambiente", explica. 

No caso do peixe fresco, os cuidados terão de ser semelhantes aos da carne, assegurando que o pescado permanece no frio desde que é retirado do gelo e consumido num par de dias. Os sinais de alarme para um peixe que pode não estar em boas condições são os olhos baços, encovados, as escamas que não estão brilhantes e o cheiro: o peixe fresco deve ter um cheiro ténue, se o odor for mais intenso é caso para desconfiar, avisa José Camolas. Depois de descongelar, peixe ou carne devem ser idealmente consumidos "tão rapidamente quanto possível" para evitar problemas.

No caso dos mariscos, moluscos ou bivalves, de forma genérica, há que ter os mesmos cuidados que para o peixe: o cheiro não deve ser intenso e devem estar conservados em água do mar ou refrigerados. "Mesmo depois de preparados, estragam-se com muita facilidade e devem ser consumidos no momento".

No caso do leite, e outros produtos que são processados através da pasteurização, "consegue-se alargar o prazo de validade, também com a proteção da própria embalagem. O leite UHT tem um prazo de validade muito grande comparativamente ao leite fresco ou do dia", explica José Camolas. Mas, depois de um pacote aberto, como proceder? "Assim que abrimos um pacote, o leite perde a proteção que existia da embalagem e do tratamento térmico porque passa a estar em contacto com o ar, passa a ser tão sensível como leite fresco. A própria marca propõe-nos um período de tempo para consumir", recorda o nutricionista, que sublinha no entanto que o tempo de consumo não deve ultrapassar os três dias.

No que diz respeito aos iogurtes, a questão coloca-se, tal como no leite, no momento em que a embalagem é aberta. Se, por vezes, os iogurtes até podem ser consumidos para lá do dia indicado na embalagem - a indicação do fabricante é de consumir preferencialmente até àquela data -  é importante que não se perca tempo na altura em que se decide abrir o copo do iogurte. "A maior parte dos iogurtes vem em porções individuais e, normalmente, é consumido no momento. Mas já vamos encontrando no mercado iogurtes em embalagens maiores e, aqui, verifica-se a situação do leite: depois de aberta a embalagem, a proteção deixa de existir". José Camolas aponta ainda "outra nuance": "O iogurte tem uma flora bacteriana viva, é um alimento vivo. Quando comemos iogurte, não estamos só a comer um derivado do leite, estamos também a ingerir um conjunto de bactérias usadas para o processo de produção do iogurte. Se o deixarmos à temperatura ambiente demasiado tempo, vai criar ar, vai ficar inchado e insuflado; tem a ver com os processos de fermentação interna do produto. Se estiver assim, já não devo consumir, é provável que haja proliferação bacteriana", explica o nutricionista.

O queijo fresco é outro dos alimentos que devemos manter sempre refrigerados para impedir "que o desenvolvimento das bactérias que estão naturalmente no produto seja demasiado rápido", diz José Camolas. "Vemos isso nas grandes superfícies: se eu tiro um queijo fresco do frigorífico mas decido não o levar e um funcionário, com a melhor das intenções, o volta a pôr dentro do frigorífico, há aqui um risco, devido ao tempo que o produto esteve à temperatura ambiente a deteriorar-se". Neste caso, além de respeitar o prazo de consumo, não deverá consumir o queijo fresco se notar alterações na embalagem. "Deve dirigir-se ao local de compra e fazer menção disso mesmo, porque houve algo que falhou", aconselha o especialista.

No que diz respeito aos ovos, "são perecíveis por serem muito nutritivos", frisa José Camolas. "Eles têm um invólucro natural que os protege, que é a casca, mas se forem conservados durante muito tempo, entre o momento em que a galinha os põe e o momento em que chegam ao consumidor, vão desidratar, perder água. O ovo torna-se mais viscoso, a clara menos fluída, mais densa, e a gema parte-se com mais facilidade". Neste caso, é importante respeitar o prazo de validade e ter cuidado também com os vestígios do animal na casca do ovo: "se tem fezes ou penas, devemos limpar para que não exista contaminação para o ovo que vamos consumir". 

Quando à charcutaria, também não se pode facilitar. "Este processamento das carnes, de forma geral, foi pensado ancestralmente para aumentar a capacidade de conservação. O fumeiro servia para aproveitar as partes menos nobres do porco mas também para permitir uma conservação mais prolongada", explica o nutricionista. "Em função do tipo de processamento, vamos ter períodos de validade distintos para um chouriço, um presunto ou um fiambre", acrescenta. No fumeiro, promove-se a desidratação, o que já não acontece no fiambre e outros produtos semelhantes, como a mortadela: se vem embalado, é preciso cumprir escrupulosamente a data de fim de prazo de validade e também as indicações do período seguro após abertura da embalagem. Se estas não existirem, é preciso ter em atenção alterações da aparência, um tom esverdeado no fiambre ou uma alteração do cheiro, que fica mais ácido. "São sinais de degradação do produto e, não obstante termos de ser cuidadosos e evitar o desperdício, também não é bom desperdiçar saúde", comenta José Camolas.

Uma nota ainda para o pão embalado, que traz um problema adicional relacionado com fungos e bolores: "Às vezes, não são visíveis", refere o nutricionista. "Quando o pão já tem um ligeiro odor a bolor, embora não o vejamos a olho nu, é preferível não consumir", pelo que a data do prazo da embalagem deve ser respeitada escrupulosamente. Mesmo quando falamos de pão comprado fresco, se uma fatia tem bolor, não devemos comer as restantes. "Há risco de haver bolores ou toxinas que, não sendo visíveis, já estão presentes".

E as frutas e legumes?

Em termos de saúde, o consumo de alimentos estragados pode ter "consequências potencialmente imprevíveis, neste sentido: nunca temos conhecimento absoluto, a não ser que façamos análise microbiológica do alimento, de quais são os microorganismos que estão a contaminá-lo". As bactérias dentro de um iogurte inchado, por exemplo, podem ser inofensivas "mas também podem ser patogénicas e responsáveis por toxinfeções muito graves e mesmo causar a morte", frisa José Camolas. "Na dúvida, desconfiar sempre, porque o risco pode ser muito grande", alerta o nutricionista, que deixa ainda conselhos sobre o que fazer com frutas e hortícolas. "Cuidado com os vegetais que, com temperaturas mais quentes, podem apresentar sinais de fermentação", refere. Quanto às frutas, sobretudo as que são mais sumarentes, que até "já estão tocadas, porque estavam demasiado maduras, ou com sinais de bolor ou de estarem a apodrecer, não devem ser consumidas". Se se tratar de uma fruta mais densa, deve cortar-se "com boa margem de segurança a porção que estava estragada".

Falando ainda de "questões práticas que ajudam a correr menos riscos", José Camolas chama a atenção para a necessidade da boa organização dos alimentos no frigorífico, que permitirá uma melhor gestão dos prazos e evitar o desperdício alimentar: devemos trazer para a frente das prateleiras os produtos com prazos de validade mais curtos e, no caso das frutas e hortícolas, colocá-las na devida gaveta ou secção de frio, "deixando por cima as que devem ser consumidas a mais breve trecho" e por baixo as que têm maior durabilidade. 

"E naqueles alimentos que têm indicação de serem consumidos 'preferencialmente antes de', é preciso ter bom-senso, ser criterioso e fazer a análise: em que medida é que este alimento se apresenta tal e qual o alimento que eu comeria estando dentro do prazo de validade?", sublinha o nutricionista, frisando: "Acima de tudo, não incorrer em riscos desnecessários".

O vice-presidente da Ordem dos Nutricionistas deixa ainda um alerta para as sobras de refeições anteriores: sendo o aproveitamento uma "boa política", seja daquilo que confeccionamos ou que trazemos de um restaurante, as sobras devem ser consumidas mum período "relativamente curto", explica. "Até três dias será razoável mas, antes de comer, deve inspecionar-se se o produto está idêntico ao produto original. Muitas vezes, a refeição tem bom aspeto e cheiro mas, quando aquecida, já dá outras indicações", refere, lembrando a sopa que, depois de ser aquecida, poderá começar a soltar um odor azedo. "Por qualquer razão, houve uma degradação mais rápida do produto" e, nestas situações, a única coisa a fazer, infelizmente, é deitar a comida fora. 

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