Subiu para 326 o número de denúncias de abusos sexuais na Igreja Católica

Joaquim Franco , com Lusa - notícia atualizada às 13:00
10 mai, 10:12
Padre

A investigadora e socióloga Ana Nunes de Almeida sublinhou que o número de potenciais vítimas pode ainda atingir "muitas centenas"

Subiu para 326 o número de queixas de abusos sexuais feitas à comissão independente criada para investigar estes crimes no seio da Igreja Católica portuguesa. No último balanço, de 29 de abril, tinham sido registados 315 testemunhos. 

Na conferência de imprensa desta manhã, Daniel Sampaio, um dos membros da comissão, disse que tratavam de "testemunhos verídicos e sofredores". Já a investigadora Ana Nunes de Almeida sublinhou que o número de potenciais vítimas pode ainda atingir "muitas centenas".

"Temos 326 testemunhos recolhidos até ontem [segunda-feira], de mais homens do que mulheres, de todos os grupos etários, de todos os níveis de escolaridade e temos todas as modalidades de abuso representadas no inquérito", afirmou a socióloga, acrescentando ainda que "além dos 326 testemunhos diretos, somando o número de outras pessoas que dizem ter sido vítima de abuso também, esse número sobe para muitas centenas de crianças e adolescentes". 

A investigadora e membro da comissão garantiu também que “as entrevistas com dioceses estão a decorrer a muito bom ritmo” e que têm sido recolhidos relatos de experiência de contactos com abusos.

Quanto ao acesso aos arquivos da Igreja, Ana Nunes de Almeida explicou que essa tarefa estará a cargo de uma equipa de historiadores sob a liderança de Francisco Azevedo Mendes, docente na Universidade do Minho.

Embora o trabalho desta Comissão Independente não vise a exposição direta de abusadores ou de instituições onde tenham sido cometidos abusos sexuais contra crianças, a socióloga e investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa reiterou a importância do conhecimento mais aprofundado da realidade.

“Conhecer a realidade é sempre reconhecer a sua complexidade intrínseca, é uma condição ‘sine qua non’ para intervir. Não há mudança para melhor sem o contributo da ciência. Façamos da causa da luta aos abusos contra crianças uma causa civilizacional”, afirmou, na sessão que abriu a conferência realizada na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Mais casos de abusos para o Ministério Público

A 12 de abril, o coordenador Pedro Strecht revelou que pelo menos 16 queixas já tinham seguido para o Ministério Público (MP). Em causa estão investigações a padres no norte e centro do país que se mantêm no ativo, sabe a CNN Portugal. Os párocos foram denunciados por abusos cometidos sobre crianças em situações cujos crimes não estão ainda prescritos. Na altura, tinham sido validados 290 testemunhos. 

Esta terça-feira, Pedro Strecht disse que já existiam mais casos de queixas de vítimas que não prescreveram e que estão preparados para serem enviados ao MP. "Já foram enviados 16, mas em breve seguirão mais", manifestando a expectativa de uma atuação célere da justiça.

"Já manifestei o desejo de celeridade da resposta da justiça portuguesa. Nem sempre é aquele que desejamos, mas neste caso é muito importante chegarmos ao final do trabalho, apresentarmos o relatório e, mesmo que seja preciso algum tempo, as pessoas sentirem que no aspeto de uma justiça reparadora aconteceu algo. Enquanto coordenador da comissão, não desejo chegar ao final destes trabalhos, decorrer algum tempo que ainda possamos achar justo e, depois, ser confrontado com uma total ausência de respostas jurídicas", explicou.

Pedro Strecht disse esperar "que isso não vá acontecer", realçando o "material que já foi enviado", mas também aquele "que muito em breve será enviado" e outras descobertas que possam ainda ser feitas ao longo do trabalho da Comissão Independente.

PJ com número recorde de processos

Outro dos números revelados na conferência de imprensa desta manhã dá conta de um número recorde de processos de abuso sexual de crianças na Polícia Judiciária. No primeiro trimestre de 2021, foram abertos mais de 1.300 processos.

As denúncias e testemunhos podem chegar à comissão através do preenchimento de um inquérito 'online' em darvozaosilencio.org, através do número de telemóvel +351 917 110 000 (diariamente entre as 10:00 e as 20:00), por correio eletrónico, em geral@darvozaosilencio.org e por carta para "Comissão Independente", Apartado 012079, EC Picoas 1061-011 Lisboa.

A comissão integra ainda o psiquiatra Daniel Sampaio, a assistente social e terapeuta familiar Filipa Tavares e a realizadora Catarina Vasconcelos.

Relacionados

Crime e Justiça

Mais Crime e Justiça

Patrocinados