Inflação atinge mundo animal. Já há quem tenha de escolher entre alimentar os animais ou os filhos. Abandonos aumentam

7 nov, 07:00
Aumento do custo de vida está a refletir-se no abandono animal (Pixabay)

As consequências da pandemia, da guerra e, agora, do aumento do custo de vida já chegaram ao mundo animal - um fenómeno que está a afetar famílias em todo o mundo, e algumas já têm de escolher entre alimentar os seus animais de companhia ou os seus filhos, como está a acontecer na Austrália

O número de animais de companhia abandonados está a aumentar significativamente em todo o país desde o início do ano, uma situação que está a sobrecarregar as associações de proteção e abrigo de animais, que já estão a "pôr um travão" no acolhimento de cães e gatos.

"Tem sido uma coisa pavorosa em todo o país", diz Luísa Barroso, presidente da União Zoófila (UZ), associação que alberga neste momento 460 cães e 170 gatos, e que todos os dias recebe pedidos para acolher mais.

Nunca houve tantos animais abandonados como agora. Recebemos dezenas de pedidos de pessoas que encontraram animais, já não só em Lisboa, mas de toda a parte do país. Há situações tão dramáticas como uma ninhada de 13 gatos que tinham acabado de nascer e estavam a enterrá-los vivos. Isto foi em setembro, entretanto já foram todos adotados", Luísa Barroso, União Zoófila. 

Mas, a partir de agora, vai ser cada vez mais difícil atender a este tipo de situações, alerta a responsável da UZ, que diz estar numa situação financeira "péssima" devido à falta de donativos - uma consequência da pandemia e do aumento do custo de vida, atribui Luísa Barroso.

"Depois da pandemia e com esta crise financeira, deixámos de receber os donativos significativos que nos ajudavam a manter o abrigo. A situação foi-se agravando e os donativos agora são pequeninos, de 10, cinco euros", lamenta Luísa Barroso, ressalvando que todo o apoio é bem-vindo, mas é pouco face às necessidades.

Com os "cofres vazios", avolumam-se as dívidas em hospitais veterinários, o que dificulta ainda mais o trabalho da associação. "Temos imensas dívidas em hospitais veterinários, que já estão a deixar de fornecer o que precisamos, porque os pagamentos estão atrasados", admite.

Esta situação insustentável obrigou a presidente da UZ a tomar a decisão de travar as entradas de animais. "É horrível, mas decidimos pôr um travão. Não podemos receber mais", lamenta.

Animais recolhidos triplicam no Porto

Mas esta não é uma situação exclusiva da UZ. Na verdade, este parece ser o panorama atual das associações e Centros de Recolha Oficial de Animais (CROA) em todo o país, a avaliar pelo número de animais recolhidos este ano, em comparação com os anteriores. Se no ano passado os animais recolhidos pelos Centros de Recolha Oficial de Animais (CROA) ultrapassaram os 43.000, este ano esse número poderá ser superior, impulsionado pelas dificuldades económicas e financeiras das famílias.

Só este ano, o CROA do Porto já viu o número de animais entregues às suas instalações triplicar. No ano de 2021, foram entregues pelos detentores 59 animais; este ano, até 30 de setembro, já foram entregues 165 animais, o que se traduz num aumento de 179%.

As razões invocadas pelos detentores destes animais estão relacionadas “maioritariamente com alterações das condições de habitação e de saúde” dos próprios, refere o CROA do Porto, em resposta escrita à CNN Portugal.

Em contrapartida, o número de animais recolhidos pelo próprio CROA ou PSP “tem vindo a diminuir”, uma tendência que o centro atribui à obrigatoriedade de identificação eletrónica dos animais e das alterações legislativas que classificam o abandono de animais como crime.

Alimentar os animais ou os filhos: o dilema de algumas famílias

Os números parecem mostrar, assim, que as consequências da pandemia, da guerra e do aumento do custo de vida já chegaram ao mundo animal - um fenómeno que está a afetar famílias em todo o mundo, que já têm de escolher entre alimentar os seus animais de companhia ou os seus filhos.

Não é um exagero, está mesmo a acontecer, e quem o diz é a responsável do canil Lost Dogs' Home, em Melbourne, Austrália, que hoje alberga 500 animais e que, tal como as associações e abrigos de animais em Portugal, tem recebido cada vez mais pedidos para acolher mais cães. “É um dia muito triste quando as pessoas têm de fazer uma escolha entre dar de comer aos animais ou aos seus filhos. Infelizmente, algumas pessoas já chegaram a esse ponto”, disse a responsável do canil Suzana Talevski, em declarações à BBC.

Com tantos animais para alimentar, este canil vive agora numa situação de "aperto" face ao aumento dos custos, sobretudo para a alimentação das centenas de animais que alberga. A indústria das rações foi das mais afetadas pela guerra na Ucrânia, sobretudo antes do acordo para a exportação de cereais, firmado em julho sob a égide da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Turquia, para solucionar o bloqueio russo das exportações de cereais ucranianos.

Uma das consequências deste bloqueio terá sido precisamente o aumento dos preços das rações em todo o mundo. De acordo com a BBC, aumentou 10,3% nos EUA, enquanto na União Europeia subiu 8,8%. Na Austrália, aumentou quase 12%, o que se traduz no dobro do aumento que as famílias estão a verificar para os seus próprios produtos alimentares e bens essenciais. Em Portugal, o preço da ração aumentou entre 10 a 15%. Entretanto, já se verifica um alívio nos preços, mas a indústria alerta que os preços não vão voltar a ser os que se praticavam antes da guerra.

Para fazer face a este aumento dos preços das rações, a presidente da UZ conta que optou por deixar de encomendar rações específicas, como ração hipoalergénica, recomendada para animais com alergias ou intolerâncias a alguns alimentos. "Já não temos dinheiro para encomendar essas rações. Agora, estão a comer a ração que nos dão [ao abrigo]. O estado deles [dos animais] piora, mas não temos alternativa", lamenta.

Luísa Barroso reforça os apelos que UZ tem vindo a fazer nas redes sociais para ajudar a associação como puder, seja com donativos, apadrinhando animais ou fazendo voluntariado. A responsável convida ainda as pessoas a visitarem as instalações da UZ para que assim consigam perceber "a realidade do problema".

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