“Prefiro ter dez animais a uma criança”. Estamos a ter mais animais de companhia e menos filhos?

23 out, 08:00
Animais (Pexels)

Tendência parece estar associada ao que os investigadores designam como "filhotização", um conceito que se refere à humanização ou "antropomorfização" dos animais de companhia

Aos 31 anos, Carlos decidiu que não quer ser pai e diz mesmo que prefere "ter dez animais a uma criança", enquanto Jéssica, de 25, que já mora com o namorado, diz ter "pânico de engravidar". São dois exemplos de jovens portugueses que adiam (ou excluem mesmo) a parentalidade, mas que olham para os seus animais de quatro patas como autênticos "filhos" que já fazem parte do agregado familiar. 

Numa declaração polémica, o Bispo do Porto criticou recentemente quem substitui os "laços de sangue entre pais e filhos" pelo "apego a um qualquer animal de estimação". A CNN Portugal quis perceber se estamos realmente a ter mais animais de companhia em detrimento dos filhos - e a resposta é mais complexa do que pode parecer à partida.

Carlos e Margarida estão juntos há um ano e meio e tomaram a decisão conjunta de não ter filhos. Na verdade, ambos já sabiam que não queriam ter filhos quando ainda eram solteiros, antes de completarem 30 anos. “Quando era mais novo, tinha de facto algum interesse em construir família, mas, à medida que fui crescendo e ganhando maturidade, fui percebendo que tipo de vida é que quero ter e que não fazia sentido ter filhos. Não se iriam integrar no estilo de vida que quero ter”, assume Carlos, que trabalha como fotógrafo profissional e vive em Lisboa.

Apesar de não terem filhos, o agregado familiar de Carlos e Margarida inclui mais dois membros: Rosa, uma cadela de oito anos de raça Galgo inglês, e Kila, uma cadela sem raça definida que o casal adotou há um ano. “São membros da família, só falta sentarem-se à mesa connosco”, diz Carlos, que admite ver estes dois animais de companhia como “crianças”.

Kila (à esquerda) e Rosa. Fotografias de Carlos Cirilo (DR)

Rosa e Kila são duas cadelas “muito mimadas”, conta o fotógrafo à CNN Portugal: todos os dias fazem três passeios (um deles de pelo menos 40 minutos), vão de férias quando os donos planeiam uma escapadinha dentro do país (quando a viagem é para o estrangeiro costumam ficar num hotel para animais ou com um familiar), têm camas na sala de estar para cada uma e outras duas camas ortopédicas no quarto dos donos, “uma de cada lado da cama”. “São uns bebés”, resume. 

E toda esta atenção do casal é retribuída, garante Carlos. “Acabam por nos recompensar de uma forma que uma criança até certa idade não o fará. Sempre que chego a casa tenho uma manifestação de carinho super estridente, e isso conforta-me tanto em tantos momentos.”

Carlos diz ser a exceção à regra no seu grupo de amigos quando o assunto da conversa resvala para a questão dos filhos: “Com a minha idade, grande parte dos meus amigos já tem filhos, está prestes a ter ou tem nos planos. Os meus amigos que ainda não têm filhos, provavelmente é por não terem ainda uma situação de vida estabilizada.” 

Mas esse não é o caso deste casal, que costuma gastar em despesas com as duas cadelas, “entre 800 a 1.000 euros” por ano, entre consultas no veterinário, ração, biscoitos, entre outros. “Tenho todas as condições para ter até dois filhos se quisesse, porque trabalho, sou um filho mimado, não me falta nada, felizmente.”

“Para desgosto da minha família, [ter filhos] não é uma coisa que eu queira”, afirma. Um “desgosto” que se torna evidente quando a família se reúne e se juntam os filhos das irmãs e dos primos, conta. “‘O teu primo já tem filhos’, ‘já estás a perder a corrida’”, são o tipo de comentários que Carlos costuma ouvir em contexto familiar e que fazem com que sinta “bastante pressão” para ter filhos.

Ainda assim, mostra-se resoluto: “É incomparável, mas prefiro ter dez animais a uma criança.” 

"Os meus gatos são os meus filhos"

Jéssica e Ricardo têm ambos 25 anos e decidiram há dois anos dar um novo passo na sua relação: mudaram-se para uma casa em Coimbra, cidade onde se conheceram, e adotaram dois gatos, Teemo e Enguia. “Eu costumo dizer que os meus gatos são os meus filhos”, confessa Jéssica, entre risos. 

E, tendo em conta o contexto económico atual e o futuro incerto, a jovem admite que a família não deverá voltar a estender-se tão cedo: “Pelo menos nos próximos 10 anos não me vejo a ter uma criança. Tenho mesmo pânico de engravidar [sem estar a contar]”, conta à CNN Portugal.

Teemo (à esquerda) e Enguia. Fotografias de Jéssica (DR)

Jéssica licenciou-se em Solicitadoria e hoje trabalha como vendedora de loja num centro comercial, enquanto Ricardo, que tem uma licenciatura em Biotecnologia, está a terminar agora o mestrado em biologia concecional. Ambos dividem “tudo a meio”, conta Jéssica, referindo-se às despesas conjuntas, e isso faz a diferença no momento de fazer as contas: “Se eu estivesse a morar sozinha, não dava para me sustentar. As rendas estão muito caras, está tudo muito caro, era impensável.”

“Adoro crianças, mas trazer neste momento uma criança ao mundo seria impensável”, lamenta. Mas não são só as questões financeiras que pesam nesta decisão - a vida atribulada entre estudos e trabalho não deixa que reste muito tempo para pensar sequer em ter um filho. “Uma criança requer 24 horas de atenção. Não é que eu não estivesse disposta a dar, mas neste momento da minha vida dar atenção a um animal é o máximo que eu consigo, principalmente gatos, que são muito independentes.”    

"Não há nada que sustente" declarações do Bispo do Porto

Neste contexto, Jéssica diz não entender as declarações do Bispo do Porto, que recentemente criticou quem substitui “os laços de sangue entre pais e filhos” pelo “apego a um qualquer animal de estimação”, considerando que este último é “típico de sociedades decadentes”.

“São declarações de uma pessoa que não está em contacto com a realidade atual. A profissão dele impõe um certo tipo de conduta na vida, mas o que é a sua realidade não é necessariamente a realidade das outras pessoas”.

Por sua vez, Carlos salienta que os animais não são substitutos das crianças: "Os animais preenchem um espaço, mas não creio que possam substituir os filhos. Podemos sempre tentar humanizar os animais, mas nunca ao ponto de substituir uma criança."

Verónica Policarpo é investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e trabalha precisamente no estudo das relações entre animais e seres humanos, nomeadamente na construção de laços entre espécies diferentes. À CNN Portugal, a investigadora refere que “não há nada que sustente” as declarações do Bispo do Porto, “só mesmo a ideologia” do próprio. “Nem me parece que seja a norma do pensamento de hoje”, acrescenta a socióloga.

Não é novidade que Portugal tem uma taxa de natalidade muito reduzida quando comparado com outros países, o que se traduz num país cada vez mais envelhecido. E os dados divulgados pela Pordata não deixam espaço para dúvidas: se em 1960 a taxa de natalidade estava nos 24,1%, no ano passado situava-se nos 7,7%.

Já em relação aos animais de companhia, só é possível perceber a evolução desde 2019, ano em foi lançado o Sistema de Informação de Animais de Companhia (SIAC), a base de dados nacional de registo de animais de companhia. Os dados obtidos pela CNN Portugal junto do SIAC mostram que o número de animais de companhia registados em Portugal tem vindo a aumentar (ainda que ligeiramente) nos últimos anos: em 2019 foram registados 334.274 animais de companhia (255.256 canídeos, 78.717 felídeos e 301 mustelídeos), enquanto em 2021 contabilizaram-se, no total, 432.239 animais de companhia (279.573 canídeos, 152.162 felídeos e 504 mustelídeos).

Famílias com crianças são as que mais têm animais

A investigadora Verónica Policarpo confirma que "os animais têm ganhado muita visibilidade nos últimos anos como membros da família". Apesar disso, ainda se sabe muito pouco sobre a realidade das famílias portuguesas que têm animais de companhia, quer do ponto de vista sociológico, quer do ponto de vista estatístico, e a ausência de registos de animais de companhia contribui para esse desconhecimento. 

Mas olhando para a realidade de outros países, como os Estados Unidos, os estudos revelam que "as famílias que tendem a ter mais animais de companhia são famílias que já têm crianças". Isto porque os pais têm uma “grande expectativa quanto ao potencial que o animal pode ter para ajudar a criança a adquirir várias competências”.

Ou seja, “não existe uma relação direta entre ter filhos e não ter animais, ou ter animais e não ter filhos”, conclui a socióloga.

A psicóloga Marta Calado, da Clínica da Mente, confirma à CNN Portugal que a interação com os animais pode, de facto, "contribuir para a aquisição de competências nos mais novos, desde a motricidade à implementação de rotinas e um maior sentido de responsabilidade".

Mas os benefícios de ter um animal de companhia não se esgotam nas crianças, sublinha a psicóloga. "Quando interagimos com um animal, libertamos dopamina e serotonina, que são as hormonas da felicidade, e os nossos níveis de stress diminuem. Além disso, são uma boa companhia, ajudam-nos a exercitar e contribuem assim para melhorar a saúde cardiovascular."

Marta Calado assinala, contudo, que ter um filho e ter um animal são duas coisas "incomparáveis" e dá como exemplo o luto. "Fazer o luto de um filho não é igual a fazer o luto de um animal de companhia. Um filho é um ser que foi concebido, que nasceu dentro de nós. Do ponto de vista do impacto, é diferente quando fazemos o luto de um animal, porque posso vir a adotar um outro animal no dia seguinte.".

Deve a "filhização" dos animais preocupar-nos?

A socióloga Verónica Policarpo explica à CNN Portugal que o facto de termos hoje mais animais de companhia "está muito alinhado com a tendência da sociedade contemporânea de dar primazia aos sentimentos e afetos em detrimento de aspetos mais institucionais”. Um exemplo disso é o casamento, diz a investigadora, que lembra como a história tem mostrado que o "amor conjugal" sempre existiu, mas "a fundamentação da instituição do casamento não era legitimada por esse aspeto".

Ora, de acordo com a investigadora, o mesmo se passa nas relações entre os animais e os seres humanos: "As relações afetivas e emocionais entre humanos e animais sempre existiram, mas não era normativa do ponto de vista social, ou seja, não era socialmente aceite, e, portanto, ilegítima." Contudo, "à medida que avançamos [enquanto sociedade], o que legitima a existência dos núcleos privados são os afetos, as motivações", sintetiza.

Esta tendência parece estar associada ao que os investigadores designam como "filhotização", um conceito que se refere à humanização ou "antropomorfização" dos animais, aponta a socióloga.

À partida, este parece um conceito positivo, mas na verdade pode ser muito mais complexo do que parece, ressalva a investigadora, que destaca também o conceito de “especismo”, ​​uma forma de discriminação contra os seres que não pertencem a certa espécie e que "está profundamente enraizado na nossa estrutura de pensamento e valores", tornando-se mais evidente quando as famílias olham para o animal de companhia como “uma preparação para o primeiro filho”.

Quem trabalhou muito este conceito foi uma investigadora israelita, Dafna Shir-Vertesh, que demonstrou, através do estudo “Flexible Personhood: Loving Animals as Family Members in Israel”, como algumas famílias israelitas integram o animal no núcleo familiar como uma preparação para o primeiro filho. Ora, a partir do momento em que chegava o bebé, o animal era negligenciado. 

No estudo, Shir-Vetersh refere que “ao olharem para os seus animais como pessoas flexíveis [um termo que a autora utiliza para descrever as diversas formas de integração dos animais na família], as pessoas estão conscientemente a transgredir limites e, ao mesmo tempo, a recordarem-se constantemente que o ‘bebé’ é apenas um animal e que pode sempre ser deserdado da família”.

“O que acontece é que essa lógica da substituição fragiliza muito o animal, torna-o mais vulnerável. Já em relação às famílias que integram os animais como tal, ou seja, como animais, essas conseguem integrar o animal na sua vida e nas diversas mudanças que vão atravessando”, afirma Verónica.

Resumindo, “tudo depende do grau de compromisso” da família com o animal de companhia. "Os animais de companhia não ficam a salvo de serem transformados em objetos só para nosso bel-prazer. Eles não existem só para nosso bel-prazer. O afeto pode ser uma dominação, uma forma de controlo sobre a própria biologia do animal", diz a socióloga, que está atualmente a trabalhar no projeto “CLAN - Amizades entre crianças e animais: desafiando as fronteiras entre humanos e não humanos nas sociedades contemporâneas”, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia.

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