Tripulantes da TAP podem ganhar até 50% mais do que na British Airways e voam menos

9 nov, 11:04

Comparação entre os vencimentos máximos das duas companhias feito pela TAP conclui que tripulantes portugueses podem chegar a salários muito superiores, mesmo voando menos. Sindicato contesta números

Os tripulantes da TAP podem ganhar até mais 50% do que os colegas da British Airways, mesmo com os cortes salariais em vigor, segundo as conclusões de uma comparação feita por uma consultora para a companhia, a que o ECO teve acesso. Os tripulantes da transportadora aérea britânica fazem também mais horas de voo. O principal sindicato que representa a classe diz que valores são “falsos” e “inflacionados”.

Segundo o estudo comparativo, um comissário assistente de bordo pode conseguir uma remuneração total 30% superior à de um tripulante de cabine da British Airways, tendo em conta as atuais condições salariais em vigor na companhia aérea portuguesa, que aplica um corte salarial de 25% aos vencimentos superiores a 1.410 euros.

A diferença é ainda maior no caso de um supervisor de cabine, o último nível da carreira, em que a remuneração total, incluindo as componentes fixa e variável, pode ser 50% superior ao salário máximo da carreira de tripulante na British Airways.

A remuneração mensal média de um tripulante de cabine da TAP ronda os 3.260 euros brutos, de acordo com a análise, ficando muito acima dos 1.439 euros da remuneração total mensal bruta apurada pelo INE em junho deste ano. Já o Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC), que representa os tripulantes, garante que o valor é muito mais baixo.

“O sindicato afirma categoricamente que os valores reais são muito abaixo dos 2.000 euros por mês”, afirma fonte oficial do SNPVAC. “Este estudo, que o sindicato conhece parcialmente através do ECO, apresenta valores falsos e inflaciona escandalosamente o valor que o tripulante verdadeiramente recebe ao fim de um mês de trabalho”, diz também. Nota ainda que “os vencimentos apresentados são referentes ao escalão mais elevado na carreira de um tripulante da TAP, em que a média de tempo de carreira é superior a 30 anos, e abrange apenas 5% do total dos tripulantes“.

“Se os valores apresentados neste ‘estudo’ fossem os corretos isto significava que, em termos reais, a administração estaria a gastar o dobro com as remunerações que ficou definido no plano de reestruturação que estabeleceu o Acordo Temporário de Emergência (ATE) e que diz que está a cumprir”, argumenta também o sindicato.

Menos horas de voo na TAP

A análise compara também as horas de voo. Enquanto os tripulantes de cabine da TAP voam, em média, 600 horas por ano, na companhia britânica os valores de referência são 800 a 900 horas. É ainda referido que os níveis de absentismo destes profissionais na transportadora portuguesa ronda, em média, os 16% (chegando a atingir os 20%), bastante acima dos 10% verificados noutras companhias.

“Relativamente à comparação da carga de trabalho mensal com os tripulantes da British Airways, cumpre esclarecer que um tripulante da TAP têm menos dois dias de folga por mês e mais 45 minutos de voo por dia”, observa fonte oficial do sindicato. “Este estudo serve apenas para ser utilizado junto da comunicação social para tentar provocar sentimento de inveja social junto da opinião pública e um sentimento anti-tripulantes na opinião publicada”, acrescenta.

A administração da TAP quer negociar um novo Acordo de Empresa com os tripulantes de cabine, que permita substituir o Acordo de Emergência assinado em 2021 no âmbito da reestruturação e que expira no final de 2024. O SNPVAC considerou “inenarrável” a primeira proposta apresentada pela companhia.

No passado dia 3, a estrutura sindical aprovou, em assembleia geral, um pré-aviso de greve para os dias 8 e 9 de dezembro. Os associados do SNPVAC aprovaram também a decisão da direção do sindicato de recusar liminarmente a proposta de novo Acordo de Empresa apresentado pela TAP, “subscrevendo a determinação de recorrer ao atual Acordo de Empresa substancialmente melhorado, como ponto de partida e base para qualquer negociação futura”.

“Não podemos aceitar como base de negociação um Acordo de Empresa que transforma um tripulante da TAP num tripulante da Ryanair. Há mínimos”, afirmou Ricardo Penarroias, presidente do SNPVAC, após a assembleia. “Quando eu recebo uma proposta que é abaixo do próprio Acordo de Emergência, é indigna para ser recebida pelo sindicato”, acrescentou. “Queremos respeito e queremos recuperar as nossas condições”.

A TAP veio lamentar a convocação da greve, mas mostrou-se disponível para continuar a negociar. “A TAP lamenta a decisão e continuará a trabalhar com os tripulantes de cabina numa solução de novo Acordo de Empresa para a classe que seja digna para ambas as partes e respeite também o esforço que todos os portugueses investiram na companhia”, reagiu fonte oficial da transportadora aérea, numa declaração enviada à comunicação social.

No dia 6 de dezembro, antes ainda da greve, será realizada uma segunda sessão da assembleia-geral do SNPVAC, para fazer um ponto de situação das conversações com a TAP. Nesse dia ficará claro se a paralisação avança ou não.

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