Soledar, a cidade ucraniana onde "já ninguém conta os mortos” e que o Grupo Wagner quer tanto

11 jan, 11:05
Soledar, Ucrânia (AP/Libkos)

A conquista da pequena cidade pela Rússia poderá inverter a tendência verificada desde o verão passado. Combates evidenciam a preponderância cada vez maior do Grupo Wagner e do seu líder, Yevgeny Prigozhin

Soledar é, por estes dias, o epicentro da guerra na Ucrânia. A cidade, situada no oblast de Donetsk, tem sido palco de intensos confrontos entre as tropas ucranianas e o Grupo Wagner, com ambos os lados a reclamar que controlam a localidade.

Na terça à noite, Yevgeny Prigozhin, líder da empresa paramilitar russa, afirmou no Telegram que as suas forças teriam capturado a cidade, que fica a cerca de 10 quilómetros de Bakhmut, naquela que será a primeira vitória territorial da Rússia na guerra desde o verão de 2022. "As unidades do Grupo Wagner assumiram o controlo de todo o território de Soledar. Está um caldeirão no centro da cidade, no qual se travam combates urbanos", disse, citado pelo The Guardian. “O número de prisioneiros será anunciado amanhã”.

Na foto anexada a este anúncio, Prigozhin aparece junto a alguns elementos da sua força, aparentemente, num dos túneis das minas de sal de Soledar, as maiores da Europa.

Denis Pushilin, líder pró-russo da autoproclamada República Popular de Donetsk, também confirmou a captura da localidade. “Segundo as informações de que disponho, o centro de Soledar já está sob o controlo do Grupo Wagner”, afirmou ao canal Rússia 1, mencionando também que as tropas ucranianas “continuam a resistir” apesar das “enormes perdas”.

Mais cauteloso está o Kremlin que, esta quarta-feira de manhã, não confirmou a conquista da cidade. “Vamos esperar pelos relatórios oficiais, mas sabemos que há uma dinâmica positiva [em Soledar]”, disse o porta-voz Dmitry Peskov, citado pela RIA Novosti.

O próprio Ministério da Defesa britânico adiantou, no seu briefing matinal de terça-feira, que as forças russas “provavelmente controlam a maioria da povoação”. No entanto, a Ucrânia não confirma este novo desenvolvimento.

No seu discurso de terça-feira à noite, o presidente ucraniano agradeceu aos “heróis” que defendem Soledar, mas não deu qualquer novidade quanto ao estado dos combates. Na segunda-feira, Volodymyr Zelensky afirmou que a cidade estava “completamente destruída”. "A área perto de Soledar está coberta de cadáveres dos invasores. É uma insanidade", referiu o líder ucraniano, que salientou que a “resiliência” das tropas de Kiev permitiu ganhar “tempo e força adicionais”. Também a vice-ministra da Defesa da Ucrânia, Hanna Maliar, referiu que os “combates intensos prosseguem” e que os soldados ucranianos “estão a lutar corajosamente”.

A brutalidade da luta é também atestada por Serhiy Cherevaty, porta-voz do Comando Militar do Leste das Forças Armadas ucranianas, que disse na televisão nacional que os combates no terreno são intensos e podem ser comparados aos da Segunda Guerra Mundial. 

À CNN Internacional, um soldado ucraniano a combater na cidade, que não foi identificado por razões de segurança, garantiu que a situação é “crítica”. "Ninguém consegue dizer quantos mortos e feridos há, ninguém sabe ao certo. Nem uma única pessoa. Em Soledar, já ninguém conta os mortos”, disse. O combatente mostrou-se também insatisfeito com a estratégia adotada.

"Todos compreendem que a cidade será abandonada. Toda a gente compreende isto. Só quero perceber qual é o objetivo. Porquê morrer, se de qualquer forma vamos abandonar Soledar hoje ou amanhã?", questionou.

Porque é que Soledar é importante?

O foco da Rússia nesta cidade tem várias justificações. No último sábado, Prigozhin, sempre honesto a explicar os seus objetivos, revelou o porquê de achar a conquista de Soledar muito importante. "A cereja no topo do bolo é o sistema de minas de Soledar e Bakhmut, que é na realidade uma rede de cidades subterrâneas. Não só tem a capacidade de aguentar um grande grupo de pessoas a uma profundidade de 80-100 metros, como também tanques e veículos de combate de infantaria podem deslocar-se por lá", afirmou, citado pela Reuters. Prigozhin referiu, também, que há depósitos de armamento neste sistema de túneis, com armas armazenadas ao longo das décadas desde a Primeira Guerra Mundial.

De acordo com a agência de notícias, a maioria dos túneis tem 30 metros de altura, O tamanho das câmaras é tão grande que as minas já foram palco de concertos, como o da Orquestra Filarmónica de Donetsk em outubro de 2004, e jogos de futebol.

Para além das minas de sal, a zona em torno de Soledar é rica em gesso, mineral muito utilizado como fertilizante, mas também no fabrico do cimento e na medicina.

No contexto da guerra, a conquista desta cidade é importante para a tomada da cidade de Bakhmut, que tinha uma população de 70 mil pessoas antes da guerra começar. A conquista de Bakhmut, chamada pelos russos de Artyomovsk, seria, por sua vez, bastante importante para o assalto a outras duas cidades mais relevantes, Kramatorsk e Sloviansk, já no limite do oblast de Donetsk, que a Rússia reclama como território seu desde o ano passado.

À CNN Portugal, o professor de Relações Internacionais André Matos salienta, ainda, o aspeto simbólico da conquista. “Inverte a tendência que temos vindo a assistir nos últimos meses, dos avanços e reconquista de territórios por parte da Ucrânia”, afirma, frisando, no entanto, que a queda de Soledar “não representa o colapso da Ucrânia”.

Prigozhin e o Grupo Wagner cada vez mais determinantes

A luta por Soledar e Bakhmut evidencia o papel cada vez mais relevante do Grupo Wagner no conflito. Um oficial dos serviços de informação ocidentais estimou, sob anonimato, que os soldados do grupo paramilitar podem compor até um quarto das tropas russas no terreno.

Yevgeny Prigozhin tem aproveitado o duro combate pelas duas cidades para promover o seu grupo. "Quero sublinhar mais uma vez que ninguém, excepto o Grupo Wagner, participou na ofensiva a Soledar", afirmou na terça-feira à noite, citado pelo The Guardian. Considerado o “Chef de Putin”, Prigozhin também não tem perdido oportunidade para atacar as mais altas hierarquias militares, inclusive o ministro da Defesa Sergei Shoigu, com quem está de relações cortadas. O sucesso no terreno ajuda a promover a imagem de que o Grupo Wagner é verdadeiramente patriota, por oposição a um exército percecionado como corrupto e incompetente.

"Quando conquistarmos a nossa burocracia interna e a corrupção, então conquistaremos os ucranianos e a NATO. O problema agora é que os burocratas e aqueles que se dedicam à corrupção não nos vão ouvir, porque para o Ano Novo todos eles estão a beber champanhe", disse Prigozhin na semana passada, citado pela CNN Internacional.

A força que o Grupo Wagner tem ganho deve-se em grande parte à muito agressiva estratégia de recrutamento, aprovada pelo Kremlin. Na segunda metade do ano passado, Prigozhin deslocou-se a dezenas de prisões russas com uma promessa aos reclusos: se lutarem durante seis meses na Ucrânia receberão um perdão e não terão de voltar para a cadeia. De acordo com grupos de defesa dos direitos dos prisioneiros, citados pela CNN Internacional, a estratégia permitiu recrutar cerca de 30 mil soldados para as suas fileiras.

Sobre esta tática, o líder do Grupo Wagner regozija-se e garante que os homens que recrutam “renascem” ao combater e prolongam a sua campanha por outros seis meses. Num vídeo gravado na semana passada, Prigozhin pode ser visto a cumprimentar os soldados que cumpriram os seis meses e se preparam para voltar para a Rússia. "Cumpriram os vossos contratos com honra, com dignidade. Agora, não bebam muito, não consumam drogas e não violem nenhuma mulher: façam amor ou paguem por ele", disse num tom jocoso, mostrando, também, indiferença perante os seus combatentes mortos. "Eles morreram heroicamente. O seu contrato terminou, vão para casa na próxima semana".

Owen Matthews, autor do livro “Overreach: a História da Guerra de Putin contra a Ucrânia”, assegura que o sucesso da estratégia de Prigozhin está relacionado com o facto de os soldados do seu grupo serem vistos como “dispensáveis”. "Essencialmente, as mortes de ex-prisioneiros e mercenários não terão o mesmo tipo de impato político na opinião interna que as mortes de 'soldados comuns' teriam. Dito isto, eles estão incrivelmente dispostos a morrer por dinheiro se forem mercenários, ou pela sua liberdade se forem prisioneiros", explicou à Al Jazeera.

Ao longo da guerra, Yevgeny Prigozhin tem aproveitado para expandir e desenvolver os seus negócios, como evidencia a inauguração, em novembro passado, da luxuosa e moderna sede do Grupo Wagner em São Petersburgo. A conquista de Soledar, a confirmar-se, poderá reforçar a sua posição na sociedade russa, bem como melhorar ainda mais a perceção do Grupo Wagner junto da opinião pública.

Europa

Mais Europa

Patrocinados