Proibir venda de smartphones será "contraproducente". Mas fica um conselho para os pais: tablets e telemóveis não são chuchas

18 abr, 17:13

Dois psicólogos explicaram à CNN Portugal que esta é uma problemática que não pode ser vista como simplesmente "preto ou branco". Por um lado, os dispositivos digitais não são chuchas tecnológicas que proporcionaram aos pais refeições mais descansadas, por outro, diabolizar as novas tecnologias pode acarretar consequências futuras para toda uma geração

O Reino Unido está a ponderar avançar para uma proibição de vendas de smartphones a jovens com menos de 16 anos. A medida surge depois de várias sondagens terem mostrado um aumento significativo do tempo passado à frente do ecrã do telemóvel por parte dos menores britânicos. Esta intenção ganhou ainda mais força depois de 58% dos 2.500 pais, inquiridos no "Parent poll on smartphones — March 2024", concordarem com a proibição. Mas será eficaz ou sequer um caminho viável diminuir os tempos de ecrã e para o desenvolvimento dos jovens?

É preciso "refletir": nem tudo é "preto ou branco"

A CNN Portugal entrevistou dois psicólogos que concordam que, por si só, a medida é claramente ineficaz. Rosário Carmona e Costa não esconde que este é "um tema de facto muito importante", mas esclarece que a resposta não pode ser vista como "preto ou branco" e é preciso "refletir". A especialista em comportamento humano lembra que "do ponto de vista histórico sabemos que a proibição nunca é boa ideia".

"Sabemos que para o desenvolvimento e para que possamos capacitar os jovens para autonomia, para a gestão do risco, para a consciência da forma como se colocam perante uma situação de perigo, não é boa ideia proibir exclusivamente”, explica.

Rosário Carmona e Costa entende que há dois caminhos para lidar com a relação das crianças e jovens com as novas tecnologias: "Proibir ou sensibilizar" (Fonte: Getty)

No entendimento do psicólogo Luís Fernandes, a proibição também não é a opção mais satisfatória, até porque o especialista defende que há duas hipóteses para responder à problemática do tempo em frente a ecrãs dos jovens e aos perigos inerentes ao mundo virtual: "Proibir ou sensibilizar", sendo que "proibir de uma forma pura e dura acaba por ser até contraproducente”. Por isso o especialista defende "uma vertente mais pedagógica com o envolvimento de todos os participantes" desta problemática.

Não transforme o seu filho num "órfão digital"

O especialista em psicologia realça que "muitas vezes falamos em nativos digitais e cada vez mais devemos começar a falar em órfãos digitais", explicando que esta nomenclatura se refere a "miúdos que muitas vezes passam demasiado tempo com dispositivos digitais, telemóveis e outros, mas sem qualquer supervisão". 

"Costuma-se dizer que estamos perante uma cadeira com quatro pernas, em que tem de haver uma intervenção a nível regulamentar, também a nível educacional, mas ainda uma abordagem a nível parental e tecnológico", explica Luís Fernandes, referindo que "se tivermos só uma destas vertentes, vai ser sempre uma cadeira que coxeia um pouco e que está desequilibrada".

Psicólogo Luís Fernandes diz que os dispositivos tecnológicos "não são chuchas" para acalmar crianças. (Fonte: AP)

Apesar de não utilizar o termo "órfãos digitais", Rosário Carmona e Costa assegura que "a primeira coisa sobre a qual temos de refletir é que a componente psicopedagógica é urgente". Por isso a psicóloga alerta que "muitos pais não estão conscientes do impacto que estas questões têm na vida dos seus filhos". "Há uma fase muito precoce de desenvolvimento da criança em que dá muito jeito aos pais que os filhos estejam perante os ecrãs com a esperança de que, quando a coisa complicar, talvez consigam intervir", mas, em alguns casos não conseguem, lembra a psicóloga, explicando que "depois a criança vai-se desenvolvendo e há riscos que não consegue gerir".

Diabolizar pode criar uma geração menos preparada

Rosário Carmona e Costa afirma ainda que há "uma segunda linha de pensamento": "Por um lado proibir por si só nunca vai ser eficaz, porque vamos despreparar os jovens para quando tiverem de lidar com as novas tecnologias todos os dias. Por outro lado, há contextos em que podem não fazer sentido as novas tecnologias, como no contexto escolar, porque o recreio é um contexto de socialização".

A psicóloga assegura, no entanto, que as tecnologias estão cada vez mais presentes na sociedade e que é necessário "não diabolizar" o advento tecnológico. "As novas tecnologias são muito boas, trazem ganhos muito significativos, são algo com que nos deparamos diariamente e, portanto, os nossos jovens vão precisar de saber autorregular-se no futuro para fazerem delas uma boa utilização", diz, referindo que existe um contraponto: "Ao mesmo tempo, precisamos de ter a certeza que o nosso filho desenvolveu competências absolutamente básicas para a sua adaptação ao mundo como, por exemplo, a capacidade de gerir o comportamento, a capacidade de gerir as emoções ou capacidade de tolerar a frustração". Estando definidas estas duas vertentes Carmona e Costa partilha uma máxima à qual os progenitores se podem agarrar: "Se os meus filhos estão a dar provas que estas capacidades estão a ser bem desenvolvidas, então não há por que retirá-los dos ecrãs".

Tablets e smartphones não são chuchas: até aos seis anos tempo de ecrã deve ser zero

Luís Fernandes destaca que a Organização Mundial de Saúde e outras entidades apontam que "até aos seis anos o tempo de exposição online deveria ser zero ou praticamente zero". Contudo, o que acontece na realidade, como explica, é que "temos miúdos por volta dos cinco anos que já estão pelo menos três horas por dia agarrados aos ecrãs", assegurando que isso "é algo que nos deve preocupar bastante".

"É importante haver uma conversa em casa sobre estas questões, porque muitas vezes os dispositivos digitais acabam por ser quase uma chucha. Muitas vezes vamos um sítio e para o nosso filho estar sossegado e termos, por exemplo, uma refeição tranquila, passa-se um dispositivo digital e, muitas vezes, miúdos muito novos já estão a ser expostos a este tipo de conteúdos", diz Luís Fernandes.

Organização Mundial de Saúde defende que, até aos seis anos, as crianças não devem ser expostas a ecrãs. (DR)

Perigo é uma constante da vida de qualquer humano

Quanto à proibição de telemóveis na escolas, Luís Fernandes entende que pode fazer sentido, mas alerta que é preciso disponibilizar alternativas às crianças: "Proíbem ou restringem a utilização de dispositivos digitais e o telemóvel em concreto, mas depois não disponibilizam algumas possibilidades ao nível do recreio", diz, lembrando que em Portugal "temos muitas escolas em que os recreios acabam por ser territórios de ninguém, não há equipamentos desportivos disponíveis, não há qualquer tipo de atividade que os alunos possam ter para colmatar essa falta de dispositivos".

Todavia, perante as posições contra ou a favor da proibição de smartphones e os perigos inerentes ao mundo digital, a psicóloga Rosário Carmona e Costa lembra e pede aos pais que se mentalizem: "Os nossos filhos estão expostos aos perigos desde que os colocamos no mundo".

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