Não é só na obstetrícia que há envelhecimento dos médicos. Nos médicos de família e na saúde pública o problema é ainda maior

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O envelhecimento da classe médica ganhou relevância nos últimos dias com o caos nas urgências de obstetrícia e ginecologia, mas há especialidades onde o problema é ainda mais grave.

Os números da Ordem dos Médicos consultados pela CNN Portugal revelam que 52% dos médicos de obstetrícia e ginecologia têm mais de 60 anos e 38% mais de 65 anos. Dos números anteriores, a Ordem dos Médicos não consegue saber quantos já se aposentaram, mas é certo que uns já se reformaram e outros estão à beira da reforma numa área da saúde onde a idade é um problema mais complicado  –   a partir dos 55 anos os médicos não têm de fazer urgências algo que se sente muito nas maternidades.  

"Vamos tendo menos capacidade de trabalho"

Nos centros de saúde, contudo, o cenário de envelhecimento da classe é ainda mais evidente: 55% dos especialistas em medicina geral e familiar tem mais de 60 anos e 40% mais de 65 anos. Rui Nogueira, ex-presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, é um dos casos que está à beira da reforma, apesar de, aos 64 anos, ainda se imaginar a trabalhar mais alguns anos. No entanto, nem todos os colegas pensam o mesmo. "À medida que vamos ficando mais velhos também vamos tendo menos capacidade de trabalho. Os mais velhos querem sair e os mais novos não querem entrar", detalha o clínico, sublinhando que as condições de trabalho são cada vez piores nos centros de saúde. "Abrir vagas onde não há condições de trabalho não atrai os colegas, principalmente se tiverem melhores alternativas e nomeadamente a ganhar mais", explica.

Perante o acelerado envelhecimento destes médicos, não surpreende que cada vez mais portugueses - quase 1,4 milhões em maio - não tenham médico de família. "O envelhecimento da população médica é muito preocupante e já estava previsto há quatro ou cinco anos", refere Rui Nogueira que admite que a situação "começa a ser insustentável".

Dois terços da saúde pública acima dos 60 anos

Além dos médicos de família, há outra área na saúde ainda mais envelhecida: 68% dos médicos de saúde pública têm mais de 60 anos e 42% mais de 65 anos.  
O presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública admite que esta área faz um trabalho silencioso, de certa forma escondido, que ganhou visibilidade pública com a pandemia da covid-19, mas que evita que muito mais doentes cheguem aos hospitais e às urgências. "Temos profissionais cada vez mais envelhecidos e corremos o risco de sermos ainda menos do que hoje", diz Gustavo Tato Borges que sublinha que muitos serviços já estão actualmente desfalcados. Durante muitos anos a saúde pública não foi valorizada o que afastou grande parte dos potenciais especialistas nesta área, havendo uma grande falta de médicos com idades entre os 40 e os 60 anos o que significará um "aperto" maior nos profissionais disponíveis nos próximos anos.  A agravar o cenário, a associação sublinha que os médicos que saem das universidades para trabalhar na saúde pública não chegam e mesmo assim muitos optam por sair do país para trabalhar no estrangeiro.

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