Exclusivo. Russell Crowe garante que não é de Hollywood, apesar da carreira de sucesso que fez por lá: “Sou um completo forasteiro”

1 dez 2022, 16:53

“Poker Face” é o novo filme do ator neozelandês nas salas de cinema e também um dos que lhe deu mais trabalho até agora, porque assumiu a realização, reescreveu o argumento e interpretou o papel principal. Foi, portanto, em três frentes e em plena pandemia que se dedicou à rodagem de um thriller que começa com um jogo de cartas entre amigos, mas acaba como nenhum deles imaginou.

Desta vez, a entrevista a Russell Crowe foi diferente das outras que lhe fiz a propósito de “Master & Commander” (Londres, 2003) e “The Next Three Days” (Nova Iorque, 2010), não só porque aconteceu via zoom, mas sobretudo porque reencontrei um ator mais confiante, descontraído e também convicto de que não é uma estrela de Hollywood. Sim, foi Hollywood que fez dele uma estrela global, sobretudo à conta do Óscar de Melhor Ator que ganhou com “Gladiador” (2000) às ordens de Ridley Scott; Russell Crowe reconhece essa consagração, mas garante que “não está dentro do negócio”, até porque escolheu viver na Austrália e é a partir de lá que gere as oportunidades que vão surgindo. “Estou num lugar diferente, agora”, confidencia, ao mesmo tempo que sublinha o privilégio que é gostar daquilo que faz, decidir o que quer fazer e ainda ser pago por isso. Fica claro que a vida lhe corre bem aos 58 anos… e não há “poker face” que disfarce isso.

Este é realmente o seu filme. Realização, argumento, papel principal. Até que ponto foi desafiante essa tripla experiência?

Foi tão extrema (sorriso) que não sei bem como descrevê-la, sabe? Este filme chegou a mim muito tarde, apenas a cinco semanas do início da rodagem. Havia várias situações, pessoas a transformar a ideia original numa grande confusão do ponto de vista narrativo. Pensei nisso e compreendi que, se esperamos na vida pelo momento perfeito para fazermos arte, vamos esperar muito tempo. Tive de apoiar-me no facto de ter muita experiência, conheço o meio muito bem e tenho muita confiança na minha capacidade de tomar uma decisão… porque é esse é basicamente o trabalho (sorriso). Por isso, decidi ir em frente. Na verdade, dez dias antes de ser convidado, o meu pai faleceu. Estava num momento muito particular, como deve imaginar. Dizer que não significaria que 280 pessoas da indústria australiana do cinema - muitas delas trabalharam comigo nos últimos 30 anos, ficariam sem trabalho durante a pandemia e numa altura em que Sydney estava confinada. Há que respeitar os deuses do Cinema. É preciso muito trabalho para conseguir financiamento para um filme, especialmente se for uma produção independente na Austrália.

“Minimiza as tuas perdas e mantém-te no jogo o máximo que puderes” é provavelmente uma das falas mais fortes do seu personagem. Isso aplica-se a Hollywood de alguma forma?

Sim, mas tem de se lembrar que eu não sou de Hollywood, sabe? (sorriso) Sou um completo forasteiro. Nasci na Nova Zelândia, escolhi viver na Austrália…. Obviamente, tive grande sucesso a trabalhar para estúdios americanos e assim… Não sou alguém que está dentro do negócio dessa forma, sabe? O facto de fazer filmes ao fim de mais de 30 anos e ainda ter esse estatuto de forasteiro…. Ser ator é a expressão artística mais competitiva do mundo. A Screen Actors Guild diz que, a todo o momento, 98% daqueles que se dizem atores estão desempregados.

Há mais de dez anos, no lançamento do filme “The Next Three Days” em Nova Iorque, disse-me que adorava o trabalho de ator, mas não adorava tudo o que ele implica, nomeadamente dar entrevistas. Ainda pensa da mesma forma?

Absolutamente! Aquilo que me mantém e faz continuar é o facto de ter uma fé muito pura e simples naquilo que faço na vida. Gosto mesmo do meu trabalho, sabe? Gosto de acordar às quatro da manhã, se quero interpretar um excerto de um diálogo em particular. Está na minha natureza. Também gosto das complexidades do processo, de partir algo num milhão de pedaços e apanhar cada um desses pedaços para fazer um filme. É o trabalho que faço desde pequeno. Há provavelmente mais coisas de que não me lembro, do que todas as que as pessoas conhecem…. Tinha 6 anos quando fiz o meu primeiro trabalho, em 1970. Comecei a ser protagonista de filmes aos 25. Agora, tenho 58…

O que falta ainda na sua carreira? E como se sente em relação à vida em geral, neste ponto da sua vida?

Estou a adorar! Estou mesmo a gostar, sabe? Porque estou num lugar diferente, agora. Não carrego necessariamente às costas todas as produções em que participo. Por vezes, apareço e só trabalho algumas semanas como aconteceu quando fiz de Zeus para o Taika Waititi (“Thor: Love and Thunder”) ou contracenei com o Zac Efron em “The Greatest Beer Run Ever”. Mas depois, no ciclo do tempo, surgirá uma oportunidade para ser o protagonista. Estou num lugar muito bom, faço os trabalhos que quero fazer. Por isso, nunca estou preso num local de rodagem, a amaldiçoar-me e a perguntar-me: porque estou aqui? Não me deixo enganar para fazer algo, porque alguém quer passar-me um cheque, sabe? Vou trabalhar porque gosto de ir trabalhar. O facto de me pagarem é um bónus.

“Poker Face” é uma das estreias da semana nos cinemas portugueses

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