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Mandela, Pinto da Costa e os “Super Conceições”: uma questão de… educação (ou de falta dela)

2 abr, 13:02
Revolta de Wendell após o Estoril-FC Porto (ANTÓNIO COTRIM/Lusa)

Nelson Mandela disse um dia que “a educação é a arma mais poderosa que alguém pode usar para mudar o mundo”.

Uma das coisas que sempre mais abominei no futebol em Portugal é a falta de educação.

Justificar comportamentos que não são razoáveis em nenhuma parte do globo terráqueo, seja na Europa, em África, na América, na Ásia ou na Oceania, através do calor da competição ou da vontade de ganhar é uma ofensa a quem acredita na força da educação e a quem, como Mandela, acredita que é possível viver num mundo melhor.

Mandela ajudou a transformar o mundo com ações positivas, agregadoras, absolutamente exemplares.

O futebol é um Desporto.

O futebol profissional, apesar de assentar numa indústria que faz movimentar milhões e acentua algumas imparidades, é um Desporto.

E o Desporto é vida. Que serve para poder ajudar a resolver problemas de saúde mental. Que deve servir para acentuar o sentido gregário das pessoas. Que junta, une e mobiliza. Mas que, se não fizer funcionar a sua capacidade seletiva, regulada pelas próprias sociedades e pelos Estados que as tutelam, pode ser altamente destrutivo.

Daí a importância da educação de quem a valoriza ou despreza.

Presidentes e treinadores de futebol estão em posições de liderança e, se não souberem utilizar positivamente a força social do futebol como geradores de emoções e paixões clubísticas, o seu papel torna-se perigoso e desprezível.

No futebol como na vida é preciso saber ganhar e saber perder. E em Portugal, quando se ganha, o sentimento de realização profissional transforma-se muito facilmente em arrogância e, quando se perde, a frustração leva as pessoas para o campo da intolerância e da violência.

Devemos ter o cuidado, no entanto, de separar comportamentos atípicos (uma andorinha não faz a Primavera) de comportamentos típicos e reincidentes.

O que torna mais grave aquilo que aconteceu na Amoreira é a reincidência da matriz de comportamento quando se perde.

O treinador Sérgio Conceição não gosta mais de ganhar do que a generalidade dos treinadores portugueses e do mundo. Pode ser melhor a preparar equipas, pode ser um chato com os jogadores (“não gostava de ser treinado por um treinador com as minhas características”, disse ele um dia destes), pode até ser a peça perfeita que encaixa numa engrenagem maior, mas independentemente das razões que possa ter na avaliação sempre subjectiva de lances de arbitragem não tem o direito de transformar um jogo de futebol num espaço de arruaça.

O comportamento dos atletas que dirige resulta apenas na extensão do falhanço da sua liderança. Um bom líder inspira-se no exemplo de Mandela. Não se inspira em maus exemplos.

Na Amoreira, o descontrolo emocional dos jogadores que orienta só não teve consequências ainda maiores porque o árbitro António Nobre não exerceu em pleno a sua autoridade. Aguentar insultos na sua cara, ser aplaudido a um metro do seu rosto como aconteceu com Francisco Conceição, Pepe, Evanilson e deixar sem punição uma investida de Wendell sobre um dos árbitros-assistentes não podem ser consideradas decorrências do alegado “estado de revolta”.

Esta total falta de noção daquilo que é mais elementar, a basezinha como dizia o Eça, é preocupante mas é também uma consequência do medo e da inoperância disciplinar. Como é que um dirigente como Luís Gonçalves pode continuar a sentar-se nos bancos dos estádios de futebol? Como é que não existe uma entidade capaz de exercer a autoridade, em nome da salvaguarda dos princípios mais básicos do desportivismo?

O alegado “estado de revolta”, tantas vezes verbalizado, não pode justificar tudo. E a forma como Pinto da Costa, no pós-jogo, geriu a crise demonstra mais uma vez o quão importante continua a ser para ele e para os seus sequazes o uso da técnica da vitimização.

Já o filosofo dizia que “o desespero é o caminho mais longo para se chegar à vitória”. Mas, antes do desespero, vem a matriz. E a educação. Ou a falta dela.

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