Vesícula de lebre com mel e cão assado para pomada: remédios medievais grotescos revelados em manuscritos recuperados

CNN , Amarachi Orie
28 ago, 13:00
Manuscritos revelam remédios medievais (Foto: Cambridge University Library)

Hoje em dia, podemos comer uma canja de galinha para ajudar a combater uma constipação, mas um novo projeto que recupera manuscritos milenares revela os bizarros medicamentos que eram recomendados na época medieval.

A violência da sociedade medieval está bem detalhada nestas receitas, desde horrendos tratamentos de origem animal até conselhos para tratar ossos partidos ou determinar se um crânio foi fraturado. 

A Biblioteca da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, lançou um projeto de dois anos para digitalizar, catalogar e conservar os mais de 180 manuscritos medievais com quase oito mil receitas médicas manuscritas não editadas. A maioria dos manuscritos data dos séculos XIV ou XV, tendo o mais antigo mil anos. Alguns são pequenos cadernos, para serem mais facilmente transportados, e poderiam ter sido escritos pelos próprios médicos, de acordo com a Universidade de Cambridge.

Desenhos do século XV com frascos de urina, ilustrando as diferentes cores da urina de um paciente, com as doenças descritas em cima.  Crédito: The Master and Fellows of Trinity College, Cambridge

Por norma, as receitas contêm algumas instruções simples, semelhantes às prescrições modernas ou aos livros de culinária.

Nos textos, são referidos ingredientes comuns que conhecemos hoje, incluindo ervas como salva, alecrim, tomilho e hortelã, e também especiarias como cominho, pimenta e gengibre. No entanto, existem alguns ingredientes questionáveis, nomeadamente os que são provenientes de animais.

Receita para a “doença do suor”, inserida numa compilação de informações para as famílias, século XV. Crédito: Biblioteca da Universidade de Cambridge

Sofre de gota? Um tratamento medieval implicava alimentar um cachorrinho com caracóis e salva e assar o animal numa fogueira. A gordura derretida era então usada para fazer uma pomada. Uma receita alternativa propunha salgar uma coruja e cozê-la, até que pudesse ser moída em pó e misturada com gordura de javali, para fazer uma pomada que seria aplicada no corpo do doente.

E cataratas? Uma receita sugeria misturar a vesícula biliar de uma lebre com mel e aplicá-la no olho com uma pena. Este tratamento devia ser feito durante três noites.

"Estas receitas servem para nos lembrar da dor e precariedade da vida medieval. Antes dos antibióticos, antissépticos e analgésicos, tal como os conhecemos hoje", disse James Freeman, especialista em manuscritos medievais da Biblioteca da Universidade de Cambridge, que lidera o projeto Curious Cures.

"Por trás de cada receita, ainda que distante, há uma história humana, experiências de doença e de dor, mas também há o desejo de viver e ser saudável. Algumas das mais comoventes são aquelas que falam das esperanças ou desilusões trágicas dos povos medievais. Receitas para fazer com que um homem e uma mulher tenham filhos, para saber se uma mulher grávida vai ter um menino ou uma menina, ou para fazer nascer um feto morto", acrescentou James Freeman.

Diagrama do corpo humano, mostrando as veias a serem abertas para a sangria, século XVI. Crédito: The Master and Fellows of Trinity College, Cambridge

Carne que cresce dentro dos olhos de um homem, úlceras virulentas e cancros são apenas algumas das preocupantes enfermidades que afetavam as pessoas medievais, reveladas nestes livros de receitas. 

As imagens digitais dos manuscritos, juntamente com descriçõees detalhadas e transcrições produzidas pelos catalogadores do projeto, serão publicadas e disponibilizadas gratuitamente para qualquer pessoa que queira aceder à Biblioteca Digital de Cambridge, segundo Freeman. "O objetivo é ajudar tanto os investigadores como o público a compreender, estudar e valorizar estes artefactos únicos e insubstituíveis", acrescentou ele.

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