Uma pessoa, duas profissões. Eles fazem das redes sociais o segundo trabalho, mas "odeiam" que lhes chamem influencers

15 jan, 12:00
Uma pessoa, duas profissões. Um chef, um PT e uma sexóloga que fazem das redes sociais o segundo trabalho

Há quem deixe tudo para trás assim que o número de seguidores aumenta. E há quem devote às redes tanto tempo como à profissão, sem deixar os tachos, o ginásio ou as consultas, como Fábio Bernardino, Felisberto Pereira e Tânia Graça. Porquê?

“Odeio que me chamem influencer, só quero educar”

5 de agosto de 2020: os ginásios estavam fechados e, numa altura em que a pandemia tinha muito impacto no quotidiano, Felisberto Pereira, com um “stress do caraças”, decidiu arriscar e fazer a sua primeira publicação a treinar ao ar livre. Hoje diz ter vergonha desse vídeo, mas foi aí que tudo começou. Foi assim que ligou a câmara e voltou aos tempos em que decidiu ser personal trainer.

Era um jovem tímido, inseguro e magro, que quis começar a “não ser morcão” - a frase com que abre muitos dos seus vídeos - e tornar-se PT. O seu objetivo, garante, é ajudar pessoas tal como o exercício físico o ajudou a ele.

“Sentia que não havia conteúdo sobre o mundo do fitness com que me identificasse. Há demasiada informação nas redes sociais, mas nem toda é fidedigna. As pessoas só querem ouvir que conseguem ter abdominais numa semana, mesmo que seja mentira. O que eu faço é tentar explicar os factos de forma simples para ajudar as pessoas”, detalha à CNN Portugal.

Não é influencer, diz, só se vê como PT. “Odeio que me chamem influencer (...) Um médico não deixa de ser médico se criar conteúdos”, explica. Felisberto, com 27 anos, tem um propósito bem claro para o seu trabalho nas redes sociais: “Quero educar. Parece clichê, mas é a verdade.” 

Não faz parcerias com marcas. “Eu quero ganhar dinheiro a educar e não a publicitar produtos nos quais eu não acredito. E tenho orgulho em dizer que todo o dinheiro que ganho é a educar”.

O sentido de humor é uma constante na página de Felisberto Pereira e tornou-se a característica principal dos conteúdos que rapidamente fizeram o número de seguidores crescer. A razão? “O exercício físico não tem de ser chato”, defende.

“Quando comecei queria ser politicamente correto, mas depois comecei a ser eu mesmo”. “Não sejas morcão” é a frase que todos podem associar aos seus vídeos. “Pode parecer ofensivo, mas é algo que os meus pais sempre disseram. Faz parte da minha vida”.

As redes sociais não foram só uma forma de libertar a sua criatividade, mas também o ajudaram a alcançar mais alunos para os seus treinos no estúdio que também usa para gravar os vídeos e onde trabalha há um ano e meio. Mostrá-lo foi a primeira coisa que fez quando recebeu a CNN Portugal, um rés-do-chão na Maia transformado em ginásio por alguns dos seus amigos e especialmente pensado para treinar com personal trainer. 

“Não queria estar associado a nenhuma marca e assim tenho a liberdade de organizar os treinos que dou. Os meus alunos assim também estão mais confortáveis para treinar e ajudo os meus amigos”.

Conciliar o trabalho como PT com a criação de conteúdos não é “de forma nenhuma fácil”. Muitas vezes a gravação acaba por ser feita à noite, quando o ginásio já fechou. Apesar desse esforço, Felisberto não pretende parar com o trabalho no digital, mas tem sempre em mente técnicas para que as redes sociais não consumam a sua vida. “Só vou às redes sociais para criar, evitando mesmo consumir conteúdo. De certa forma, isso até me torna mais criativo porque não caio na tentação de imitar outros criadores”.

Como inspiração tem as dúvidas dos seus alunos. “É graças a eles que eu tenho ideias para as publicações que faço e, genuinamente, adoro a minha rotina de dar treinos e depois fazer vídeos”. Gravar não é algo impulsivo para Felisberto. Aliás, ligar a câmara é o último passo. Antes, para se sentir “seguro”, tem de decidir o tema, escrever um guião e escolher onde vai gravar as várias partes dos vídeos.

As redes sociais mudaram a vida de Felisberto Pereira, que cresceu de 20 mil para 100 mil seguidores só nos últimos cinco meses, desde agosto de 2022.

Mal começou a ver algum feedback, decidiu investir: câmaras, microfones, programa de edição de vídeo e arriscou a 100% nas redes sociais. De repente e sem hesitar, foi buscar uma grande mochila e começou a mostrar todo o equipamento que utiliza. Um a um foram enchendo a secretária da sala de avaliações físicas do estúdio. “Investi mais de quatro mil euros. Não é só para os vídeos, tornou-se uma paixão. Há dias que vou caminhar e começo a tirar fotografias só porque sim”. 

Com um olhar decidido, Felisberto Pereira não hesitou a falar dos seus objetivos para o futuro. “Claro que quero escalar isto. Quero continuar a trabalhar no ginásio, mas um dia vou criar a minha academia de treinos online. As pessoas pensam que se tiverem um corpo incrível vão, automaticamente, ser felizes e isso não é verdade. Eu quero ajudar! Quero educar, dar confiança e factos”. 

De “qual influencer, qual caraças” a “sou criador de conteúdos”

Muitos quilómetros a sul, na Amadora, com 34 anos, Fábio Bernardino tanto pode dizer chef como criador de conteúdos quando descreve a sua profissão. 

O mundo digital sempre foi o calcanhar de Aquiles de Fábio Bernardino. “Não ligava nenhuma às redes. Sim, comunicava na televisão, mas para mim as redes não eram trabalho e eu tinha mais que fazer. Qual influencer, qual caraças. Tinha mais que fazer”. Três anos depois, conta, “faço diretos todos os dias às 19.00”.

“Nunca falhei, mesmo! Até houve um dia em que estava a fazer obras em casa e uma telha me caiu na cabeça. Fui logo para as urgências. Já estava a pensar que tinha de fazer o direto no hospital, mas consegui sair a tempo e cheguei a casa mesmo à hora certa."

Já fez o direto enquanto lhe rebocavam o carro, em viagem ou durante programas de televisão: Fábio passou de desprezar as redes sociais para ser um profissional já com mais de dois mil diretos ao longo dos anos, publicando conteúdos todos os dias. Como?

Quando era pequeno gostava muito de comer e foi por essa razão que se tornou chef. Os pais não eram “peritos na cozinha” e a necessidade de provar novos ingredientes e receitas falou mais alto. Essa inovação é o que define o seu trabalho como criador de conteúdos, já que o chef nunca repete uma receita, garante à CNN Portugal.

Desde os seus anos na universidade que Fábio tem uma agenda recheada. Na altura, estudava e dava aulas. Depois, em 2011, abriu a sua própria empresa de catering, com pelo menos três eventos por semana e, em simultâneo, presença ativa na televisão.  A pandemia foi o choque que espoletou esta nova fase da carreira. A pandemia “deixou-me num trauma”, diz, pois ficar parado foi como uma “tortura” para Fábio. Até que no dia 14 de março de 2020 tudo mudou: Foi nesse sábado que o chef fez o seu primeiro direto no Instagram e no Facebook.

Fábio, sentado no sofá, frustrado por não ter trabalho, decidiu ligar o direto, ensinou a fazer uma pizza e “o resto é história”. Agora, tem quase 100 mil seguidores. 

À CNN Portugal, abriu as portas de casa e mostrou a cozinha remodelada especialmente para a criação de conteúdos. Dos equipamentos às prateleiras e até a iluminação, o espaço ilustra ponderação e estratégia para as redes sociais. No pátio sente-se o cheiro a verniz. Outra secção da casa também está em obras.

Gerir os vários trabalhos e ainda ser influenciador não é fácil, porque “não é só um post”, afirma Fábio Bernardino. “O mundo digital consegue dar mais trabalho do que o catering ou os workshops ou dar aulas". 

Graças ao trabalho nas redes sociais, conseguiu alcançar mais pessoas, fazer crescer o nome da sua empresa, colaborar com marcas e, ainda, aparecer mais na televisão, mas essas vantagens não são as mais importantes para Fábio.

“Consigo retirar mais dinheiro do que nos outros trabalhos que tenho, mas acima de tudo eu e a minha equipa criámos uma comunidade”. Uma parte essencial da sua rotina diária, explica, é responder a todas as mensagens e comentários. É esse sentido de família que fascina Fábio e melhora os seus dias. Neste seguimento, os seguidores, para o chef, não são apenas personagens digitais, são amigos com quem conversa, convive e cozinha.

“Há dias menos bons, em que não tenho tanta energia ou não me apetece fazer o direto. Mas, mesmo assim ligo o telemóvel e gravo. Somos uma comunidade. Aconteça o que acontecer, às 19h estamos juntos”.

Fábio quer chegar a todos os seus seguidores e ser o mais inclusivo possível, pelo que trabalha a sua comunicação de forma a abranger pessoas invisuais. “As várias formações que fiz no ramo da comunicação fizeram-me perguntar: E um cego?” Como resposta, passou a descrever tudo o que faz, os ingredientes e até os utensílios que tem à sua volta quando cozinha. Além disso, “a simples escrita das receitas nas descrições das publicações permite que os meus seguidores que não veem consigam ouvir o que está escrito”.

Apesar das vantagens e da comunidade que desenvolveu, passar 100% para o digital não está nos planos do chef. “Não quero colocar todos os meus ovos na mesma cesta. E no digital há uma coisa fundamental. Consegues ver, ouvir, participar, mas não consegues comer e sentir. É essa a dimensão presencial que tem que haver sempre para mim”.

“Então agora a minha mãe vê-me com uma vulva na mão?”

8 de março de 2019 não foi só o dia da mulher, foi também o dia em que Tânia Graça colocou a ansiedade social de lado e tomou a decisão de começar a publicar conteúdos nas redes sociais. “Eu não sabia o que era produção de conteúdos ou que podia ser profissional nas redes. Senti que tinha coisas para dizer”. 

À parte das publicações por escrito e partilha de fotografias, em junho desse ano, sentada no chão do seu quarto, com o telemóvel num tripé improvisado feito de livros, Tânia Graça fez o seu primeiro vídeo. O medo de julgamento estava sempre presente. “É óbvio que me autocensurava. No início, as pessoas pensavam que estava armada em influencer e eu própria não estou isenta de tabus. Então agora a minha mãe vê-me com uma vulva na mão?”

Foi preciso coragem, explica a psicóloga de 31 anos. “Quem nos vê pode não ter consciência disso, mas há coragem em te expores assim”. Não foi fácil, mas a vontade de ajudar superou o medo. “Por um lado as pessoas precisavam, por outro engraçaram comigo e depois veio o crescimento rápido. Mas é importante que se diga, o meu sucesso tem muito a ver com a sede do conhecimento, porque ele não existe”. 

Cobertores e tapetes coloridos, posters motivadores, plantas e livros sobre sexo enchem o apartamento de Tânia. Com o seu habitual batom vermelho, recebeu a CNN Portugal a sorrir, com uma camisola chamativa e meias amarelas.

O lado sexual dos conteúdos não esteve sempre presente na sua carreira. A falta de educação generalizada sobre o tema e a sua paixão por relações entre pessoas foram as principais motivações para começar a partilhar o seu conhecimento.

“Vivemos num mundo em que o corpo feminino não é nosso e, para além disso, ainda é público. Somos ensinadas a ter cuidado porque podemos provocar o outro, a não ser sexuais porque temos de ser puras, mas também não podemos ser demasiado puras. Eu sempre quis ajudar e empoderar mulheres”.

A psicóloga cria conteúdos todos os dias. O telemóvel pode ligar-se para as rubricas que já tornou fixas, mas quando a inspiração ou um pensamento se impõem, Tânia Graça segue o ímpeto e diz o que sente. "Sempre baseado em estudo e conhecimento", assegura.

Tânia Graça acredita que, sem o trabalho nas redes, não conseguiria ter acesso a tantos projetos e ligar todas as suas paixões. Com a criação de conteúdos, a sexóloga conseguiu passar do trabalho de terapeuta numa associação onde ganhava 800 euros por mês, para fazer rádio, participar em programas de televisão, escrever num jornal, e assim ter mais rendimento financeiro e “ajudar cada vez mais pessoas”. Todas estas vertentes são formas que a sexóloga tem de “revelar diferentes lados, mostrar todas as minhas personalidades” e é assim que se sente mais realizada, afirma à CNN Portugal.

Ser só criadora de conteúdos “está fora de questão”. O contacto com as suas pacientes, a televisão, a rádio, são algumas das razões que fazem Tânia manter a ligação entre o presencial e o online. 

Ter a principal ferramenta de trabalho sempre à mão faz com que se torne difícil desligar. “Há dias em que acordo e deito-me com o telemóvel na mão. Faço sempre um esforço para parar, mas o meu trabalho é a minha missão de vida porque isso tudo se torna mais fácil”. Transmitir informação e fazer a diferença é o principal foco. Deste modo, e mesmo com uma agenda preenchida, o trabalho nas redes vai estar sempre presente na vida da psicóloga. 

Tânia Graça frisa que, acima de tudo, é psicóloga clínica e sexóloga, uma profissional que também usa as redes sociais: o conhecimento prevalece sobre a forma de chegar a pessoas. Ainda hoje, com mais de 200 mil seguidores, a palavra influencer lhe faz confusão. “No início não gostava, tinha preconceito e associava a um trabalho vazio e fútil. Agora, sei que qualquer pessoa é influencer. Porque todos nós influenciamos”.

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