Biden marca primeira viagem à Ásia para cimeira de segurança

13 abr, 05:09
Joe Biden na cimeira do Quad em Washington

O presidente dos EUA estará no Japão em maio, para conversações bilaterais e para uma cimeira presencial do Quad, a quadrilateral de segurança do Indo-Pacífico. O encontro sentará à mesma mesa EUA, Japão, Austrália e a Índia, cuja ambiguidade em relação à invasão russa da Ucrânia está a preocupar os restantes parceiros

 

A Casa Branca anunciou que Joe Biden fará em maio a sua primeira viagem à Ásia desde que é presidente dos Estados Unidos. Biden estará no Japão para participar numa cimeira presencial do Quad, a organização quadrilateral de segurança que reúne as quatro maiores democracias do Índo-Pacífico: Índia, EUA, Japão e Austrália. 

A cimeira está marcada para 24 de maio. esta será apenas a segunda cimeira presencial do Quad, e a primeira que se realiza na Ásia. Na véspera, Biden aproveitará a presença em Tóquio para uma cimeira bilateral entre os governos dos EUA e do Japão, um dos mais firmes aliados norte-americanos naquela região do mundo. 

A aposta dos EUA no Japão enquanto parceiro na região constata-se em pequenos pormenores: há um ano, Yoshihide Suga, o antecessor do atual primeiro-ministro Fumio Kishida, foi o primeiro líder estrangeiro convidado para ir à Casa Branca conversar com Biden; e o embaixador norte-americano em Tóquio é, desde há poucas semanas, Raheem Emmanuel, o poderoso ex-mayor de Chicago e antigo chefe de gabinete de Barack Obama.

 

Preocupações comuns com a China

 

Uma das primeiras ações de Biden na vertente externa, após ter tomado posse em janeiro de 2021, foi uma cimeira virtual do Quad. A opção pelo encontro à distância foi imposta pelas restrições relacionadas com a pandemia, mas a covid-19 não desviou a nova administração norte-americana da prioridade que quer dar à região da Ásia-Pacífico, seguindo o que já havia acontecido com os governos de Barak Obama e Donald Trump. 

Agora, apesar da centralidade que a Europa ganhou, por causa da guerra na Ucrânia, Biden quer reafirmar a aposta estratégica dos EUA nos países do Pacífico, sem perder o foco na emergência da China como nova super-potência regional e global, no que é considerado o maior desafio geopolítico que os EUA enfrentarão nas próximas décadas.

A guerra russa na Ucrânia - e a parceria tantas vezes reafirmada entre Moscovo e Pequim - acabou por acentuar as preocupações dos EUA e dos seus aliados na Ásia e no Pacífico perante as ameaças de segurança colocadas pela China. 

Todos os parceiros dos EUA que integram o Quad têm dificuldades de relacionamento bilateral com a China, nomeadamente do ponto de vista da segurança e defesa. Desde logo, são democracias que apoiam o regime democrático de Taiwan, a ilha que Pequim considera ter território seu e que ameaça vir a reanexar pela força. 

Mas há questões mais particulares de cada país: a Índia tem uma disputa fronteiriça com a China na região dos Himalaias, que há dois anos levou a um confronto militar efetivo; o Japão vê há décadas a China a reclamar a jurisdição sobre as Ilhas Senkaku, no sul do arquipélago nipónico, que Pequim reinvindica como sendo território seu; e a Austrália viu com alarme a China a fazer um acordo de segurança com as Ilhas Salomão, que permitirá às forças chinesas estabelecer uma base militar a pouca distância de território australiano. Em comum, todos estes casos demonstram a agressividade cada vez maior da China com reivindicações territoriais, seja em terra, seja nas águas de países vizinhos.

 

Uma Índia “tremida” em relação à Rússia

 

Apesar de partilharem a preocupação pelo crescimento da China enquanto potência militar e económica, os aliados do Quad não estão alinhados em todas as questões de segurança - e as maiores dissonâncias surgiram com a invasão russa da Ucrânia, que tem sido condenada de forma veemente pelos EUA, Japão e Austrália, mas não pela Índia.

A cimeira do Quad será um momento para as quatro grandes democracias do Pacífico reafirmarem valores comuns e, talvez, acertarem o passo na questão do relacionamento com a Rússia (que também tem há décadas uma disputa fronteiriça com o Japão).

A forma como a Índia tem destoado das restantes democracias na reação à invasão da Ucrânia tem tornado Nova Deli uma das capitais da diplomacia internacional. Os primeiros-ministros do Japão e da Austrália lá estiveram para reuniões com o seu homólogo Narendra Modi. Também os chefes da diplomacia do Reino Unido, da China e da Rússia estiveram nas últimas semanas em Nova Deli. E na segunda-feira, Modi e Biden falaram por videoconferência durante uma hora.

Na reunião, ambos sublinharam o seu "compromisso comum, como líderes das maiores democracias do mundo, de respeitar a soberania e a integridade territorial de todas as nações no Indo-Pacífico e mais além", de acordo com o relato oficial feito depois pela Casa Branca.

Mas a Índia continua sem condenar Moscovo pela invasão da Ucrânia e recusa a aderir às sanções económicas dos EUA e seus aliados. Modi disse a Biden que a situação na Ucrânia é "muito preocupante", e disponibilizou assistência humanitária àquele país. Mas não se comprometeu com nenhuma das questões levantadas pelos EUA - acima de tudo, travar a dependência crescente em relação ao petróleo russo.

Segundo a Casa Branca, Biden deixou "muito claro" que, na opinião dos EUA, não é do interesse da Índia aumentar as importações de energia e outras mercadorias russas. E voltou a disponibilizar a ajuda dos Estados Unidos para que a Índia diversifique as suas fontes de petróleo. A secretária de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, salientou depois que os Estados Unidos são atualmente um fornecedor muito maior do que a Rússia, que representa apenas cerca de 1% ou 2% do total das importações de crude da Índia. 

Os EUA querem também reequilibrar a dependência da Índia em relação ao armamento russo. A Rússia é tradicionalmente o maior fornecedor de armas à Índia, tendo vendido cerca de 60% de todos o equipamento militar adquirido por Nova Deli na última década. Numa cimeira que juntou em Washington, na segunda-feira, os ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros dos dois países, foram assinados diversos acordos de cooperação na área da segurança e defesa, nomeadamente com o compromisso de aumentar a partilha de informação.

Com a Índia especialmente focada nos ganhos económicos que poderá retirar da situação de fragilidade da Rússia, também a frente económica esteve sobre a mesa nas conversações de segunda-feira com a administração norte-americana. Modi saudou o Quadro Económico Indo-Pacífico, uma iniciativa de envolvimento regional que a administração Biden está a promover, como forma de responder à crescente influência económica da China. A iniciativa será lançada "nas próximas semanas", segundo o secretário de Estado norte-americano Antony Blinken, que prometeu vantagens mútuas em áreas como a resiliência da cadeia de fornecimento e o investimento em infraestruturas.

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